"Meu grande amigo Eduardo,
Estou escrevendo esta carta para lhe dizer muitas coisas, mas especialmente para dizer uma muito importante. Peço que leia tudo atentamente.
Como já conversamos algumas vezes, nós vivemos em uma sociedade feita, obviamente, por seres humanos, sendo eles cheios de defeitos e imperfeições, o que faz com que essa sociedade seja cheia de injustiças e imperfeições. Infelizmente, a maior parte dos humanos é fraca e submissa à sociedade.
Você se lembra a respeito da nossa conversa sobre a madeira e o ferro? Se aprendemos desde pequenos que o ferro é madeira, vamos querer defender isso como verdade, mesmo que futuramente alguém nos mostre que não é! E este é, na minha opinião, um dos maiores problemas do ser humano. Nós nos recusamos a pensar e raciocinar sobre as coisas. Por que estamos aqui? Por que aprendemos as coisas desse modo? Será que isso é certo? Não, nós simplesmente aceitamos o que nos passam, sem nos questionarmos. Acontece que não evoluímos sem luta e sem questionamentos a respeito das coisas injustas.
Em minha opinião, não há nada mais importante na vida do que o amor, e é essa a minha maior indignação com nosso sistema. Somos impedidos de reconhecer nossas maiores demonstrações de amor verdadeiras porque fomos "bitolados" a apenas buscar padrões pré-estabelecidos. Por exemplo, sejamos realistas: dificilmente algum dos meninos de boa família que você conhece vai se casar com uma mendiga de rua, certo? Ou, pelo menos, seria algo difícil de acontecer. Mas você já parou para pensar que o amor da vida de um deles pode estar lá, e que quando eles a encontrarem podem não reconhecer, por conta dos padrões que eles sempre foram influenciados a buscar? Isso não vale só para classes sociais... vale para tudo!
É capaz de imaginar por que estou levando essa conversa adiante com você? Percebeu aonde quero chegar? Talvez você ainda não saiba, Eduardo, mas eu amo você! Eu não peço (nem poderia, jamais) que você me corresponda, nem mesmo que me compreenda... a única coisa que peço é que você respeite, como eu jamais o desrespeitaria. No entanto, independente de qual for sua reação, quero que saiba que nunca deixarei de gostar da sua pessoa, nem poderia, mesmo que quisesse.
Tudo isso talvez seja muito estranho para você... mas permita-se refletir a respeito: não há nada de errado nisso! Absolutamente NADA! Não sei se você sabe, mas antes da invasão da cultura cristã-judaico-muçulmana, o amor entre dois rapazes era considerado a coisa mais normal do mundo. Só que, como não podiam gerar filhos juntos, a igreja resolveu considerar esses tipos de relacionamentos como "pecaminosos", para evitar que nascessem poucas crianças, fazendo a cabeça de todos para que pensassem assim, sem ao menos se perguntarem o porquê. Hoje, nós descobrimos que, ao contrário do que se pensava, há crianças nascendo até demais... como prova do quão absurda foi essa proibição.
Até hoje nos forçamos a procurar pessoas do sexo oposto, sem parar para pensar que o amor não é assim, é muito maior que isso. Nós nunca sabemos como ele virá, que idade, cor, classe social terá... O amor é muito maior que um padrão.
Sei que você talvez se afaste de mim, tenha medo, tenha nojo, tenha raiva, não sei... muitas coisas podem se passar pela sua cabeça... mas apenas pare um pouco para pensar... será que não tenho razão sobre tudo que estou dizendo?
Você não sabe, Eduardo, mas quando vi você pela primeira vez, sentado naquela cadeira e conversando com seus amigos ao longe, percebi que amava você mais do que tudo, e me odiei por isso. Evitei chegar perto de você por um bom tempo e até fui grosseiro com você. Mas depois vi que não adiantava fugir, porque afinal... a vida é feita de problemas e eu nunca fui do tipo que fugia deles, sou uma pessoa muito forte por dentro, graças a Deus. É preciso ser muito homem para lhe dizer todas essas coisas.
Provavelmente você jamais entenderá... mas cada momento em que você passou ao meu lado fez com que eu me sentisse a pessoa mais feliz do universo. Quando você almoçou comigo pela primeira vez, quando lanchamos juntos na padaria, quando descobri que você morava no lugar onde passei minha infância, quando o abracei no dia da formatura, o jantar em que conversamos sem parar, meu aniversário... cada um desses momentos que me fizeram ver que valeu a pena ter nascido, que a vida realmente tem algum sentido. E, não importa o que aconteça, não importa MESMO, seja qual for o rumo que nossas vidas tomem, mesmo que eu nunca mais veja você outra vez... eu sempre me lembrarei de você (e sei que, de alguma forma, você jamais se esquecerá de mim também) e vou pensar em você com carinho. Para mim, o mais importante é que você seja feliz, seja como ou com quem for.
Nunca desista dos seus sonhos, Eduardo. E eu prometo que jamais desistirei dos meus... quem sabe, em outras vidas, em outro mundo... possamos nos encontrar de novo, ou até mesmo nessa... e eu possa ver o dia em que você olhe para mim com os mesmos olhos com os quais eu olho para você!
Você não precisa nem deve responder a essa carta! Nem me escrever ou procurar mais, se não quiser. Não quero ser invasivo, apenas pense sobre tudo isso e um dia talvez tornemos a nos falar sobre.
EU TE AMO PARA SEMPRE!
Um beijo grande de quem é, acima de tudo, seu grande amigo!"
Li tudo que estava escrito e cheguei a me emocionar e a suar frio. Eu sabia que aquele poderia ser meu último contato com Eduardo. Dobrei o papel, coloquei em um belo envelope vermelho e fechei. Em seguida, liguei novamente computador.
- Montanha... terminei a carta. Agora só me resta entregá-la.
- Não se preocupe, sei o que pode fazer. Eu devo estar com Eduardo hoje. Minha namorada mora perto de onde ele joga tênis, volta e meia eu vejo ele lá. Vou daqui a pouco sair, vou fazer uma visita para ela. Posso dar um jeito de falar com ele, e entrego a carta.
- Então estou indo encontrar você agora para deixar a carta.
- Valeu, moleque. A gente se vê em frente ao shopping.
- O shopping em que a gente estudava.
- Isso.
- Certo. Até logo.
- Valeu.
Estava nervoso, suando frio, quando encontrei Guilhermino no shopping e mostrei um rascunho da carta, em um papel velho, que continha as mesmas palavras, já que a que eu entregaria já estava fechada no envelope. Guilhermino leu atentamente e, por fim, disse:
- Cara, eu sou hétero, gosto de mulher, sempre gostei. Mas até eu me sensibilizaria se alguém escrevesse isso para mim, poderia ser quem fosse. Eu não poderia corresponder, mas valorizaria. É a coisa mais linda que já li em toda minha vida.
- Não sei se devo entregar isso a ele.
- Ahhh, quer saber? Entrega isso logo, Christian! Você tinha razão, meu amigo, acaba logo com isso.
- Acha mesmo?
- Acho!
- Então é isso aí!
- É isso aí, boa sorte! Estou torcendo.
A noite passou tão devagar... parecia que não acabava. Eu sempre tive pavor de noites assim, e agora tinha ainda mais. Quando finalmente consegui vencer minha insônia e adormecer, tive um sonho estranho... sonhei que vários rapazes muito bonitos e sorridentes pulavam no mar, ou em uma piscina... e nadavam, nadavam. Eram tão diferentes de mim, eram populares, queridos por todos... Eduardo estava entre eles e era o único que eu enxergava. Não desejava ninguém além dele. Por vários dolorosos minutos eu parecia ouvir uma voz me dizendo: “não vá até ele, se ele quiser, ele que o procure”. Além disso, eu tinha medo, tinha vergonha. Não o procurei. Ele me via, sabia que eu estava ali, mas era indiferente, de uma forma como jamais havia sido em todo o tempo que passamos juntos. Eu continuava sentado ao longe, conversando com meus amigos e me mantinha longe da água, como se não fizesse questão de falar com ele, quando na verdade a ansiedade era terrível. Por fim, não suportei. “Vou até lá, vou nadar e tentar conversar com ele, perguntar o que está acontecendo”.
Mergulhei, e como se o mundo se acabasse lentamente em uma vertigem azul-esverdeada, cor de mar, as imagens iam se misturando... risos, vozes, uma multidão de jovens, todos iguais, como se tudo se fundisse em uma nuvem, a imagem da água se fundindo aos rostos dos rapazes... todos rindo sem parar, tudo rodando, e uma grande tonteira. Eu não conseguia achar Eduardo, procurava incansavelmente, era desesperador. “Onde ele está? Nunca mais vou vê-lo?” Procurava, procurava, procurava, e por fim parecia ter desmaiado, tive uma sensação de queda, e acordei assustado.
Olhei para o sol devastador do dia lá fora, assustado e ainda com um pé no sonho, como se estivesse ainda no estado de transição entre a fantasia e a realidade.
Os dias foram se passando, Eduardo nunca me procurou e eu sabia que não teria coragem (e talvez nem devesse) procurá-lo ou telefonar. O tempo parecia mais lento do que nunca, ainda mais porque minhas aulas na faculdade ainda não tinham começado. Foi quando, em uma ou duas semanas, encontrei Guilhermino novamente, e ele tinha um olhar pesado, de quem tinha que dar uma notícia ruim.
- O que houve?
- Você ainda gosta do Eduardo.
- Honestamente, sim.
- Então você precisa deixar de gostar.
- O que houve?
Ele me contou exatamente o que havia acontecido e a cena pôde vir quase perfeitamente em minha cabeça.
- Edu! Quanto tempo, cara!
- E aí, Montanha! Tudo bom?
- Seguinte, sobre aquela parada do Christian... aquela carta que eu entreguei e que tinha te falado que não sabia de nada... pois é, cara, o Christian me mata se souber que eu te contei e que estou falando sobre isso, mas eu sabia sim. Sou uma das poucas pessoas que sabe. Acho que só eu e a Túti sabemos. Eu sou hétero, não tenho preconceitos e Christian é meu amigo, não consigo mais ver o cara nessa situação, há dias com ansiedade... então resolvi vir falar com você.
Eduardo ficou de todas as cores, o nervosismo era tão forte, tão forte, que até sua respiração chamava atenção. Engolia seco, e sua voz não saía dos lábios. Por fim, falou:
- Está falando daquela carta repugnante?
- Repug...
- Aquela carta suja, nojenta, asquerosa daquele garoto ridículo? Aquilo foi a coisa mais nojenta que já vi em toda a vida.
- Mas, cara, qual o problema de um menino gostar de outro? Se você não corresponde, diga a ele que não gosta e pronto. Precisa terminar uma amizade?
Eduardo não sabia o que responder, ele simplesmente havia aprendido que homens apenas podem se apaixonar por mulheres e vice-versa. Não sabia explicar o porquê, mas era isso que havia aprendido, e que o contrário era algo abominável, e isso já estava tão enraizado em sua criação que não adiantava mais dizer o contrário. Provavelmente era essa a razão de estar tão nervoso, gaguejando e sem conseguir pronunciar uma palavra. O suor escorria pela testa e sua cabeça olhava para todos os lados, como se estivesse com medo de alguém ouvir a conversa, e do que Guilhermino pudesse estar pensando a seu respeito.
- Cara, é nojento. Eu juro que eu acho isso nojento.
Guilhermino riu.
- Não precisa jurar nada para mim. Até porque isso, para mim, não faz a menor diferença. Acredito que para a maior parte das pessoas também não. Mas algumas ainda se deixam levar por preconceitos... Eu gosto de namorar mulheres. Christian é meu amigo e gosta de namorar homens. Ele me respeita e eu o respeito, não vejo motivo para...
Eduardo agora tremia.
- Algo errado?
- Eu? Não, de jeito nenhum!
- Eduardo... responde uma coisa com sinceridade?
Eduardo gelou.
- Por algum momento você já sentiu algo pelo Christian... digo, alguma dúvida, um sentimento ou algo mais forte?
- O quê???? Não!!!! Nunca! Eu odeio esse garoto! Eu falava com ele porque eu falo com todo mundo. Falava de dar oi e tchau. Mas sempre achei ele um idiota.
- Mas vocês viviam juntos, eu sempre via vocês almoçando...
- Porque eu não sabia! Se soubesse que ele era um anormal sujo e repugnante eu nunca teria me aproximado.
- Por que está tão nervoso? – Guilhermino permanecia calmo e tinha um ar irônico em sua fala.
Eduardo percebeu que suas pernas tremiam visivelmente, e que suava, sua voz estava diferente... não havia como negar que algo o deixara nervoso.
- É que...
- Hum...?
- Ele... o Christian tentou me agarrar. É isso, ele vinha tentando me agarrar à força há muito tempo.
- Sério? Que coisa!
- É sim, ele me agarrou e me segurou à força. Não conta a ninguém. – ele estava mais calmo, mas continuava olhando para os lados.
