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sábado, 21 de novembro de 2009

A carta de amor proibida (parte 3)

Assim o dia seguinte chega.
O pessoal já está no pátio, eu chego assobiando e cantarolando. Meu ânimo devia estar mais evidente do que eu podia imaginar, porque as meninas todas olharam para mim.
- Bom dia, Túti, Nana, Dorinha... – tom de ânimo intenso e ainda cantarolando.
- ...
- Que foi, gente? Que carinhas irônicas são essas? – eu perguntei, sem graça, mas sorrindo.
- Você está tão diferente. – Dorinha disse, com ar malicioso.
- Eu?
- Totalmente diferente, amigo. – respondeu Túti.
- Eu acho... que nosso amiguinho está apaixonado! – Dorinha disse, por fim. – Ai, gente, está na cara.
- Eu?! Hahahaha, eu não!
- “Eu nãaaao”! – elas diziam, imitando.
Eu ri.
- Ah, pensem o que quiser.
O assunto mudou, conversamos por um tempo, mas Túti ficou com a pulga atrás da orelha e, depois da aula, ela me procurou.
- E então? Não vai me contar?
- Contar o quê?
- Você saaaabe! Safadinho! Hehehe!
- Hehehe.
- Pode me contar. Sou sua amiga, não conto a ninguém!
- Tudo bem, minha amiga. Então, eu preciso lhe contar uma coisa.
- Claro, estou ouvindo.
- Eu acho que... eu acho que estou apaixonado!
- Ahhh, mas isso é ótimo! – ela disse abrindo um grande sorriso. – E eu acho que já sei quem é... hehehe.
- Sabe?
- Claro que sim!
- Mesmo?
- Mesmo!
- Ah, Túti... como você pode saber?
- Oras, seu bobo, está na cara. E além disso, você se esqueceu de que eu conheço bem você.
- Nossa, então...
- Então eu sei que você está gostando da Dorinha!!!! Acertei?
- Não!
- Não? Então... com certeza a Nana
- Hahaha, também não!
Ela foi ficando séria.
- Diz quem é, por favor.
- Túti... estou apaixonado pelo Eduardo.
Silêncio de alguns segundos.
- Eduardo?
- Sim.
- Eduardo Eduardo? Eduardo que tem um carro?
Eu nem sabia que Eduardo tinha carro.
- Eduardo Eduardo, ué. Eduardo mulato de olhos verdes. O único Eduardo.
- Ah... legal. – tudo que ela conseguiu dizer, com um tom de voz fúnebre.
- Não é legal... – eu disse desanimado – eu acho que ele nunca vai poder me corresponder. E o que eu sinto por ele é tão forte. É tão estranho, eu nunca imaginei que sentiria isso.
- Sei.
- Talvez seja melhor eu guardar isso para mim e tentar esquecer.
- Talvez seja mesmo.
-...
- O Eduardo é muito infantil, muito imaturo ainda. No começo do ano eu e Dorinha fazíamos de tudo para chamar a atenção dele, chamávamos para sair, mas ele nunca dava bola. Ele é muito imaturo mesmo. Mas olha, vai fazendo amizade com ele. Quem sabe vocês não se aproximam mais e mais?
- É, talvez você tenha razão.
Nos próximos meses que se seguiram, eu e Eduardo sempre almoçávamos juntos. Em uma dessas conversas acabei descobrindo que Eduardo era vizinho de meu pai, que eu não via há muitos anos.
Nos próximos meses que se seguiram, eu e Eduardo sempre almoçávamos juntos. Em uma dessas conversas acabei descobrindo que Eduardo era vizinho de meu pai, que eu não via há muitos anos.
Passei a fazer visitas ao meu pai, ia de carona com Eduardo, depois da escola.
Se eu fosse descrever esses dias de visita, não haveria espaço aqui. Eu e meu pai parecíamos desconhecidos. Havia anos que eu não o via, desde que ele e minha mãe se separaram. Ele nunca me procurou e nem eu a ele. Quase não conversávamos, e durante quase todo o tempo meu pai estava embriagado. A casa estava em péssimas condições, e ele resmungava vez ou outra que tudo era culpa da minha mãe, que o havia largado.
Eram fins de semana infernais, que só valiam a pena porque, para chegar até lá, pegava carona com Eduardo.

Segunda feira.
- Bom... eu trouxe o DVD do filme que eu copiei para você, eu tinha prometido há um tempão.
- Ahhh! – ele exclamou, sem graça e sorrindo – valeu mesmo! Você fica gastando seu tempo e seus DVDs comigo. Mas vai ter volta, heim! Você vai ver.
Ele iria embora mais cedo naquele dia, assim que o intervalo acabasse.
Eu voltei para a sala de aula. Estava concentrado na matéria (ou tentando) que o professor estava explicando, quando alguém bateu no vidro da sala. Não prestei atenção. O garoto que estava ao meu lado me cutucou:
- Ei, acho que ele está chamando você.
Olhei para a porta. Era ele, o Eduardo, no vidrinho da janela, olhando para mim, rindo e dando “tchauzinho”.

