Pensei em dizer a ele que a maneira como eu tinha falado ontem não tinha sido proposital, que eu só tinha ficado um pouco nervoso. Mas, pensando bem, o que ele ia pensar se eu dissesse que fiquei nervoso? Enfim, nenhuma palavra saiu dali.
- Er... bom, vem tirar uma foto com a gente. Você é da nossa turma, não é? - eu perguntei. E que pergunta idiota a minha! Claro que éramos da mesma turma!
- Eu? Sou. Mas está tirando foto? Você vai sair?
- Sair?
- Sair... sair da escola, ué.
- Ah, não! Eu só gosto de tirar fotos mesmo. Guardar de recordação. Se nos tornarmos amigos, daqui a muitos e muitos anos poderemos ver isso e nos lembrar de quando nos conhecemos.
Ele sorriu, olhando para baixo. Era tímido. Sei reconhecer pessoas tímidas, isso eu garanto.
E, sendo assim, timidamente ele me abraçou e tiramos uma foto. Mais uma vez, alguma coisa estranha se passou dentro de mim. Pela primeira vez em minha vida eu tinha uma sensação estranha, porém, ao mesmo tempo, extremamente prazerosa.
- Obrigado. Ah, e eu acabei me esquecendo de dizer ontem meu nome.
Ele riu e disse que já o sabia. Fiquei surpreso.
- Então... se precisar de qualquer coisa, qualquer ajuda...
Eu estendi minha mão e ele a apertou.
Não sei por que, não conseguia explicar a mim mesmo o motivo deste impulso, mas senti uma vontade desesperadora de tocar a mão dele novamente.
Ele sorriu e se foi. Eu fiquei lá com meu grupinho, conversando, mas não sentia mais vontade de conversar mais com Túti e as outras meninas. Minha carência estava se tornando preocupante, eu pensei. Afinal, necessidade de calor humano tem limites.
- Túti é tarada por esse garoto aí, confessa, Túti. – Disse de repente Dorinha, falando sobre Eduardo.
- Eu? – Túti respondeu, encabulada – Mentira!! Não acredita nela não! Ela é que ficava reparando na perna dele, hahaha.
E as duas continuaram rindo e brincando ao falar dos atributos físicos de Eduardo Ngidaha.
- Ai, chega, Dorinha! – Túti exclamou olhando para mim – Deve estar sendo chato para ele, ter que ficar ouvindo a gente falar de homem.
- Pois é, seria até legal se ele fosse gay! Assim a gente podia falar à vontade e ele participava.
- Dorinha!!!!
- Que foi?
- Ai, meu Deus, como você fala besteira!
- É, Túti, eu esqueci que você ia ficar desiludida!
Túti corou e mudou de assunto.
Eu fiquei um pouco sem graça, mas ri da brincadeira.
“Gay”??? Aquelas palavras caíram forte no meu ouvido. Eu não podia ser gay, simplesmente não podia. Eu era um garoto comum, com “jeito de homem” como todos os outros ali, logo, como poderia ser gay? Olhei com força para algumas garotas bonitas e tentei imaginar “besteiras”.
De nada adiantou! Achava as moças bonitas, e só. Não adiantava, percebi ali que não se tratava de uma escolha, meninas não me atraíam.
Eu tinha sim uma escolha: mentir para mim mesmo e ficar com uma menina mesmo sem que ela me atraísse. Mas isso seria desonesto comigo, e desonesto com ela. Talvez eu não ficasse com ninguém, ponto. Mas que vida infeliz seria a minha! Será que eu merecia isso? Se não há nada de errado, nada de nocivo à saúde, por que eu deveria me privar de ser feliz como meu corpo naturalmente pedia? Em nome de uma moral? Uma moral criada pelo ser humano?
Tudo isso passou pela minha cabeça como um raio.
Tentei prestar o máximo de atenção possível à aula e me desligar de tudo.
A matéria estava interessante neste dia e eu estava tão concentrado que, na saída, ao passar a carteirinha, mal percebi uma voz grave, máscula, forte, e ao mesmo tempo suave e doce, falando comigo.