- Pode deixar.
- E toma cuidado você também, ele vai tentar te agarrar também. Você sabe do que esse tipo de gente é capaz.
- Vai ver que ele pensou ter visto alguma “bichice” em você!
Eduardo, se havia recuperado algum controle, agora tinha perdido de vez.
- Eu??? Está maluco, cara??? Eu gosto de mulher! De mulher!!!
- Entendi.
- Mas... esquecendo esse assunto nojento. Como anda a vida? – ele dizia tentando parecer natural.
- Boa, como sempre. Estou namorando a menina mais perfeita de todas. – respondeu Guilhermino.
- Que maneiro! Ah, você tem visto aquela gostosa da Priscila?
- Aquela dos decotes e das roupas justas? Vi pela última vez faz tempo...
- Então... ela é uma gostosa, cara... não paro de pensar nela.
Eduardo nunca falava sobre esse tipo de assunto, e a forma como falava justamente neste momento soava tão artificial que Guilhermino decidiu não levar a conversa muito à frente.
- Bom, cara, preciso ir. A gente se vê...
- Está certo... a gente se vê... mas olha, toma cuidado com o Christian, ele é perigoso, pode tentar te agarrar à força.
Guilhermino riu e disse:
- Pode deixar, cara. Pode deixar.
Quando Guilhermino terminou de contar, era como se eu estivesse saindo de um cinema e ainda estivesse perdido, com dificuldade de enxergar sob a luz forte. Eu podia imaginar a cena tão perfeitamente que parecia ter visto tudo em um telão, e agora as imagens desapareceram da minha cabeça da mesma forma como haviam chegado. Estava em choque!
- Cara... eu sinto muito. Não queria magoar você, mas precisava ter contado.
- Tudo bem, Guilhermino. – eu disse, por fim, em tom fúnebre - Você abriu meus olhos. Se não fosse por você, eu ficaria esperando até hoje por uma ligação dele, sem saber o que ele realmente pensava e dizia sobre mim.
- Aonde vai agora?
- Para casa...
- Há algo que eu possa fazer para ajudar?
- Não, não há. Obrigado.
Cheguei à minha casa com o aspecto de um fantasma, esperava não ter que ver ninguém. Uma vontade desesperada de desabafar tomou conta de mim, liguei para Túti e contei toda a história.
- Mas por que fez isso, Christian? Eu disse que não deveria mandar carta nenhuma!
- Eu precisei. – eu disse.
- Está louco, Christian? Como pôde ter dito a ele?
- Como ele pôde ter sido tão canalha?
- Eu avisei! Eu avisei! Se não tivesse feito isso, ao menos manteria a amizade.
- Pelo visto, nossos conceitos de amizade são bem diferentes. Se ele fosse meu amigo verdadeiro, procuraria compreender.
- Por que o Montanha foi falar com ele? Não tinha nada que ter falado.
- Ele me abriu os olhos... Agora eu vejo que não fazia sentido acreditar que o amor chegaria para mim...
- Que ridículo!
- Ninguém olhou para mim.
- Eu olhei para você! Logo que nos conhecemos, e você não notou.
- Como? – eu não sabia o que dizer.
Silêncio de alguns segundos.
- Você não pode culpar o Eduardo... – ela disse, nervosa, e por fim acrescentou: - ele tem o direito de ser hétero.
Aquela frase me feriu de uma tal forma que seria impossível descrever. Eu amava minha amiga e sabia que ela me amava também, que queria meu bem. Mas aquilo havia me destruído, era a gota d´água. Ser hétero era sinônimo de parar de falar com um amigo? Desligamos e decidi parar de falar com ela e com todos, pelo menos até minha cabeça esfriar.
Mandei apenas uma nova carta para Eduardo:
Eduardo,
Tudo bem?
Estou lhe escrevendo pela última vez só para lhe dizer que você tem toda razão, rapaz. Não devo mesmo gastar meu léxico com um semi-analfabeto. Pode ficar tranqüilo, jamais tornarei a escrever para você ou falar com você nesta vida.
Quanto a mim, você não precisa se preocupar, afinal, sozinho eu não ficarei, já que eu “agarro as pessoas à força”. Só gostaria de me lembrar de quando foi que eu agarrei você. Por favor, me lembre de quando foi que isso aconteceu, pois realmente não consigo me lembrar.
Pensando bem, não me diga, nem perca seu tempo, pois não vou ler suas respostas.
Adeus.
Os dias se tornaram meses, anos... a sensação era terrível, como se eu estivesse morrendo. Não chorei, por mais surpreendente que isso possa parecer. As lágrimas não desciam, eu estava apático, morto por dentro. Mas mesmo quando se morre, tem-se a chance de nascer de novo, se quiser.
Foi algum tempo depois que esbarrei com Nana, a menina tímida e amedrontada que andava conosco na escola. Resolvi conversar com ela, dizer oi e começar a falar sobre os tempos do colégio. Como em um impulso, deixei toda a história escapar de minha boca, tudo que aconteceu desde o princípio. Ela continuou me olhando com o mesmo olhar doce de sempre, perguntei se estava tudo bem, e ela apenas disse, com toda a doçura:
- Isso, para mim, não faz a menor diferença. – foi a maior frase que já ouvi de Nana em toda minha vida.
Aquelas palavras tão doces e sinceras me fizeram perceber que, se um amigo realmente gosta de mim, eu não devo ter medo de dizer nada a ele. E tive certeza de como fiz bem em ter dito tudo que sentia. Um peso saiu das minhas costas.
Voltei a falar com Túti. Por algumas vezes combinamos de almoçar todos juntos, como nos tempos de escola.
Jamais vi Eduardo outra vez, ou tive notícias dele. Guilhermino também nunca mais o encontrou.
Durante muito tempo, acreditei que jamais pudesse me apaixonar novamente. Mas no fundo, eu sabia que isso seria impossível. Amar alguém era minha sina, e se isso não fosse possível para mim, eu tentaria até o último dia de minha vida. Jamais perderia as esperanças de encontrar alguém. Não alguém qualquer, mas alguém MUITO especial que fizesse meus olhos brilharem, meu coração bater mais forte, meu estômago congelar e o mundo reluzir de uma forma mágica e encantadora... e que sentisse exatamente o mesmo por mim.
Seria impossível? Agora eu não era mais um garoto. Os tempos de escola acabaram. Era o início de um novo tempo. Quem sabe, com ele, em meio a tantos rostos, eu não encontrasse o daquela pessoa tão especial e que também estivesse esperando por mim?
Todos merecem ter alguém, se apenas esperarem, se apenas acreditarem. E eu acreditaria nisso... para todo o sempre!
sábado, 21 de novembro de 2009
A carta de amor proibida (parte 4)
Aquilo foi como um choque. Não que eu o julgasse ou condenasse, de forma alguma! Mas era algo totalmente inesperado. Aquele homem bonito, jovem, com um corpo atlético e uma voz grave... usando coisas femininas! Eu nunca usei coisas femininas, nunca tive vontade de experimentar nada da minha mãe, e no entanto eu era homossexual. Achei estranho. O que isso significaria? Talvez, que ele fosse ainda mais homossexual do que eu? Eu não sabia, apenas me sentia confuso, imaginava a vida de Eduardo, uma família tradicional, amigos riquinhos e sarados que viviam na academia, a popularidade, as aparências, o personagem que ele deveria ter que vestir, o que eles diriam se ele sequer sonhassem em desabafar sobre algo assim.. senti uma vontade fortíssima de abraçá-lo naquele instante, segurar suas mãos e dizer que tudo estava bem, que podia confiar em mim, que eu o protegeria. Mas nada diz, apenas continuei ouvindo, procurando não julgar, procurando apenas ouvir, e aceitar, amar sem querer nada em troca.
- Eu... eu... eu às vezes fico pensando, sabe... nessas paradas que você fala... – ele tropeçava em cada palavra, o nervosismo era visível.
- Entendo.
Por mais alguns segundos ele se calou e então não disse mais nada. Mudou de assunto para algum que não rendeu muito. Ficamos em silêncio até chegarmos à casa do meu pai. As luzes ainda estavam acesas, ele certamente estava acordado e bebendo.
- Eduardo, obrigado pela carona. Amanhã nos veremos de novo?
Mais uma vez fui contemplado pelo brilho de seu sorriso, aparentemente cheio de malícia (talvez não, talvez fosse auto-sugestão e nada daquilo que ele havia me dito quisesse realmente dizer algo que eu quisesse ouvir), eu estendi minha mãe para que ele apertasse.
O carro estava escuro, a noite era silenciosa e quase não podia ver seu rosto. Ele se aproximou devagar, como se calculasse cada movimento e, sem se levantar do banco do carro, aproximou seu corpo do meu (a cada segundo, seus movimentos pareciam mais lentos), eu estava imóvel, não respirava. Então ele me abraçou bem forte.
- Obrigado por fazer parte da minha vida.
- Eu que agradeço por você ter me deixado ter entrado na sua, ainda que só um pouquinho.
- Até amanhã, meu amigo.
- Até amanhã!
O fato é que, querendo ou não, nada daquilo podia ser ignorado. Fui dormir, ou tentar. No dia seguinte, veria Eduardo... isso era o que contava.
Acordei cedo, tomei um banho no chuveiro gelado do meu pai. No exato segundo em que saí do banheiro, já vestido, arrumado e perfumado, meu pai me passa o telefone.
- Pra você! – ele disse, com a voz seca e mal humorada de quem havia passado a noite anterior inteira bebendo.
- Alô!
- Alô! - Eduardo!
- Hehehe, e aí, rapaz? Tudo bem? Estou a fim de dar uma passadinha aí, pode ser?
- Claro! Pode e deve.
- Então demorou... adivinha onde estou.
- Onde? - Vá até o portão e dê uma olhada.
Abri a porta, lá ele estava, de dentro do carro, falando no celular.
- Seu bobão! Precisava trazer o carro? Você mora a poucas ruas daqui.
- Hehehe, entra aí. – ele disse, com um sorriso malandro.
Olhei para ele. Como estava lindo! Era, de fato, o rapaz mais deslumbrante que já tinha visto na vida. A luz forte daquele dia quente de sol penetrava em seus olhos, que penetravam em minha alma. Estavam com um tom de verde-azulado claríssimo, e pareciam me remeter à água quente e suave do mar em um dia tranqüilo, sem ondas, sem pessoas, sem problemas, sem preocupações, sem o medo... Apenas a luz do sol, o mar suave e morno.
- Vou te levar para dar um passeio.
Enquanto passeávamos com o carro e víamos o condomínio, as casas (passamos em frente à casa dele e eu vi sua mãe ao longe), íamos conversando sem parar.
Depois saltamos do carro.
- Ótimo, agora eu vou te levar para passear, e do jeito que eu mais aprecio: a pé!
- Ah, fala sério...
- Nada disso, deixe de ser preguiçoso! Um rapaz forte, bonito e saudável, que joga tênis e malha todos os dias, com preguiça de andar? Uma vergonha isso. – eu dizia, brincando com ele.
Ele riu e fez menção de fugir, voltar para o carro. Sem maldade, eu fiz o que faria com qualquer amigo ou amiga, segurei seu braço e puxei de volta, para perto de mim. O mundo parou, eu congelei, a temperatura do meu corpo mudou e também minha respiração. Não conseguia soltar, era como se estivéssemos petrificados. Assim ficamos por algumas frações de segundos, não sei quantas, mas pareciam compor o momento mais delicioso de toda minha existência até então.
Fui soltando devagar, agora estávamos bem sérios, os sorriso tinham se desfeito em nossos rostos. Ele me encarava profundamente, sério e ao mesmo tempo com afeto, e também com um pouco de medo, sem saber o que fazer ou dizer.
Passeamos por aquelas ruas, aquelas mesmas pelas quais eu havia andando na infância, antes de meus pais se separarem... via aquele mesmo verde, as mesmas casas, agora tão diferentes, as mesmas placas, o mesmo rio. Praticamente nada havia mudado. Era como voltar no tempo. A emoção era muito forte, e enquanto íamos nos perdendo no verde daquele belo lugar, eu queria apenas me perder no verde seus olhos.
- Olha só... – ele disse, por fim.
- Sim?
- Preciso ir embora, tenho um assunto sério para resolver hoje, e ainda não almocei... acho que você me fez perder a noção de tempo, hehehe.
- Hehehe, que bom, então! Sinal de que você gosta da minha companhia.
- Bom... eu preciso ir. A gente vai se ver novamente amanhã... eu faço questão de te dar uma carona pelo menos até a saída do condomínio.
- Se não for incômodo...
- Então...
- Então?
- Estou indo, hehehe.
- Até logo... mas... já estou com saudade, desde já.
Ele riu com minhas palavras. Por que eu havia dito aquilo? Não deveria ter dito. Poderia pôr tudo a perder, era o que eu pensava. Deveria dizer algo para disfarçar? Deveria dizer que era brincadeira e fazer uma piada. Não sabia o que dizer.