O professor parou a aula.
- Senhor Eduardo Ingidaha, esqueceu algo na sala? – disse o professor.
Ele ficou de todas as cores e em seu estado de atrapalhação, quase deu com a testa no vidro.
A turma riu.
- Não, não, já estou indo embora, professor. Boa aula aí.
Eu ria junto com a turma, achando aquilo tão lindo, tão engraçado e tão fofo! Tive um ímpeto louco de me levantar correndo, abrir a porta, segurá-lo, abraçá-lo forte e não deixar que se separasse de mim. Mas era melhor tirar essas imagens da minha cabeça e voltar à aula. Olhei mais uma vez para a porta, para minha surpresa ele ainda estava lá. E olhando para mim, com um sorriso fofo nos lábios.
“Obrigado pelo DVD” – ele sussurrou bem baixinho, mas pude ler a frase em seus lábios.
Depois da aula, almoçamos juntos. Eu, as meninas e Claudio. Eu começava a sentir Túti mais distante de mim do que no começo do ano, quando éramos tão próximos, como se agora ela não tivesse mais tanta vontade de ser minha amiga. Talvez eu estivesse sendo muito injusto ao pensar assim. O fato é que eu me sentia inseguro, tinha vontade de abraçar meus amigos, de chorar, de gritar, de dizer que sentia medo, que me sentia sozinho... que tinha medo de que não houvesse um mundo melhor do que esse me esperando, algum dia... e que não houvesse de fato um sentido da vida.
- O que houve? Ficou calado de repente. – Cláudio disse, me animando.
- Ah, nada... só estava pensando no fim do ano. Vou sentir falta desses almoços da gente.
Todos prometeram que não perderiam o contato, e que sempre nos procuraríamos, mesmo depois que as aulas acabassem.

- Túti... – eu chamei, quando ficamos sozinhos. – Está tudo bem?
- Ah, sei lá, estou pensando em terminar com Cláudio.
- Por quê? Ele é tão bonzinho e gosta tanto de você... você não gosta mais dele?
- Não, não é isso! – ela dizia, meio assustada com minha pergunta.
Ela dizia que não era, mas se tinha algo que eu percebia, desde pequeno, era quando uma pessoa gostava da outra. E os olhos dela já não brilhavam para ele, se é que haviam brilhado em algum dia.
- Então... Há algum motivo?
- Ah, é aquela garota. Aquela Célia!
- Uma gordinha de óculos?
- Sim, ela mesmo. Ela fica “dando em cima” do Cláudio.
- Sinceramente, eu nunca percebi isso. Eles sempre foram amigos, assim como você é minha amiga.
- Ah, eu não sei, não. Para mim, ela é uma safada!
- Haha, Túti... isso pode ser coisa da sua cabeça.
- Eu já falei para ele que não gosto dela, que não quero que ele fale com ela.
- Mas, Túti, você não pode proibir o rapaz de ter amizades. Você gostaria se ele proibisse você de falar comigo?
- Não sei, estou tão confusa... mas algo me diz que eu devo terminar. A menos que ele mude...
- Mudar o quê?
- O jeito dele.
- Como assim?
- Sei lá... não sei explicar.
- Túti... algo me diz que você não sente nada por ele... honestamente, se for realmente isso, o ideal é terminar mesmo. Mas eu duvido, aliás, tenho certeza de que ele não tem e nem quer ter nada com a Célia. Ele só tem olhos para você. Olhe, veja seu reflexo... tire os cabelos do rosto... veja como você é linda!
Era verdade. Cláudio nunca olhou para essa menina, que apesar de popular no colégio, não tinha um terço da beleza e do charme de Túti.
- Ah, eu não sei, amigo.... estou me sentindo tão confusa... Me abrace...
Eu a abracei.