- E aí, Christian? Essa carteirinha é uma droga, né? Nunca sei de que lado da máquina eu passo.
Eu sorri e concordei. Nunca sabia ao certo o que dizer quando estava perto de Eduardo. Agora começava a entender. “Encare seus medos”, eu pensei, “nada acontece por acaso, tudo tem um motivo, confie”. Olhei para a frente, tomei uma dose de coragem e respirei fundo um pouco de confiança... encarei seus olhos por um segundo. Eram os olhos mais lindos que já tinha visto em toda minha vida. Um verde tão doce, mas ao mesmo tempo tão ácido, como uma fruta cítrica.
Ele abriu um sorriso, o que não ficava para trás, seu sorriso era perfeito, e seus lábios eram grossos, porém não grossos demais, eram na medida certa. Apenas o suficiente para me deixar com uma vontade forte, quase incontrolável de chegar perto, bem perto, bem devagar, bem de leve e suavemente tocá-los com os meus. Tudo aquilo passava pela minha cabeça naquele segundo.
- Bom, eu estava pensando... – ele continuou – se você não quer ir comigo almoçar. Eu sei que você sempre almoça na escola, e eu vou ter que ficar para as aulas da tarde todos os dias. Sabe como é, eu quero fazer medicina.
- Ih, rapaz, vai ter que estudar muito.
- Pois é, mas é meu sonho. Os moleques da turma ficaram dizendo hoje “para mim desistir”.
Erro cruel de português, o que passava imperceptível aos meus ouvidos. Mas, naquele momento, nem isso conseguia estragar o prazer que eu sentia ao estar tão perto de Eduardo.
- Bom... – eu disse, tentando manter a concentração e a seriedade, e não dar uma de bobão apaixonado, o que poderia me custar extremamente caro – você quer que eu diga o que EU acho?
- Fala.
- Meu caro amigo, se você realmente ama a medicina, se é isso que você quer, corra atrás. Vá atrás do seu sonho, ele não é impossível. Ninguém além de você mesmo tem o direito de lhe dizer para desistir.
Ele ficou pensando no que eu tinha dito por alguns segundos e abriu um sorrisão, sorriu com seu jeito simples e bronco, mas feliz e verdadeiro.
- Vou fazer isso. Eu prometo. Obrigado por não me mandar desistir, como os outros. Você é um grande amigo, sempre soube que seria, mesmo conhecendo tão pouco.
Eu sorri, muito encabulado, porque ele pareceu ter ficado sem graça logo após dizer isso.
- Bom... vamos almoçar?
- Claro, vamos!
Conversávamos sem parar enquanto nos servíamos, e também durante o almoço. Ele sem dúvida tinha muito menos maturidade e cultura do que eu, mas era esperto e ouvia atentamente tudo que eu dizia com a maior atenção e seriedade. E me admirava cada vez mais.
Quando acabamos, ele estava rindo como um bobo alegre.
- Você é demais! – ele dizia enquanto abria um grande sorriso. - Vamos almoçar amanhã de novo? Que tal? Tudo bem para você...?
- Claro! Sem dúvida! Aqui mesmo?
- Aqui mesmo! – ele disse sorrindo fortemente e olhando para baixo, como quem não consegue olhar nos olhos da pessoa com quem se fala. – Agora eu tenho que ir. A gente se vê.
Disse e saiu. Eu nem podia acreditar em tudo aquilo, estávamos nos aproximando com uma velocidade incrível. Mas eu sabia que não podia ter ilusões. Sabia, mas mesmo assim, uma parte de mim queria tê-las.
Algo estava comigo e não tinha mais volta. Não havia como ignorar e não podia (nem queria!) guardar para mim mesmo. Ah, como eu gostaria de poder confiar isso ao próprio Eduardo! Eu TINHA que desabafar.
(Continua...)
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oiiii
ResponderExcluiradorei a nova historia ,
ficou d++++
escreva oresto pq eu quero saber oq aconteceu ,
e quero te convidar pra visitar meu blog ,
vc sera muito bem vindo !!!
http://mylifeyouseelovefrommusic.blogspot.com/