- Até mais... – ele se aproximou e me abraçou.
Neste segundo, algo muito estranho aconteceu.... tudo aquilo que eu sentia naquele mesmo segundo, tantas sensações ao mesmo tempo, tantos desejos misturados... um fogo surgiu dentro de mim, fogo este que eu não podia, não conseguia e não queria controlar. O fogo crescia, crescia, me queimava por dentro, meu estômago estava gelado, minha respiração estava estranha, e meu pênis começava a crescer e a enrijecer, estava duro como uma rocha. O que eu faria? Não conseguiria disfarçar. O medo começou a crescer dentro de mim, a vergonha, a culpa, o desespero, e também o tesão, o desejo, o fogo, a vontade de esquecer de tudo e agarrá-lo ali mesmo, tocar seus lábios com os meus leve e suavemente, sentir o gosto quente de sua saliva, de sua língua, acariciar seu rosto, arrancar sua camisa e tatear seu tórax, provar o sabor de sua pele quente e deliciosa. Sentir com as mãos, com meu próprio corpo, e com a língua. Aqueles desejos ardentes tomaram conta de mim durante cerca de dois segundos, dois segundos tão intensos e confusos que pareciam ter o prazo de uma vida. Não resisti e apertei ainda mais o abraço, tocando sem culpa suas costas largas e sentindo meu corpo colar com o dele ainda mais. Foi então que... aconteceu!
Era como se houvesse uma fúria dentro de mim, uma ardência que precisava ser libertada. Meu pênis enrijeceu ao máximo e eu tive um orgasmo. Pude perceber o esperma saindo de meu pênis, sem que eu pudesse controlar.
Eu o soltei, embriagado pelo tesão reprimido, e agora libertado.
Eu não sabia o que fazer, o que falar. Estava com muita vergonha e medo de que ele tivesse percebido. Mas ele sorriu, despediu-se e entrou no carro, indo embora.
Será que havia percebido? Será que havia sentido? O que ele pensava a meu respeito agora? A dúvida tomou conta de mim.
Passei o dia esperando... meu dia acabou. Um dos amigos do meu pai tentava puxar conversa, mas eu simplesmente não conseguia responder. Não pensava em nada que não fosse meu desejo por Eduardo.
Assim a noite veio, e com ela o dia seguinte...
- Quando é que você vai começar a sair com umas gatinhas aí?
- Hum? - As gatas... Quando começa a comer umas mulherzinhas? Você já fez dezessete, né?
- Dezoito, pai. Dezoito. Foi em fevereiro agora.
- Ah, sim... você é de fevereiro, isso mesmo. Tá, mas e as mulheres?
Eu estava perdido em meus pensamentos e não queria conversar.
- Honestamente, não vou pegar mulher nenhuma, se quer mesmo saber, estou apaixonado e para mim só existe uma pessoa.
- Você não sabe nada da vida, meu filho. Tem muito o que aprender, eu vivi muito mais do que você e sei de muito mais coisa, tenho muito mais cultura, muito mais experiência...
- Parabéns. – eu respondi, seco e irônico.
Ele não prestou atenção. Encheu o copo de bebida, bebeu mais um gole e continuou:
- Mulher é assim... é como uma bela raposa que você quer caçar. Você é o caçador. Não pode ficar com esse discursinho romântico, mulher tem nojo disso. Tem que atirar para valer... depois, quando já estiver com ela, quando ela já tiver caído na sua, então você pode, se quiser, mandar um discurso desses. Mas é claro que é só discurso. Mulher gosta de acreditar em mentira. Minha mulher atual está na Bahia passando um tempo com a família, ela nunca me trai, porque não é nem louca de pensar nisso. Mas você acha que eu não traio? Ah, homem é homem!
- Pai...
- Então, quando a mulher chegar para você e...
- Pai, não tem mulher nenhuma na história. Estou apaixonado por um rapaz.
...
Silêncio de vários minutos.
- O quê?
- Sim, um rapaz daqui do seu condomínio, e ele vai vir me ver hoje à noite.
Ele não sabia o que dizer, e não me interessava. Eu não tinha por que mentir para ele, mentir seria dar muito poder a ele e, para mim, não fazia diferença o que ele aprovava ou não.
- Bom... – ele disse, após alguns minutos de constrangimento – então... então eu não sei. Com licença. – disse e saiu.
Eu fiquei ali, olhando para o portão sem me mexer. Só Eduardo fazia diferença.
A noite foi chegando, meu pai já estava muito bêbado e ficando aparentemente agressivo, começou a dar a entender que queria a casa desocupada no dia seguinte para que ele pudesse receber uma namorada.
- Olha, pai, eu já disse que vou embora hoje, já avisei isso algumas vezes... mas já que faz tanta questão de me lembrar que não me quer amanhã aqui, não seja por isso, eu vou embora agora mesmo.
Ele pareceu surpreso com minha resposta e disse:
- Deixa de malcriação, eu já falei que é só amanhã. Hoje você pode ficar. Senta aí e vamos conversar.
- Sinto muito, mas acho que já vou mesmo.
Tomei um banho, arrumei a mala e fui até a sala, onde peguei o telefone.
- Eduardo? Olha, só estou ligando para dizer que não precisa me dar carona não. Eu estou indo embora agora, tive um pequeno desentendimento com meu pai.
- Então eu dou a carona agora?
- Mas neste horário você costuma jogar tênis.
- Esquece o tênis. Eu levo você.
- Não quero ser abusado.
Ele deu uma risada.
- Estou passando aí. – disse e desligou.
Voltei à varanda e fiquei olhando para o portão, com a mala pronta.
- Ele está vindo.
- Esse garoto?
- O Eduardo, sim.
- Não quero esse garoto aqui dentro, heim! – meu pai avisou.
Sem demonstrar qualquer sentimento, em total indiferença, respondi:
- Não tem problema, nem nós queremos ficar aqui dentro. Até logo. – disse e saí, fui esperar do lado de fora.
Em pouco tempo ele chegou.
- Fala aí, Eduardo.
- Tem certeza de que não estou sendo um incômodo?
- Pára de bobagem. Você nunca é incômodo.
- Bom, eu trouxe isto para você. É um filme que eu copiei... é um filme... romântico.
- Ah, sim, entendi, legal. Um dia eu vou trazer uns DVDs virgens para te dar. Você sempre fica gastando DVD para copiar filme para mim, não quero deixar você no prejuízo.
- Ah, não precisa se preocupar.
Entramos no carro e ele foi dirigindo. O sol tinha acabado de se pôr.
- Fui a uma festa ontem. Sabe como é, ver se eu pegava alguém... hehehe. Não sou santo, tenho lá os meus rolos, hehehe. – ele disse.
- E então? Ficou com alguém?
- Ah... não.
- Por que não? - Não sei por que, mas não achei legal ou que me atraísse. E você? Anda pegando muitas meninas por aí?
- Hahaha, não.
- Por que não?
- Não sei explicar. Às vezes as coisas simplesmente não são como nós queremos que sejam.
- Hum... – ele ficou sério de repente, muito sério.
Eu desci do carro e me despedi. Ele parecia sério, talvez preocupado, não sei bem. Apertou minha mão e se foi, através daquela noite azul escura. Olhei fixamente para ele, deixando de lado a timidez e a vergonha, até o último segundo em que pude, até ele ir embora, como se eu soubesse dentro de mim que aquela seria a última vez em que o veria na vida. Peguei o ônibus e fui para casa.
Algo me dizia que não podia deixar as coisas como estavam. Eu precisava ser honesto com Eduardo, se eu realmente era seu amigo de verdade, deveria dizer a ele o que sentia. Se ele não fosse capaz de compreender e, mesmo não correspondendo, continuar sendo meu amigo, era sinal de que realmente nunca mereceu minha amizade. Foi quando, em um dia desses, por acaso, encontrei com Montanha na rua, indo para casa, depois de ter resolvido alguns problemas na rua.
- E aí, rapaz? Quanto tempo?
- Faaaaaala, moleque. Tranqüilaço?
- Hehehe, tudo bem, Guilhermino. E você?
- Montanha, cara. Montanha! Bom, eu estou muito feliz! Muito mesmo! Estou namorando a garota mais linda da face da Terra. – ele disse tirando uma foto de uma menina da carteira.
- Que bom, Montanha! Você realmente merece, é uma pessoa muito legal.
- Valeu, cara. Está de bobeira?
- Indo para casa.
- Cara, está tudo bem com você? Estou te achando tão abatido.
- Não é nada demais. Alguns problemas...
De repente, por impulso, não sei por que falei isso, mas acabei dizendo, sem perceber:
- Estou apaixonado e não acho que possa ser correspondido. Mas ao mesmo tempo há alguma coisa me dizendo que eu não posso desistir.
- Ah, cara... não desiste sem tentar.
- Mas é que é... algo... meio impossível...
- Entendo...
- Sabe de quem estou falando?
Ele riu, sem graça, não soube o que dizer...
- Sei lá, cara... a Túti...?
- Não.
Alguns minutos de silêncio.
- Estou apaixonado pelo Eduardo.
- Ah, cara...
- O que foi?
- Ah, se você gosta mesmo, vai fundo.
- Está surpreso?
- Honestamente? Não! Hahahaha.
- Meu Deus, todo mundo já deve ter percebido.
- Ih, relaxa! Ninguém percebeu, pode apostar.
- O que devo fazer?
- Cara, é complicado... se bem conheço o Eduardo e ele de fato tiver preferências homossexuais... não acho que ele saiba disso. Ele é muito... “bobão” ainda, sabe?
Em mais ou menos meia hora de conversa, narrei a ele toda a história, contando tudo desde o dia em que conheci Eduardo. Apesar da minha preocupação, acabamos rindo em vários momentos e nos divertimos ao imaginar a reação de Eduardo.
- Guilhermino, você acha que esse negócio de ele usar salto da mãe dele escondido pode significar alguma coisa?
- Cara, não sei... pode ser que não queira dizer nada. Mas pode ser que sim.
- Não agüento mais essa ansiedade, vou contar tudo a ele.
- Melhor não fazer isso.
- Por que não? Vou ficar nessa tensão pela vida toda?
- Não é isso... é que talvez fosse uma tática melhor continuar amigo dele, se aproximar mais.
- Por anos a fio? Que espécie de amigo eu seria escondendo dele algo dessa relevância? E sem contar que seria doloroso demais continuar próximo dele, fingir e ocultar meus sentimentos, e no fim acabar vê-lo namorando alguma menina e ter que fingir que estou muito feliz por ele.
- Acho melhor você ir para a casa, pense bem no que faz, amanhã a gente conversa melhor sobre isso. Não aja no impulso.
Segui o conselho de Guilhermino, mas não podia deixar de pensar sobre o assunto e de continuar com a mesma opinião. Eu não agüentaria mais esperar... contaria tudo a Eduardo, viesse o que viesse.
Assim veio o dia seguinte.
Liguei para Túti.
- Alô!
- Alô!
- Amigo... estou mal, muito mal... acabei de terminar com Cláudio e me sinto tão culpada.
- Amiga, você não precisa se sentir culpada por coisa alguma.
- É que ele é tão imaturo, não acho que esse namoro vá resultar em grande coisa.
Eu sempre senti que Túti não gostava de Cláudio, não o amava. Sua voz estava pesada, triste, como nunca havia estado antes.
- Túti, desculpe pela minha sinceridade... mas você não o amava e isso está na cara.
- Amo sim... – ela disse, mas sem muita firmeza na voz – é que, às vezes, ele parece tão sem personalidade, tem que ter hora para voltar para casa, faz tudo que a mãe fala para fazer e não faz questão de me ver... sei lá, não era como eu esperava. Mas me sinto mal porque o magoei.
- Bom, o que eu vejo é que você o ama de verdade como amigo, mas não o ama como homem.
- É, acho que tem razão... não o amo como homem... até porque ele não é!
Não pude deixar de rir com o comentário dela.
- Mas amigo, o que houve com você?
- Poxa, eu não queria atormentá-la com isso... você está tão triste.
- Fala.
- Decidi contar ao Eduardo...
- O quê?! – ela exclamou, assustada.
- Túti, escuta....
- Não faça isso, você vai pôr tudo a perder, jogar a amizade de vocês pela janela...
- Túti, você não entende? Eu digo a ele que sou amigo... como posso ser um amigo se minto para ele, se escondo dele algo tão sério? Eu não gostaria que um amigo me escondesse algo desse tipo.
- Ai, Meu Deus... tome cuidado.
- Além disso, se ele for meu amigo de verdade, vai compreender. Ou, ainda que não compreenda, vai me respeitar e apoiar.
- Bom... eu não acho que seja o ideal a fazer, mas espero que dê certo. Boa sorte!
- Boa sorte para você também.
Desligamos e escrevi a carta para Eduardo.
- Eu... eu... eu às vezes fico pensando, sabe... nessas paradas que você fala... – ele tropeçava em cada palavra, o nervosismo era visível.