Chegou o fim do ano. Formatura. A festa aconteceu em um lugar bem chique, todos arrumados. Lá pelas tantas aparece Guilhermino, o garoto guitarrista. Ele, que estava sempre de preto e com jeitão de menino mau, parecia engraçado, todo engomado no terno e gravata.
- E aí, cara? Tanto tempo estudando juntos e quase não nos vemos. Bate aqui, “rapá”!
- Guilhermino, tudo bem? Bom ver você por aqui.
- Guilhermino não, cara. Montanha! – ele corrigia.
- Hehehe, está bem, Montanha.
Mas eles percebiam que eu não parava de olhar para os lados, como se procurasse alguém, e não fazia isso voluntariamente. Quando dei por mim, estava com a cabeça girando para todos os cantos daquele imenso e luxuoso salão, e estavam Montanha, Túti e Cláudio olhando para mim.
- Você está bem, cara? – perguntou Cláudio, com aquele seu jeito bonzinho e abobalhado de sempre.
- Ah... sim, estou sim.
- Está esperando alguém? – Montanha falou.
- Não, não... Hehehe, vamos ouvir a apresentação dos corais, já estão começando.
Durante a apresentação, Guilhermino (Montanha) ia falando comigo, bem baixinho. Ele não parava de falar, era muito tagarela. E eu, que antes já não prestava atenção a nada, agora prestava menos ainda. Apenas olhava para os lados e enxergava uma multidão confusa. Não, Eduardo não estava ali. Todos que tinham que vir, já tinham chegado. Os outros estavam viajando.
De repente, o coral começa a cantar alguns temas de musicais, alguns lindos, músicas que tinham marcado minha infância. A emoção era intensa. No meio daquele som perfeito, um ambiente mágico, eu sinto alguém se aproximando devagar. Imagine isso em câmera lenta, como em um filme. Ele se aproxima, anda até perto dos bancos onde estávamos sentados... eu congelo, não posso olhar para trás...
Montanha, sussurrando, me diz:
- Olha, o Eduardo está aí.
Não entendi o porquê de ele ter me dito isso, será que ele sabia de tudo? Mas não importava.
- Vai lá falar com ele, cara. – ele disse.
Eu olhei... era ele! Eduardo! Estava lindo, lindo como nunca havia estado antes... vestido de terno e gravata, parecia mais maduro do que antes, mais homem, mais másculo, mais responsável.
A música então acaba, pausa para as próximas apresentações, onde homenageariam os professores e fariam os discursos.
Como em câmera lenta, eu me levantei, o sorriso era impossível de ser disfarçado. Levantei, me desviei de Célia, de Montanha, de Túti, de Cláudio, de todas as pessoas que estavam à minha frente. Sem controlar qualquer impulso, eu me aproximei, me aproximei... e abracei Eduardo com toda a força e vontade que pude reunir, encostando minha cabeça em seu ombro forte.
Ele sorria e me abraçava de volta com a mesma intensidade, porém um pouco sem jeito.
- Eu sabia que viria.
- Eu também sabia que veria você, meu grande amigo!
Eu o larguei e ele foi se sentar na outra fileira de bancos, já que a fileira em que eu estava já tinha sido toda ocupada. Eu não podia tirar os olhos dele nem por um segundo.
A formatura foi linda! Mas, agora que o ano havia acabado, como ter uma desculpa para vê-lo de novo? Precisava ver Eduardo novamente, e rápido, do contrário eu sufocaria, como se precisasse dele para respirar.
A ocasião veio depressa. Combinamos todos de nos encontrarmos para jantar e matar as saudades. Túti, Nana, enfim, todos da turma. Durante todo o tempo, Eduardo e eu conversamos. Na hora de ir embora, ele me deu carona, eu ficaria na casa do meu pai.
Quando estávamos sozinhos no carro, ele me disse, rindo:
- Quer dizer que você tem bichinhos de pelúcia no quarto?
- Sim.
- E livros de contos de fadas...
- Sim, ué. Algum problema?
- Pô, cara, que vacilo...
- Ah, Eduardo... você não entende? A sociedade fica o tempo todo ditando regras sobre o que devemos gostar ou não... quem disse que rosa é de menina? Quem disse que azul é de menino? Isso é algo que alguém inventou, é cultural. Você acha que é o certo porque cresceu ouvindo isso desde pequeno, mas imagine se tivesse aprendido o contrário, neste momento estaria acreditando no contrário.
Ele me ouvia, muito sério, enquanto seguia na direção do carro por aquela estrada escura durante a noite.
Eu continuei:
- Esse é o problema do ser humano. Temos uma dificuldade imensa em acreditar que tudo aquilo que aprendemos nada mais é do que uma invenção. Não nos conformamos, preferimos mentir para nós mesmos. Se você aprende que isso é madeira... – eu disse e bati de leve no vidro da janela do carro, e em seguida, em algum objeto de ferro que havia no interior do carro – você vai acredita que é madeira, e não importa quantas provas você tenha do contrário, digam que isso é vidro e aquilo é ferro, você sempre vai achar que são pedaços de madeira, mesmo que no fundo você saiba que está errado, vai preferir mentir para si mesmo. É assim que é o ser humano.
- Mas você não é assim...
- Não, não sou. Sabe, eu posso parecer frágil e introvertido, mas eu sou uma pessoa muito forte por dentro, Eduardo, e eu enfrento qualquer dificuldade para ser como eu sou, para ser honesto comigo mesmo e com os outros. Eu não vivo de aparências.
Ele continuava muito sério, como se, lá dentro dele mesmo, ele soubesse do que eu estava falando.
- O que foi?
- Assim, quando eu era pequeno...
Ele parava para pensar no que dizia, como se medisse cada palavra. Estava constrangido, embora tentasse não parecer.
- Pode falar com calma, estou ouvindo. Diga, meu amigo.
Ele sorriu sem graça, parou por alguns segundos e continuou:
- Eu costumava... usar coisas da minha mãe, salto alto, vestidos, essas coisas.

(Continua...)

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