- Entendo.
Por mais alguns segundos ele se calou e então não disse mais nada. Mudou de assunto para algum que não rendeu muito. Ficamos em silêncio até chegarmos à casa do meu pai. As luzes ainda estavam acesas, ele certamente estava acordado e bebendo.
- Eduardo, obrigado pela carona. Amanhã nos veremos de novo?
Mais uma vez fui contemplado pelo brilho de seu sorriso, aparentemente cheio de malícia (talvez não, talvez fosse auto-sugestão e nada daquilo que ele havia me dito quisesse realmente dizer algo que eu quisesse ouvir), eu estendi minha mãe para que ele apertasse.
O carro estava escuro, a noite era silenciosa e quase não podia ver seu rosto. Ele se aproximou devagar, como se calculasse cada movimento e, sem se levantar do banco do carro, aproximou seu corpo do meu (a cada segundo, seus movimentos pareciam mais lentos), eu estava imóvel, não respirava. Então ele me abraçou bem forte.
- Obrigado por fazer parte da minha vida.
- Eu que agradeço por você ter me deixado ter entrado na sua, ainda que só um pouquinho.
- Até amanhã, meu amigo.
- Até amanhã!
O fato é que, querendo ou não, nada daquilo podia ser ignorado. Fui dormir, ou tentar. No dia seguinte, veria Eduardo... isso era o que contava.
Acordei cedo, tomei um banho no chuveiro gelado do meu pai. No exato segundo em que saí do banheiro, já vestido, arrumado e perfumado, meu pai me passa o telefone.
- Pra você! – ele disse, com a voz seca e mal humorada de quem havia passado a noite anterior inteira bebendo.
- Alô!
- Alô! - Eduardo!
- Hehehe, e aí, rapaz? Tudo bem? Estou a fim de dar uma passadinha aí, pode ser?
- Claro! Pode e deve.
- Então demorou... adivinha onde estou.
- Onde? - Vá até o portão e dê uma olhada.
Abri a porta, lá ele estava, de dentro do carro, falando no celular.
- Seu bobão! Precisava trazer o carro? Você mora a poucas ruas daqui.
- Hehehe, entra aí. – ele disse, com um sorriso malandro.
Olhei para ele. Como estava lindo! Era, de fato, o rapaz mais deslumbrante que já tinha visto na vida. A luz forte daquele dia quente de sol penetrava em seus olhos, que penetravam em minha alma. Estavam com um tom de verde-azulado claríssimo, e pareciam me remeter à água quente e suave do mar em um dia tranqüilo, sem ondas, sem pessoas, sem problemas, sem preocupações, sem o medo... Apenas a luz do sol, o mar suave e morno.
- Vou te levar para dar um passeio.
Enquanto passeávamos com o carro e víamos o condomínio, as casas (passamos em frente à casa dele e eu vi sua mãe ao longe), íamos conversando sem parar.
Depois saltamos do carro.
- Ótimo, agora eu vou te levar para passear, e do jeito que eu mais aprecio: a pé!
- Ah, fala sério...
- Nada disso, deixe de ser preguiçoso! Um rapaz forte, bonito e saudável, que joga tênis e malha todos os dias, com preguiça de andar? Uma vergonha isso. – eu dizia, brincando com ele.
Ele riu e fez menção de fugir, voltar para o carro. Sem maldade, eu fiz o que faria com qualquer amigo ou amiga, segurei seu braço e puxei de volta, para perto de mim. O mundo parou, eu congelei, a temperatura do meu corpo mudou e também minha respiração. Não conseguia soltar, era como se estivéssemos petrificados. Assim ficamos por algumas frações de segundos, não sei quantas, mas pareciam compor o momento mais delicioso de toda minha existência até então.
Fui soltando devagar, agora estávamos bem sérios, os sorriso tinham se desfeito em nossos rostos. Ele me encarava profundamente, sério e ao mesmo tempo com afeto, e também com um pouco de medo, sem saber o que fazer ou dizer.
Passeamos por aquelas ruas, aquelas mesmas pelas quais eu havia andando na infância, antes de meus pais se separarem... via aquele mesmo verde, as mesmas casas, agora tão diferentes, as mesmas placas, o mesmo rio. Praticamente nada havia mudado. Era como voltar no tempo. A emoção era muito forte, e enquanto íamos nos perdendo no verde daquele belo lugar, eu queria apenas me perder no verde seus olhos.
- Olha só... – ele disse, por fim.
- Sim?
- Preciso ir embora, tenho um assunto sério para resolver hoje, e ainda não almocei... acho que você me fez perder a noção de tempo, hehehe.
- Hehehe, que bom, então! Sinal de que você gosta da minha companhia.
- Bom... eu preciso ir. A gente vai se ver novamente amanhã... eu faço questão de te dar uma carona pelo menos até a saída do condomínio.
- Se não for incômodo...
- Então...
- Então?
- Estou indo, hehehe.
- Até logo... mas... já estou com saudade, desde já.
Ele riu com minhas palavras. Por que eu havia dito aquilo? Não deveria ter dito. Poderia pôr tudo a perder, era o que eu pensava. Deveria dizer algo para disfarçar? Deveria dizer que era brincadeira e fazer uma piada. Não sabia o que dizer.
- Até mais... – ele se aproximou e me abraçou.
Neste segundo, algo muito estranho aconteceu.... tudo aquilo que eu sentia naquele mesmo segundo, tantas sensações ao mesmo tempo, tantos desejos misturados... um fogo surgiu dentro de mim, fogo este que eu não podia, não conseguia e não queria controlar. O fogo crescia, crescia, me queimava por dentro, meu estômago estava gelado, minha respiração estava estranha, e meu pênis começava a crescer e a enrijecer, estava duro como uma rocha. O que eu faria? Não conseguiria disfarçar. O medo começou a crescer dentro de mim, a vergonha, a culpa, o desespero, e também o tesão, o desejo, o fogo, a vontade de esquecer de tudo e agarrá-lo ali mesmo, tocar seus lábios com os meus leve e suavemente, sentir o gosto quente de sua saliva, de sua língua, acariciar seu rosto, arrancar sua camisa e tatear seu tórax, provar o sabor de sua pele quente e deliciosa. Sentir com as mãos, com meu próprio corpo, e com a língua. Aqueles desejos ardentes tomaram conta de mim durante cerca de dois segundos, dois segundos tão intensos e confusos que pareciam ter o prazo de uma vida. Não resisti e apertei ainda mais o abraço, tocando sem culpa suas costas largas e sentindo meu corpo colar com o dele ainda mais. Foi então que... aconteceu!
Era como se houvesse uma fúria dentro de mim, uma ardência que precisava ser libertada. Meu pênis enrijeceu ao máximo e eu tive um orgasmo. Pude perceber o esperma saindo de meu pênis, sem que eu pudesse controlar.
Eu o soltei, embriagado pelo tesão reprimido, e agora libertado.
Eu não sabia o que fazer, o que falar. Estava com muita vergonha e medo de que ele tivesse percebido. Mas ele sorriu, despediu-se e entrou no carro, indo embora.
Será que havia percebido? Será que havia sentido? O que ele pensava a meu respeito agora? A dúvida tomou conta de mim.
Passei o dia esperando... meu dia acabou. Um dos amigos do meu pai tentava puxar conversa, mas eu simplesmente não conseguia responder. Não pensava em nada que não fosse meu desejo por Eduardo.
Assim a noite veio, e com ela o dia seguinte...
- Quando é que você vai começar a sair com umas gatinhas aí?
- Hum? - As gatas... Quando começa a comer umas mulherzinhas? Você já fez dezessete, né?
- Dezoito, pai. Dezoito. Foi em fevereiro agora.
- Ah, sim... você é de fevereiro, isso mesmo. Tá, mas e as mulheres?
Eu estava perdido em meus pensamentos e não queria conversar.
- Honestamente, não vou pegar mulher nenhuma, se quer mesmo saber, estou apaixonado e para mim só existe uma pessoa.
- Você não sabe nada da vida, meu filho. Tem muito o que aprender, eu vivi muito mais do que você e sei de muito mais coisa, tenho muito mais cultura, muito mais experiência...
- Parabéns. – eu respondi, seco e irônico.
Ele não prestou atenção. Encheu o copo de bebida, bebeu mais um gole e continuou:
- Mulher é assim... é como uma bela raposa que você quer caçar. Você é o caçador. Não pode ficar com esse discursinho romântico, mulher tem nojo disso. Tem que atirar para valer... depois, quando já estiver com ela, quando ela já tiver caído na sua, então você pode, se quiser, mandar um discurso desses. Mas é claro que é só discurso. Mulher gosta de acreditar em mentira. Minha mulher atual está na Bahia passando um tempo com a família, ela nunca me trai, porque não é nem louca de pensar nisso. Mas você acha que eu não traio? Ah, homem é homem!
- Pai...
- Então, quando a mulher chegar para você e...
- Pai, não tem mulher nenhuma na história. Estou apaixonado por um rapaz.
...
Silêncio de vários minutos.
- O quê?
- Sim, um rapaz daqui do seu condomínio, e ele vai vir me ver hoje à noite.
Ele não sabia o que dizer, e não me interessava. Eu não tinha por que mentir para ele, mentir seria dar muito poder a ele e, para mim, não fazia diferença o que ele aprovava ou não.
- Bom... – ele disse, após alguns minutos de constrangimento – então... então eu não sei. Com licença. – disse e saiu.
Eu fiquei ali, olhando para o portão sem me mexer. Só Eduardo fazia diferença.
A noite foi chegando, meu pai já estava muito bêbado e ficando aparentemente agressivo, começou a dar a entender que queria a casa desocupada no dia seguinte para que ele pudesse receber uma namorada.
- Olha, pai, eu já disse que vou embora hoje, já avisei isso algumas vezes... mas já que faz tanta questão de me lembrar que não me quer amanhã aqui, não seja por isso, eu vou embora agora mesmo.
Ele pareceu surpreso com minha resposta e disse:
- Deixa de malcriação, eu já falei que é só amanhã. Hoje você pode ficar. Senta aí e vamos conversar.
- Sinto muito, mas acho que já vou mesmo.
Tomei um banho, arrumei a mala e fui até a sala, onde peguei o telefone.
- Eduardo? Olha, só estou ligando para dizer que não precisa me dar carona não. Eu estou indo embora agora, tive um pequeno desentendimento com meu pai.
- Então eu dou a carona agora?
- Mas neste horário você costuma jogar tênis.
- Esquece o tênis. Eu levo você.
- Não quero ser abusado.
Ele deu uma risada.
- Estou passando aí. – disse e desligou.
Voltei à varanda e fiquei olhando para o portão, com a mala pronta.
- Ele está vindo.
- Esse garoto?
- O Eduardo, sim.
- Não quero esse garoto aqui dentro, heim! – meu pai avisou.
Sem demonstrar qualquer sentimento, em total indiferença, respondi:
- Não tem problema, nem nós queremos ficar aqui dentro. Até logo. – disse e saí, fui esperar do lado de fora.
Em pouco tempo ele chegou.
- Fala aí, Eduardo.
- Tem certeza de que não estou sendo um incômodo?
- Pára de bobagem. Você nunca é incômodo.
- Bom, eu trouxe isto para você. É um filme que eu copiei... é um filme... romântico.
- Ah, sim, entendi, legal. Um dia eu vou trazer uns DVDs virgens para te dar. Você sempre fica gastando DVD para copiar filme para mim, não quero deixar você no prejuízo.
- Ah, não precisa se preocupar.
Entramos no carro e ele foi dirigindo. O sol tinha acabado de se pôr.
- Fui a uma festa ontem. Sabe como é, ver se eu pegava alguém... hehehe. Não sou santo, tenho lá os meus rolos, hehehe. – ele disse.
- E então? Ficou com alguém?
- Ah... não.
- Por que não? - Não sei por que, mas não achei legal ou que me atraísse. E você? Anda pegando muitas meninas por aí?
- Hahaha, não.
- Por que não?
- Não sei explicar. Às vezes as coisas simplesmente não são como nós queremos que sejam.
- Hum... – ele ficou sério de repente, muito sério.
Eu desci do carro e me despedi. Ele parecia sério, talvez preocupado, não sei bem. Apertou minha mão e se foi, através daquela noite azul escura. Olhei fixamente para ele, deixando de lado a timidez e a vergonha, até o último segundo em que pude, até ele ir embora, como se eu soubesse dentro de mim que aquela seria a última vez em que o veria na vida. Peguei o ônibus e fui para casa.
Algo me dizia que não podia deixar as coisas como estavam. Eu precisava ser honesto com Eduardo, se eu realmente era seu amigo de verdade, deveria dizer a ele o que sentia. Se ele não fosse capaz de compreender e, mesmo não correspondendo, continuar sendo meu amigo, era sinal de que realmente nunca mereceu minha amizade. Foi quando, em um dia desses, por acaso, encontrei com Montanha na rua, indo para casa, depois de ter resolvido alguns problemas na rua.
- E aí, rapaz? Quanto tempo?
- Faaaaaala, moleque. Tranqüilaço?
- Hehehe, tudo bem, Guilhermino. E você?
- Montanha, cara. Montanha! Bom, eu estou muito feliz! Muito mesmo! Estou namorando a garota mais linda da face da Terra. – ele disse tirando uma foto de uma menina da carteira.
- Que bom, Montanha! Você realmente merece, é uma pessoa muito legal.
- Valeu, cara. Está de bobeira?
- Indo para casa.
- Cara, está tudo bem com você? Estou te achando tão abatido.
- Não é nada demais. Alguns problemas...
De repente, por impulso, não sei por que falei isso, mas acabei dizendo, sem perceber:
- Estou apaixonado e não acho que possa ser correspondido. Mas ao mesmo tempo há alguma coisa me dizendo que eu não posso desistir.
- Ah, cara... não desiste sem tentar.
- Mas é que é... algo... meio impossível...
- Entendo...
- Sabe de quem estou falando?
Ele riu, sem graça, não soube o que dizer...
- Sei lá, cara... a Túti...?
- Não.
Alguns minutos de silêncio.
- Estou apaixonado pelo Eduardo.
- Ah, cara...
- O que foi?
- Ah, se você gosta mesmo, vai fundo.
- Está surpreso?
- Honestamente? Não! Hahahaha.
- Meu Deus, todo mundo já deve ter percebido.
- Ih, relaxa! Ninguém percebeu, pode apostar.
- O que devo fazer?
- Cara, é complicado... se bem conheço o Eduardo e ele de fato tiver preferências homossexuais... não acho que ele saiba disso. Ele é muito... “bobão” ainda, sabe?
Em mais ou menos meia hora de conversa, narrei a ele toda a história, contando tudo desde o dia em que conheci Eduardo. Apesar da minha preocupação, acabamos rindo em vários momentos e nos divertimos ao imaginar a reação de Eduardo.
- Guilhermino, você acha que esse negócio de ele usar salto da mãe dele escondido pode significar alguma coisa?
- Cara, não sei... pode ser que não queira dizer nada. Mas pode ser que sim.
- Não agüento mais essa ansiedade, vou contar tudo a ele.
- Melhor não fazer isso.
- Por que não? Vou ficar nessa tensão pela vida toda?
- Não é isso... é que talvez fosse uma tática melhor continuar amigo dele, se aproximar mais.
- Por anos a fio? Que espécie de amigo eu seria escondendo dele algo dessa relevância? E sem contar que seria doloroso demais continuar próximo dele, fingir e ocultar meus sentimentos, e no fim acabar vê-lo namorando alguma menina e ter que fingir que estou muito feliz por ele.
- Acho melhor você ir para a casa, pense bem no que faz, amanhã a gente conversa melhor sobre isso. Não aja no impulso.
Segui o conselho de Guilhermino, mas não podia deixar de pensar sobre o assunto e de continuar com a mesma opinião. Eu não agüentaria mais esperar... contaria tudo a Eduardo, viesse o que viesse.
Assim veio o dia seguinte.
Liguei para Túti.
- Alô!
- Alô!
- Amigo... estou mal, muito mal... acabei de terminar com Cláudio e me sinto tão culpada.
- Amiga, você não precisa se sentir culpada por coisa alguma.
- É que ele é tão imaturo, não acho que esse namoro vá resultar em grande coisa.
Eu sempre senti que Túti não gostava de Cláudio, não o amava. Sua voz estava pesada, triste, como nunca havia estado antes.
- Túti, desculpe pela minha sinceridade... mas você não o amava e isso está na cara.
- Amo sim... – ela disse, mas sem muita firmeza na voz – é que, às vezes, ele parece tão sem personalidade, tem que ter hora para voltar para casa, faz tudo que a mãe fala para fazer e não faz questão de me ver... sei lá, não era como eu esperava. Mas me sinto mal porque o magoei.
- Bom, o que eu vejo é que você o ama de verdade como amigo, mas não o ama como homem.
- É, acho que tem razão... não o amo como homem... até porque ele não é!
Não pude deixar de rir com o comentário dela.
- Mas amigo, o que houve com você?
- Poxa, eu não queria atormentá-la com isso... você está tão triste.
- Fala.
- Decidi contar ao Eduardo...
- O quê?! – ela exclamou, assustada.
- Túti, escuta....
- Não faça isso, você vai pôr tudo a perder, jogar a amizade de vocês pela janela...
- Túti, você não entende? Eu digo a ele que sou amigo... como posso ser um amigo se minto para ele, se escondo dele algo tão sério? Eu não gostaria que um amigo me escondesse algo desse tipo.
- Ai, Meu Deus... tome cuidado.
- Além disso, se ele for meu amigo de verdade, vai compreender. Ou, ainda que não compreenda, vai me respeitar e apoiar.
- Bom... eu não acho que seja o ideal a fazer, mas espero que dê certo. Boa sorte!
- Boa sorte para você também.
Desligamos e escrevi a carta para Eduardo.
A carta de amor proibida (parte 3)
Assim o dia seguinte chega.
O pessoal já está no pátio, eu chego assobiando e cantarolando. Meu ânimo devia estar mais evidente do que eu podia imaginar, porque as meninas todas olharam para mim.
- Bom dia, Túti, Nana, Dorinha... – tom de ânimo intenso e ainda cantarolando.
- ...
- Que foi, gente? Que carinhas irônicas são essas? – eu perguntei, sem graça, mas sorrindo.
- Você está tão diferente. – Dorinha disse, com ar malicioso.
- Eu?
- Totalmente diferente, amigo. – respondeu Túti.
- Eu acho... que nosso amiguinho está apaixonado! – Dorinha disse, por fim. – Ai, gente, está na cara.
- Eu?! Hahahaha, eu não!
- “Eu nãaaao”! – elas diziam, imitando.
Eu ri.
- Ah, pensem o que quiser.
O assunto mudou, conversamos por um tempo, mas Túti ficou com a pulga atrás da orelha e, depois da aula, ela me procurou.
- E então? Não vai me contar?
- Contar o quê?
- Você saaaabe! Safadinho! Hehehe!
- Hehehe.
- Pode me contar. Sou sua amiga, não conto a ninguém!
- Tudo bem, minha amiga. Então, eu preciso lhe contar uma coisa.
- Claro, estou ouvindo.
- Eu acho que... eu acho que estou apaixonado!
- Ahhh, mas isso é ótimo! – ela disse abrindo um grande sorriso. – E eu acho que já sei quem é... hehehe.
- Sabe?
- Claro que sim!
- Mesmo?
- Mesmo!
- Ah, Túti... como você pode saber?
- Oras, seu bobo, está na cara. E além disso, você se esqueceu de que eu conheço bem você.
- Nossa, então...
- Então eu sei que você está gostando da Dorinha!!!! Acertei?
- Não!
- Não? Então... com certeza a Nana
- Hahaha, também não!
Ela foi ficando séria.
- Diz quem é, por favor.
- Túti... estou apaixonado pelo Eduardo.
Silêncio de alguns segundos.
- Eduardo?
- Sim.
- Eduardo Eduardo? Eduardo que tem um carro?
Eu nem sabia que Eduardo tinha carro.
- Eduardo Eduardo, ué. Eduardo mulato de olhos verdes. O único Eduardo.
- Ah... legal. – tudo que ela conseguiu dizer, com um tom de voz fúnebre.
- Não é legal... – eu disse desanimado – eu acho que ele nunca vai poder me corresponder. E o que eu sinto por ele é tão forte. É tão estranho, eu nunca imaginei que sentiria isso.
- Sei.
- Talvez seja melhor eu guardar isso para mim e tentar esquecer.
- Talvez seja mesmo.
-...
- O Eduardo é muito infantil, muito imaturo ainda. No começo do ano eu e Dorinha fazíamos de tudo para chamar a atenção dele, chamávamos para sair, mas ele nunca dava bola. Ele é muito imaturo mesmo. Mas olha, vai fazendo amizade com ele. Quem sabe vocês não se aproximam mais e mais?
- É, talvez você tenha razão.
Nos próximos meses que se seguiram, eu e Eduardo sempre almoçávamos juntos. Em uma dessas conversas acabei descobrindo que Eduardo era vizinho de meu pai, que eu não via há muitos anos.
Nos próximos meses que se seguiram, eu e Eduardo sempre almoçávamos juntos. Em uma dessas conversas acabei descobrindo que Eduardo era vizinho de meu pai, que eu não via há muitos anos.
Passei a fazer visitas ao meu pai, ia de carona com Eduardo, depois da escola.
Se eu fosse descrever esses dias de visita, não haveria espaço aqui. Eu e meu pai parecíamos desconhecidos. Havia anos que eu não o via, desde que ele e minha mãe se separaram. Ele nunca me procurou e nem eu a ele. Quase não conversávamos, e durante quase todo o tempo meu pai estava embriagado. A casa estava em péssimas condições, e ele resmungava vez ou outra que tudo era culpa da minha mãe, que o havia largado.
Eram fins de semana infernais, que só valiam a pena porque, para chegar até lá, pegava carona com Eduardo.
Segunda feira.
- Bom... eu trouxe o DVD do filme que eu copiei para você, eu tinha prometido há um tempão.
- Ahhh! – ele exclamou, sem graça e sorrindo – valeu mesmo! Você fica gastando seu tempo e seus DVDs comigo. Mas vai ter volta, heim! Você vai ver.
Ele iria embora mais cedo naquele dia, assim que o intervalo acabasse.
Eu voltei para a sala de aula. Estava concentrado na matéria (ou tentando) que o professor estava explicando, quando alguém bateu no vidro da sala. Não prestei atenção. O garoto que estava ao meu lado me cutucou:
- Ei, acho que ele está chamando você.
Olhei para a porta. Era ele, o Eduardo, no vidrinho da janela, olhando para mim, rindo e dando “tchauzinho”.
O professor parou a aula.
- Senhor Eduardo Ingidaha, esqueceu algo na sala? – disse o professor.
Ele ficou de todas as cores e em seu estado de atrapalhação, quase deu com a testa no vidro.
A turma riu.
- Não, não, já estou indo embora, professor. Boa aula aí.
Eu ria junto com a turma, achando aquilo tão lindo, tão engraçado e tão fofo! Tive um ímpeto louco de me levantar correndo, abrir a porta, segurá-lo, abraçá-lo forte e não deixar que se separasse de mim. Mas era melhor tirar essas imagens da minha cabeça e voltar à aula. Olhei mais uma vez para a porta, para minha surpresa ele ainda estava lá. E olhando para mim, com um sorriso fofo nos lábios.
“Obrigado pelo DVD” – ele sussurrou bem baixinho, mas pude ler a frase em seus lábios.
Depois da aula, almoçamos juntos. Eu, as meninas e Claudio. Eu começava a sentir Túti mais distante de mim do que no começo do ano, quando éramos tão próximos, como se agora ela não tivesse mais tanta vontade de ser minha amiga. Talvez eu estivesse sendo muito injusto ao pensar assim. O fato é que eu me sentia inseguro, tinha vontade de abraçar meus amigos, de chorar, de gritar, de dizer que sentia medo, que me sentia sozinho... que tinha medo de que não houvesse um mundo melhor do que esse me esperando, algum dia... e que não houvesse de fato um sentido da vida.
- O que houve? Ficou calado de repente. – Cláudio disse, me animando.
- Ah, nada... só estava pensando no fim do ano. Vou sentir falta desses almoços da gente.
Todos prometeram que não perderiam o contato, e que sempre nos procuraríamos, mesmo depois que as aulas acabassem.
- Túti... – eu chamei, quando ficamos sozinhos. – Está tudo bem?
- Ah, sei lá, estou pensando em terminar com Cláudio.
- Por quê? Ele é tão bonzinho e gosta tanto de você... você não gosta mais dele?
- Não, não é isso! – ela dizia, meio assustada com minha pergunta.
Ela dizia que não era, mas se tinha algo que eu percebia, desde pequeno, era quando uma pessoa gostava da outra. E os olhos dela já não brilhavam para ele, se é que haviam brilhado em algum dia.
- Então... Há algum motivo?
- Ah, é aquela garota. Aquela Célia!
- Uma gordinha de óculos?
- Sim, ela mesmo. Ela fica “dando em cima” do Cláudio.
- Sinceramente, eu nunca percebi isso. Eles sempre foram amigos, assim como você é minha amiga.
- Ah, eu não sei, não. Para mim, ela é uma safada!
- Haha, Túti... isso pode ser coisa da sua cabeça.
- Eu já falei para ele que não gosto dela, que não quero que ele fale com ela.
- Mas, Túti, você não pode proibir o rapaz de ter amizades. Você gostaria se ele proibisse você de falar comigo?
- Não sei, estou tão confusa... mas algo me diz que eu devo terminar. A menos que ele mude...
- Mudar o quê?
- O jeito dele.
- Como assim?
- Sei lá... não sei explicar.
- Túti... algo me diz que você não sente nada por ele... honestamente, se for realmente isso, o ideal é terminar mesmo. Mas eu duvido, aliás, tenho certeza de que ele não tem e nem quer ter nada com a Célia. Ele só tem olhos para você. Olhe, veja seu reflexo... tire os cabelos do rosto... veja como você é linda!
Era verdade. Cláudio nunca olhou para essa menina, que apesar de popular no colégio, não tinha um terço da beleza e do charme de Túti.
- Ah, eu não sei, amigo.... estou me sentindo tão confusa... Me abrace...
Eu a abracei.
Chegou o fim do ano. Formatura. A festa aconteceu em um lugar bem chique, todos arrumados. Lá pelas tantas aparece Guilhermino, o garoto guitarrista. Ele, que estava sempre de preto e com jeitão de menino mau, parecia engraçado, todo engomado no terno e gravata.
- E aí, cara? Tanto tempo estudando juntos e quase não nos vemos. Bate aqui, “rapá”!
- Guilhermino, tudo bem? Bom ver você por aqui.
- Guilhermino não, cara. Montanha! – ele corrigia.
- Hehehe, está bem, Montanha.
Mas eles percebiam que eu não parava de olhar para os lados, como se procurasse alguém, e não fazia isso voluntariamente. Quando dei por mim, estava com a cabeça girando para todos os cantos daquele imenso e luxuoso salão, e estavam Montanha, Túti e Cláudio olhando para mim.
- Você está bem, cara? – perguntou Cláudio, com aquele seu jeito bonzinho e abobalhado de sempre.
- Ah... sim, estou sim.
- Está esperando alguém? – Montanha falou.
- Não, não... Hehehe, vamos ouvir a apresentação dos corais, já estão começando.
Durante a apresentação, Guilhermino (Montanha) ia falando comigo, bem baixinho. Ele não parava de falar, era muito tagarela. E eu, que antes já não prestava atenção a nada, agora prestava menos ainda. Apenas olhava para os lados e enxergava uma multidão confusa. Não, Eduardo não estava ali. Todos que tinham que vir, já tinham chegado. Os outros estavam viajando.
De repente, o coral começa a cantar alguns temas de musicais, alguns lindos, músicas que tinham marcado minha infância. A emoção era intensa. No meio daquele som perfeito, um ambiente mágico, eu sinto alguém se aproximando devagar. Imagine isso em câmera lenta, como em um filme. Ele se aproxima, anda até perto dos bancos onde estávamos sentados... eu congelo, não posso olhar para trás...
Montanha, sussurrando, me diz:
- Olha, o Eduardo está aí.
Não entendi o porquê de ele ter me dito isso, será que ele sabia de tudo? Mas não importava.
- Vai lá falar com ele, cara. – ele disse.
Eu olhei... era ele! Eduardo! Estava lindo, lindo como nunca havia estado antes... vestido de terno e gravata, parecia mais maduro do que antes, mais homem, mais másculo, mais responsável.
A música então acaba, pausa para as próximas apresentações, onde homenageariam os professores e fariam os discursos.
Como em câmera lenta, eu me levantei, o sorriso era impossível de ser disfarçado. Levantei, me desviei de Célia, de Montanha, de Túti, de Cláudio, de todas as pessoas que estavam à minha frente. Sem controlar qualquer impulso, eu me aproximei, me aproximei... e abracei Eduardo com toda a força e vontade que pude reunir, encostando minha cabeça em seu ombro forte.
Ele sorria e me abraçava de volta com a mesma intensidade, porém um pouco sem jeito.
- Eu sabia que viria.
- Eu também sabia que veria você, meu grande amigo!
Eu o larguei e ele foi se sentar na outra fileira de bancos, já que a fileira em que eu estava já tinha sido toda ocupada. Eu não podia tirar os olhos dele nem por um segundo.
A formatura foi linda! Mas, agora que o ano havia acabado, como ter uma desculpa para vê-lo de novo? Precisava ver Eduardo novamente, e rápido, do contrário eu sufocaria, como se precisasse dele para respirar.
A ocasião veio depressa. Combinamos todos de nos encontrarmos para jantar e matar as saudades. Túti, Nana, enfim, todos da turma. Durante todo o tempo, Eduardo e eu conversamos. Na hora de ir embora, ele me deu carona, eu ficaria na casa do meu pai.
Quando estávamos sozinhos no carro, ele me disse, rindo:
- Quer dizer que você tem bichinhos de pelúcia no quarto?
- Sim.
- E livros de contos de fadas...
- Sim, ué. Algum problema?
- Pô, cara, que vacilo...
- Ah, Eduardo... você não entende? A sociedade fica o tempo todo ditando regras sobre o que devemos gostar ou não... quem disse que rosa é de menina? Quem disse que azul é de menino? Isso é algo que alguém inventou, é cultural. Você acha que é o certo porque cresceu ouvindo isso desde pequeno, mas imagine se tivesse aprendido o contrário, neste momento estaria acreditando no contrário.
Ele me ouvia, muito sério, enquanto seguia na direção do carro por aquela estrada escura durante a noite.
Eu continuei:
- Esse é o problema do ser humano. Temos uma dificuldade imensa em acreditar que tudo aquilo que aprendemos nada mais é do que uma invenção. Não nos conformamos, preferimos mentir para nós mesmos. Se você aprende que isso é madeira... – eu disse e bati de leve no vidro da janela do carro, e em seguida, em algum objeto de ferro que havia no interior do carro – você vai acredita que é madeira, e não importa quantas provas você tenha do contrário, digam que isso é vidro e aquilo é ferro, você sempre vai achar que são pedaços de madeira, mesmo que no fundo você saiba que está errado, vai preferir mentir para si mesmo. É assim que é o ser humano.
- Mas você não é assim...
- Não, não sou. Sabe, eu posso parecer frágil e introvertido, mas eu sou uma pessoa muito forte por dentro, Eduardo, e eu enfrento qualquer dificuldade para ser como eu sou, para ser honesto comigo mesmo e com os outros. Eu não vivo de aparências.
Ele continuava muito sério, como se, lá dentro dele mesmo, ele soubesse do que eu estava falando.
- O que foi?
- Assim, quando eu era pequeno...
Ele parava para pensar no que dizia, como se medisse cada palavra. Estava constrangido, embora tentasse não parecer.
- Pode falar com calma, estou ouvindo. Diga, meu amigo.
Ele sorriu sem graça, parou por alguns segundos e continuou:
- Eu costumava... usar coisas da minha mãe, salto alto, vestidos, essas coisas.
(Continua...)
O pessoal já está no pátio, eu chego assobiando e cantarolando. Meu ânimo devia estar mais evidente do que eu podia imaginar, porque as meninas todas olharam para mim.
- Bom dia, Túti, Nana, Dorinha... – tom de ânimo intenso e ainda cantarolando.
- ...
- Que foi, gente? Que carinhas irônicas são essas? – eu perguntei, sem graça, mas sorrindo.
- Você está tão diferente. – Dorinha disse, com ar malicioso.
- Eu?
- Totalmente diferente, amigo. – respondeu Túti.
- Eu acho... que nosso amiguinho está apaixonado! – Dorinha disse, por fim. – Ai, gente, está na cara.
- Eu?! Hahahaha, eu não!
- “Eu nãaaao”! – elas diziam, imitando.
Eu ri.
- Ah, pensem o que quiser.
O assunto mudou, conversamos por um tempo, mas Túti ficou com a pulga atrás da orelha e, depois da aula, ela me procurou.
- E então? Não vai me contar?
- Contar o quê?
- Você saaaabe! Safadinho! Hehehe!
- Hehehe.
- Pode me contar. Sou sua amiga, não conto a ninguém!
- Tudo bem, minha amiga. Então, eu preciso lhe contar uma coisa.
- Claro, estou ouvindo.
- Eu acho que... eu acho que estou apaixonado!
- Ahhh, mas isso é ótimo! – ela disse abrindo um grande sorriso. – E eu acho que já sei quem é... hehehe.
- Sabe?
- Claro que sim!
- Mesmo?
- Mesmo!
- Ah, Túti... como você pode saber?
- Oras, seu bobo, está na cara. E além disso, você se esqueceu de que eu conheço bem você.
- Nossa, então...
- Então eu sei que você está gostando da Dorinha!!!! Acertei?
- Não!
- Não? Então... com certeza a Nana
- Hahaha, também não!
Ela foi ficando séria.
- Diz quem é, por favor.
- Túti... estou apaixonado pelo Eduardo.
Silêncio de alguns segundos.
- Eduardo?
- Sim.
- Eduardo Eduardo? Eduardo que tem um carro?
Eu nem sabia que Eduardo tinha carro.
- Eduardo Eduardo, ué. Eduardo mulato de olhos verdes. O único Eduardo.
- Ah... legal. – tudo que ela conseguiu dizer, com um tom de voz fúnebre.
- Não é legal... – eu disse desanimado – eu acho que ele nunca vai poder me corresponder. E o que eu sinto por ele é tão forte. É tão estranho, eu nunca imaginei que sentiria isso.
- Sei.
- Talvez seja melhor eu guardar isso para mim e tentar esquecer.
- Talvez seja mesmo.
-...
- O Eduardo é muito infantil, muito imaturo ainda. No começo do ano eu e Dorinha fazíamos de tudo para chamar a atenção dele, chamávamos para sair, mas ele nunca dava bola. Ele é muito imaturo mesmo. Mas olha, vai fazendo amizade com ele. Quem sabe vocês não se aproximam mais e mais?
- É, talvez você tenha razão.
Nos próximos meses que se seguiram, eu e Eduardo sempre almoçávamos juntos. Em uma dessas conversas acabei descobrindo que Eduardo era vizinho de meu pai, que eu não via há muitos anos.
Nos próximos meses que se seguiram, eu e Eduardo sempre almoçávamos juntos. Em uma dessas conversas acabei descobrindo que Eduardo era vizinho de meu pai, que eu não via há muitos anos.
Passei a fazer visitas ao meu pai, ia de carona com Eduardo, depois da escola.
Se eu fosse descrever esses dias de visita, não haveria espaço aqui. Eu e meu pai parecíamos desconhecidos. Havia anos que eu não o via, desde que ele e minha mãe se separaram. Ele nunca me procurou e nem eu a ele. Quase não conversávamos, e durante quase todo o tempo meu pai estava embriagado. A casa estava em péssimas condições, e ele resmungava vez ou outra que tudo era culpa da minha mãe, que o havia largado.
Eram fins de semana infernais, que só valiam a pena porque, para chegar até lá, pegava carona com Eduardo.
Segunda feira.
- Bom... eu trouxe o DVD do filme que eu copiei para você, eu tinha prometido há um tempão.
- Ahhh! – ele exclamou, sem graça e sorrindo – valeu mesmo! Você fica gastando seu tempo e seus DVDs comigo. Mas vai ter volta, heim! Você vai ver.
Ele iria embora mais cedo naquele dia, assim que o intervalo acabasse.
Eu voltei para a sala de aula. Estava concentrado na matéria (ou tentando) que o professor estava explicando, quando alguém bateu no vidro da sala. Não prestei atenção. O garoto que estava ao meu lado me cutucou:
- Ei, acho que ele está chamando você.
Olhei para a porta. Era ele, o Eduardo, no vidrinho da janela, olhando para mim, rindo e dando “tchauzinho”.
O professor parou a aula.
- Senhor Eduardo Ingidaha, esqueceu algo na sala? – disse o professor.
Ele ficou de todas as cores e em seu estado de atrapalhação, quase deu com a testa no vidro.
A turma riu.
- Não, não, já estou indo embora, professor. Boa aula aí.
Eu ria junto com a turma, achando aquilo tão lindo, tão engraçado e tão fofo! Tive um ímpeto louco de me levantar correndo, abrir a porta, segurá-lo, abraçá-lo forte e não deixar que se separasse de mim. Mas era melhor tirar essas imagens da minha cabeça e voltar à aula. Olhei mais uma vez para a porta, para minha surpresa ele ainda estava lá. E olhando para mim, com um sorriso fofo nos lábios.
“Obrigado pelo DVD” – ele sussurrou bem baixinho, mas pude ler a frase em seus lábios.
Depois da aula, almoçamos juntos. Eu, as meninas e Claudio. Eu começava a sentir Túti mais distante de mim do que no começo do ano, quando éramos tão próximos, como se agora ela não tivesse mais tanta vontade de ser minha amiga. Talvez eu estivesse sendo muito injusto ao pensar assim. O fato é que eu me sentia inseguro, tinha vontade de abraçar meus amigos, de chorar, de gritar, de dizer que sentia medo, que me sentia sozinho... que tinha medo de que não houvesse um mundo melhor do que esse me esperando, algum dia... e que não houvesse de fato um sentido da vida.
- O que houve? Ficou calado de repente. – Cláudio disse, me animando.
- Ah, nada... só estava pensando no fim do ano. Vou sentir falta desses almoços da gente.
Todos prometeram que não perderiam o contato, e que sempre nos procuraríamos, mesmo depois que as aulas acabassem.
- Túti... – eu chamei, quando ficamos sozinhos. – Está tudo bem?
- Ah, sei lá, estou pensando em terminar com Cláudio.
- Por quê? Ele é tão bonzinho e gosta tanto de você... você não gosta mais dele?
- Não, não é isso! – ela dizia, meio assustada com minha pergunta.
Ela dizia que não era, mas se tinha algo que eu percebia, desde pequeno, era quando uma pessoa gostava da outra. E os olhos dela já não brilhavam para ele, se é que haviam brilhado em algum dia.
- Então... Há algum motivo?
- Ah, é aquela garota. Aquela Célia!
- Uma gordinha de óculos?
- Sim, ela mesmo. Ela fica “dando em cima” do Cláudio.
- Sinceramente, eu nunca percebi isso. Eles sempre foram amigos, assim como você é minha amiga.
- Ah, eu não sei, não. Para mim, ela é uma safada!
- Haha, Túti... isso pode ser coisa da sua cabeça.
- Eu já falei para ele que não gosto dela, que não quero que ele fale com ela.
- Mas, Túti, você não pode proibir o rapaz de ter amizades. Você gostaria se ele proibisse você de falar comigo?
- Não sei, estou tão confusa... mas algo me diz que eu devo terminar. A menos que ele mude...
- Mudar o quê?
- O jeito dele.
- Como assim?
- Sei lá... não sei explicar.
- Túti... algo me diz que você não sente nada por ele... honestamente, se for realmente isso, o ideal é terminar mesmo. Mas eu duvido, aliás, tenho certeza de que ele não tem e nem quer ter nada com a Célia. Ele só tem olhos para você. Olhe, veja seu reflexo... tire os cabelos do rosto... veja como você é linda!
Era verdade. Cláudio nunca olhou para essa menina, que apesar de popular no colégio, não tinha um terço da beleza e do charme de Túti.
- Ah, eu não sei, amigo.... estou me sentindo tão confusa... Me abrace...
Eu a abracei.
Chegou o fim do ano. Formatura. A festa aconteceu em um lugar bem chique, todos arrumados. Lá pelas tantas aparece Guilhermino, o garoto guitarrista. Ele, que estava sempre de preto e com jeitão de menino mau, parecia engraçado, todo engomado no terno e gravata.
- E aí, cara? Tanto tempo estudando juntos e quase não nos vemos. Bate aqui, “rapá”!
- Guilhermino, tudo bem? Bom ver você por aqui.
- Guilhermino não, cara. Montanha! – ele corrigia.
- Hehehe, está bem, Montanha.
Mas eles percebiam que eu não parava de olhar para os lados, como se procurasse alguém, e não fazia isso voluntariamente. Quando dei por mim, estava com a cabeça girando para todos os cantos daquele imenso e luxuoso salão, e estavam Montanha, Túti e Cláudio olhando para mim.
- Você está bem, cara? – perguntou Cláudio, com aquele seu jeito bonzinho e abobalhado de sempre.
- Ah... sim, estou sim.
- Está esperando alguém? – Montanha falou.
- Não, não... Hehehe, vamos ouvir a apresentação dos corais, já estão começando.
Durante a apresentação, Guilhermino (Montanha) ia falando comigo, bem baixinho. Ele não parava de falar, era muito tagarela. E eu, que antes já não prestava atenção a nada, agora prestava menos ainda. Apenas olhava para os lados e enxergava uma multidão confusa. Não, Eduardo não estava ali. Todos que tinham que vir, já tinham chegado. Os outros estavam viajando.
De repente, o coral começa a cantar alguns temas de musicais, alguns lindos, músicas que tinham marcado minha infância. A emoção era intensa. No meio daquele som perfeito, um ambiente mágico, eu sinto alguém se aproximando devagar. Imagine isso em câmera lenta, como em um filme. Ele se aproxima, anda até perto dos bancos onde estávamos sentados... eu congelo, não posso olhar para trás...
Montanha, sussurrando, me diz:
- Olha, o Eduardo está aí.
Não entendi o porquê de ele ter me dito isso, será que ele sabia de tudo? Mas não importava.
- Vai lá falar com ele, cara. – ele disse.
Eu olhei... era ele! Eduardo! Estava lindo, lindo como nunca havia estado antes... vestido de terno e gravata, parecia mais maduro do que antes, mais homem, mais másculo, mais responsável.
A música então acaba, pausa para as próximas apresentações, onde homenageariam os professores e fariam os discursos.
Como em câmera lenta, eu me levantei, o sorriso era impossível de ser disfarçado. Levantei, me desviei de Célia, de Montanha, de Túti, de Cláudio, de todas as pessoas que estavam à minha frente. Sem controlar qualquer impulso, eu me aproximei, me aproximei... e abracei Eduardo com toda a força e vontade que pude reunir, encostando minha cabeça em seu ombro forte.
Ele sorria e me abraçava de volta com a mesma intensidade, porém um pouco sem jeito.
- Eu sabia que viria.
- Eu também sabia que veria você, meu grande amigo!
Eu o larguei e ele foi se sentar na outra fileira de bancos, já que a fileira em que eu estava já tinha sido toda ocupada. Eu não podia tirar os olhos dele nem por um segundo.
A formatura foi linda! Mas, agora que o ano havia acabado, como ter uma desculpa para vê-lo de novo? Precisava ver Eduardo novamente, e rápido, do contrário eu sufocaria, como se precisasse dele para respirar.
A ocasião veio depressa. Combinamos todos de nos encontrarmos para jantar e matar as saudades. Túti, Nana, enfim, todos da turma. Durante todo o tempo, Eduardo e eu conversamos. Na hora de ir embora, ele me deu carona, eu ficaria na casa do meu pai.
Quando estávamos sozinhos no carro, ele me disse, rindo:
- Quer dizer que você tem bichinhos de pelúcia no quarto?
- Sim.
- E livros de contos de fadas...
- Sim, ué. Algum problema?
- Pô, cara, que vacilo...
- Ah, Eduardo... você não entende? A sociedade fica o tempo todo ditando regras sobre o que devemos gostar ou não... quem disse que rosa é de menina? Quem disse que azul é de menino? Isso é algo que alguém inventou, é cultural. Você acha que é o certo porque cresceu ouvindo isso desde pequeno, mas imagine se tivesse aprendido o contrário, neste momento estaria acreditando no contrário.
Ele me ouvia, muito sério, enquanto seguia na direção do carro por aquela estrada escura durante a noite.
Eu continuei:
- Esse é o problema do ser humano. Temos uma dificuldade imensa em acreditar que tudo aquilo que aprendemos nada mais é do que uma invenção. Não nos conformamos, preferimos mentir para nós mesmos. Se você aprende que isso é madeira... – eu disse e bati de leve no vidro da janela do carro, e em seguida, em algum objeto de ferro que havia no interior do carro – você vai acredita que é madeira, e não importa quantas provas você tenha do contrário, digam que isso é vidro e aquilo é ferro, você sempre vai achar que são pedaços de madeira, mesmo que no fundo você saiba que está errado, vai preferir mentir para si mesmo. É assim que é o ser humano.
- Mas você não é assim...
- Não, não sou. Sabe, eu posso parecer frágil e introvertido, mas eu sou uma pessoa muito forte por dentro, Eduardo, e eu enfrento qualquer dificuldade para ser como eu sou, para ser honesto comigo mesmo e com os outros. Eu não vivo de aparências.
Ele continuava muito sério, como se, lá dentro dele mesmo, ele soubesse do que eu estava falando.
- O que foi?
- Assim, quando eu era pequeno...
Ele parava para pensar no que dizia, como se medisse cada palavra. Estava constrangido, embora tentasse não parecer.
- Pode falar com calma, estou ouvindo. Diga, meu amigo.
Ele sorriu sem graça, parou por alguns segundos e continuou:
- Eu costumava... usar coisas da minha mãe, salto alto, vestidos, essas coisas.
(Continua...)
quarta-feira, 18 de novembro de 2009
A carta de amor proibida (parte 2)
Pensei em dizer a ele que a maneira como eu tinha falado ontem não tinha sido proposital, que eu só tinha ficado um pouco nervoso. Mas, pensando bem, o que ele ia pensar se eu dissesse que fiquei nervoso? Enfim, nenhuma palavra saiu dali.
- Er... bom, vem tirar uma foto com a gente. Você é da nossa turma, não é? - eu perguntei. E que pergunta idiota a minha! Claro que éramos da mesma turma!
- Eu? Sou. Mas está tirando foto? Você vai sair?
- Sair?
- Sair... sair da escola, ué.
- Ah, não! Eu só gosto de tirar fotos mesmo. Guardar de recordação. Se nos tornarmos amigos, daqui a muitos e muitos anos poderemos ver isso e nos lembrar de quando nos conhecemos.
Ele sorriu, olhando para baixo. Era tímido. Sei reconhecer pessoas tímidas, isso eu garanto.
E, sendo assim, timidamente ele me abraçou e tiramos uma foto. Mais uma vez, alguma coisa estranha se passou dentro de mim. Pela primeira vez em minha vida eu tinha uma sensação estranha, porém, ao mesmo tempo, extremamente prazerosa.
- Obrigado. Ah, e eu acabei me esquecendo de dizer ontem meu nome.
Ele riu e disse que já o sabia. Fiquei surpreso.
- Então... se precisar de qualquer coisa, qualquer ajuda...
Eu estendi minha mão e ele a apertou.
Não sei por que, não conseguia explicar a mim mesmo o motivo deste impulso, mas senti uma vontade desesperadora de tocar a mão dele novamente.
Ele sorriu e se foi. Eu fiquei lá com meu grupinho, conversando, mas não sentia mais vontade de conversar mais com Túti e as outras meninas. Minha carência estava se tornando preocupante, eu pensei. Afinal, necessidade de calor humano tem limites.
- Túti é tarada por esse garoto aí, confessa, Túti. – Disse de repente Dorinha, falando sobre Eduardo.
- Eu? – Túti respondeu, encabulada – Mentira!! Não acredita nela não! Ela é que ficava reparando na perna dele, hahaha.
E as duas continuaram rindo e brincando ao falar dos atributos físicos de Eduardo Ngidaha.
- Ai, chega, Dorinha! – Túti exclamou olhando para mim – Deve estar sendo chato para ele, ter que ficar ouvindo a gente falar de homem.
- Pois é, seria até legal se ele fosse gay! Assim a gente podia falar à vontade e ele participava.
- Dorinha!!!!
- Que foi?
- Ai, meu Deus, como você fala besteira!
- É, Túti, eu esqueci que você ia ficar desiludida!
Túti corou e mudou de assunto.
Eu fiquei um pouco sem graça, mas ri da brincadeira.
“Gay”??? Aquelas palavras caíram forte no meu ouvido. Eu não podia ser gay, simplesmente não podia. Eu era um garoto comum, com “jeito de homem” como todos os outros ali, logo, como poderia ser gay? Olhei com força para algumas garotas bonitas e tentei imaginar “besteiras”.
De nada adiantou! Achava as moças bonitas, e só. Não adiantava, percebi ali que não se tratava de uma escolha, meninas não me atraíam.
Eu tinha sim uma escolha: mentir para mim mesmo e ficar com uma menina mesmo sem que ela me atraísse. Mas isso seria desonesto comigo, e desonesto com ela. Talvez eu não ficasse com ninguém, ponto. Mas que vida infeliz seria a minha! Será que eu merecia isso? Se não há nada de errado, nada de nocivo à saúde, por que eu deveria me privar de ser feliz como meu corpo naturalmente pedia? Em nome de uma moral? Uma moral criada pelo ser humano?
Tudo isso passou pela minha cabeça como um raio.
Tentei prestar o máximo de atenção possível à aula e me desligar de tudo.
A matéria estava interessante neste dia e eu estava tão concentrado que, na saída, ao passar a carteirinha, mal percebi uma voz grave, máscula, forte, e ao mesmo tempo suave e doce, falando comigo.
- E aí, Christian? Essa carteirinha é uma droga, né? Nunca sei de que lado da máquina eu passo.
Eu sorri e concordei. Nunca sabia ao certo o que dizer quando estava perto de Eduardo. Agora começava a entender. “Encare seus medos”, eu pensei, “nada acontece por acaso, tudo tem um motivo, confie”. Olhei para a frente, tomei uma dose de coragem e respirei fundo um pouco de confiança... encarei seus olhos por um segundo. Eram os olhos mais lindos que já tinha visto em toda minha vida. Um verde tão doce, mas ao mesmo tempo tão ácido, como uma fruta cítrica.
Ele abriu um sorriso, o que não ficava para trás, seu sorriso era perfeito, e seus lábios eram grossos, porém não grossos demais, eram na medida certa. Apenas o suficiente para me deixar com uma vontade forte, quase incontrolável de chegar perto, bem perto, bem devagar, bem de leve e suavemente tocá-los com os meus. Tudo aquilo passava pela minha cabeça naquele segundo.
- Bom, eu estava pensando... – ele continuou – se você não quer ir comigo almoçar. Eu sei que você sempre almoça na escola, e eu vou ter que ficar para as aulas da tarde todos os dias. Sabe como é, eu quero fazer medicina.
- Ih, rapaz, vai ter que estudar muito.
- Pois é, mas é meu sonho. Os moleques da turma ficaram dizendo hoje “para mim desistir”.
Erro cruel de português, o que passava imperceptível aos meus ouvidos. Mas, naquele momento, nem isso conseguia estragar o prazer que eu sentia ao estar tão perto de Eduardo.
- Bom... – eu disse, tentando manter a concentração e a seriedade, e não dar uma de bobão apaixonado, o que poderia me custar extremamente caro – você quer que eu diga o que EU acho?
- Fala.
- Meu caro amigo, se você realmente ama a medicina, se é isso que você quer, corra atrás. Vá atrás do seu sonho, ele não é impossível. Ninguém além de você mesmo tem o direito de lhe dizer para desistir.
Ele ficou pensando no que eu tinha dito por alguns segundos e abriu um sorrisão, sorriu com seu jeito simples e bronco, mas feliz e verdadeiro.
- Vou fazer isso. Eu prometo. Obrigado por não me mandar desistir, como os outros. Você é um grande amigo, sempre soube que seria, mesmo conhecendo tão pouco.
Eu sorri, muito encabulado, porque ele pareceu ter ficado sem graça logo após dizer isso.
- Bom... vamos almoçar?
- Claro, vamos!
Conversávamos sem parar enquanto nos servíamos, e também durante o almoço. Ele sem dúvida tinha muito menos maturidade e cultura do que eu, mas era esperto e ouvia atentamente tudo que eu dizia com a maior atenção e seriedade. E me admirava cada vez mais.
Quando acabamos, ele estava rindo como um bobo alegre.
- Você é demais! – ele dizia enquanto abria um grande sorriso. - Vamos almoçar amanhã de novo? Que tal? Tudo bem para você...?
- Claro! Sem dúvida! Aqui mesmo?
- Aqui mesmo! – ele disse sorrindo fortemente e olhando para baixo, como quem não consegue olhar nos olhos da pessoa com quem se fala. – Agora eu tenho que ir. A gente se vê.
Disse e saiu. Eu nem podia acreditar em tudo aquilo, estávamos nos aproximando com uma velocidade incrível. Mas eu sabia que não podia ter ilusões. Sabia, mas mesmo assim, uma parte de mim queria tê-las.
Algo estava comigo e não tinha mais volta. Não havia como ignorar e não podia (nem queria!) guardar para mim mesmo. Ah, como eu gostaria de poder confiar isso ao próprio Eduardo! Eu TINHA que desabafar.
(Continua...)
- Er... bom, vem tirar uma foto com a gente. Você é da nossa turma, não é? - eu perguntei. E que pergunta idiota a minha! Claro que éramos da mesma turma!
- Eu? Sou. Mas está tirando foto? Você vai sair?
- Sair?
- Sair... sair da escola, ué.
- Ah, não! Eu só gosto de tirar fotos mesmo. Guardar de recordação. Se nos tornarmos amigos, daqui a muitos e muitos anos poderemos ver isso e nos lembrar de quando nos conhecemos.
Ele sorriu, olhando para baixo. Era tímido. Sei reconhecer pessoas tímidas, isso eu garanto.
E, sendo assim, timidamente ele me abraçou e tiramos uma foto. Mais uma vez, alguma coisa estranha se passou dentro de mim. Pela primeira vez em minha vida eu tinha uma sensação estranha, porém, ao mesmo tempo, extremamente prazerosa.
- Obrigado. Ah, e eu acabei me esquecendo de dizer ontem meu nome.
Ele riu e disse que já o sabia. Fiquei surpreso.
- Então... se precisar de qualquer coisa, qualquer ajuda...
Eu estendi minha mão e ele a apertou.
Não sei por que, não conseguia explicar a mim mesmo o motivo deste impulso, mas senti uma vontade desesperadora de tocar a mão dele novamente.
Ele sorriu e se foi. Eu fiquei lá com meu grupinho, conversando, mas não sentia mais vontade de conversar mais com Túti e as outras meninas. Minha carência estava se tornando preocupante, eu pensei. Afinal, necessidade de calor humano tem limites.
- Túti é tarada por esse garoto aí, confessa, Túti. – Disse de repente Dorinha, falando sobre Eduardo.
- Eu? – Túti respondeu, encabulada – Mentira!! Não acredita nela não! Ela é que ficava reparando na perna dele, hahaha.
E as duas continuaram rindo e brincando ao falar dos atributos físicos de Eduardo Ngidaha.
- Ai, chega, Dorinha! – Túti exclamou olhando para mim – Deve estar sendo chato para ele, ter que ficar ouvindo a gente falar de homem.
- Pois é, seria até legal se ele fosse gay! Assim a gente podia falar à vontade e ele participava.
- Dorinha!!!!
- Que foi?
- Ai, meu Deus, como você fala besteira!
- É, Túti, eu esqueci que você ia ficar desiludida!
Túti corou e mudou de assunto.
Eu fiquei um pouco sem graça, mas ri da brincadeira.
“Gay”??? Aquelas palavras caíram forte no meu ouvido. Eu não podia ser gay, simplesmente não podia. Eu era um garoto comum, com “jeito de homem” como todos os outros ali, logo, como poderia ser gay? Olhei com força para algumas garotas bonitas e tentei imaginar “besteiras”.
De nada adiantou! Achava as moças bonitas, e só. Não adiantava, percebi ali que não se tratava de uma escolha, meninas não me atraíam.
Eu tinha sim uma escolha: mentir para mim mesmo e ficar com uma menina mesmo sem que ela me atraísse. Mas isso seria desonesto comigo, e desonesto com ela. Talvez eu não ficasse com ninguém, ponto. Mas que vida infeliz seria a minha! Será que eu merecia isso? Se não há nada de errado, nada de nocivo à saúde, por que eu deveria me privar de ser feliz como meu corpo naturalmente pedia? Em nome de uma moral? Uma moral criada pelo ser humano?
Tudo isso passou pela minha cabeça como um raio.
Tentei prestar o máximo de atenção possível à aula e me desligar de tudo.
A matéria estava interessante neste dia e eu estava tão concentrado que, na saída, ao passar a carteirinha, mal percebi uma voz grave, máscula, forte, e ao mesmo tempo suave e doce, falando comigo.
- E aí, Christian? Essa carteirinha é uma droga, né? Nunca sei de que lado da máquina eu passo.
Eu sorri e concordei. Nunca sabia ao certo o que dizer quando estava perto de Eduardo. Agora começava a entender. “Encare seus medos”, eu pensei, “nada acontece por acaso, tudo tem um motivo, confie”. Olhei para a frente, tomei uma dose de coragem e respirei fundo um pouco de confiança... encarei seus olhos por um segundo. Eram os olhos mais lindos que já tinha visto em toda minha vida. Um verde tão doce, mas ao mesmo tempo tão ácido, como uma fruta cítrica.
Ele abriu um sorriso, o que não ficava para trás, seu sorriso era perfeito, e seus lábios eram grossos, porém não grossos demais, eram na medida certa. Apenas o suficiente para me deixar com uma vontade forte, quase incontrolável de chegar perto, bem perto, bem devagar, bem de leve e suavemente tocá-los com os meus. Tudo aquilo passava pela minha cabeça naquele segundo.
- Bom, eu estava pensando... – ele continuou – se você não quer ir comigo almoçar. Eu sei que você sempre almoça na escola, e eu vou ter que ficar para as aulas da tarde todos os dias. Sabe como é, eu quero fazer medicina.
- Ih, rapaz, vai ter que estudar muito.
- Pois é, mas é meu sonho. Os moleques da turma ficaram dizendo hoje “para mim desistir”.
Erro cruel de português, o que passava imperceptível aos meus ouvidos. Mas, naquele momento, nem isso conseguia estragar o prazer que eu sentia ao estar tão perto de Eduardo.
- Bom... – eu disse, tentando manter a concentração e a seriedade, e não dar uma de bobão apaixonado, o que poderia me custar extremamente caro – você quer que eu diga o que EU acho?
- Fala.
- Meu caro amigo, se você realmente ama a medicina, se é isso que você quer, corra atrás. Vá atrás do seu sonho, ele não é impossível. Ninguém além de você mesmo tem o direito de lhe dizer para desistir.
Ele ficou pensando no que eu tinha dito por alguns segundos e abriu um sorrisão, sorriu com seu jeito simples e bronco, mas feliz e verdadeiro.
- Vou fazer isso. Eu prometo. Obrigado por não me mandar desistir, como os outros. Você é um grande amigo, sempre soube que seria, mesmo conhecendo tão pouco.
Eu sorri, muito encabulado, porque ele pareceu ter ficado sem graça logo após dizer isso.
- Bom... vamos almoçar?
- Claro, vamos!
Conversávamos sem parar enquanto nos servíamos, e também durante o almoço. Ele sem dúvida tinha muito menos maturidade e cultura do que eu, mas era esperto e ouvia atentamente tudo que eu dizia com a maior atenção e seriedade. E me admirava cada vez mais.
Quando acabamos, ele estava rindo como um bobo alegre.
- Você é demais! – ele dizia enquanto abria um grande sorriso. - Vamos almoçar amanhã de novo? Que tal? Tudo bem para você...?
- Claro! Sem dúvida! Aqui mesmo?
- Aqui mesmo! – ele disse sorrindo fortemente e olhando para baixo, como quem não consegue olhar nos olhos da pessoa com quem se fala. – Agora eu tenho que ir. A gente se vê.
Disse e saiu. Eu nem podia acreditar em tudo aquilo, estávamos nos aproximando com uma velocidade incrível. Mas eu sabia que não podia ter ilusões. Sabia, mas mesmo assim, uma parte de mim queria tê-las.
Algo estava comigo e não tinha mais volta. Não havia como ignorar e não podia (nem queria!) guardar para mim mesmo. Ah, como eu gostaria de poder confiar isso ao próprio Eduardo! Eu TINHA que desabafar.
(Continua...)
domingo, 15 de novembro de 2009
A carta de amor proibida (sobre a primeira grande paixão)
Bom, foi assim que tudo começou... Cheguei naquele dia à nova escola. Havia me mudado recentemente para aquela cidade e era meu último ano escolar, finalmente. Eu só precisava ter um pouco de paciência e tudo acabaria. Não pretendia fazer amigos ou ter um ano marcante, meu objetivo era acabar logo com tudo aquilo.
Não tinha boas recordações do tempo de escola, sempre fui tímido e tive pouca popularidade. Isso tudo além da dificuldade em acompanhar o que os professores falavam. Se por um lado eu era sempre o melhor aluno em português e literatura; em matemática, física e química eu não conseguia tirar nota mais alta do que zero por mais que me esforçasse. No início do ano eu sempre prometia a mim mesmo: neste ano eu me esforçarei, neste ano eu serei o melhor aluno. Mas assim que o professor começava a falar, por mais que eu tentasse, nada conseguia entender, por mais que estudasse tudo em casa depois, era como algo impossível, inalcançável.
Era muito fácil aos professores taxar o aluno de burro, sem analisar sua trajetória, o que causou sua dificuldade. Por isso, eu havia aprendido, o mais sensato a fazer é sempre fingir que está entendendo, se não quiser ser humilhado perante uma turma inteira.
Aquilo tudo estava me deixando com sono profundo... já era a terceira aula do dia e eu não agüentaria mais: deitei minha cabeça sobre a carteira e, sem que pudesse evitar, peguei no sono.
A sala estava lotada (mais de cinqüenta alunos) e em silêncio absoluto, exceto pela voz grave do severo professor.
Não sei quanto tempo, ao certo, se passou enquanto eu dormia. Sei que, de repente, quando eu menos esperava, alguém esbarrou violentamente em mim. Foi a deixa... naquela sala lotada, em que ninguém dizia um “ai”, eu acordei muito assustado e, sem perceber, naquele segundo, gritei um palavrão bem alto. Alto era pouco, o grito chegou a fazer eco por alguns segundos na parede daquela ampla sala.
Por alguns instantes o professor e a turma olharam para mim. Nem riam, sem estavam irritados, apenas extremamente surpresos, sem reação. A situação era tão inusitada que o professor nem soube como agir, simplesmente tornou a olhar para o quadro e, sem graça, continuou sua aula.
Eu já estava querendo sumir, contando os segundos para que aquela porcaria acabasse depressa, quando, por alguma razão, olhei para trás e vi uma menina, que olhou para mim de volta dizendo, (muito) sem graça:
- Desculpe. – e deu um sorriso encabulado.
Túti era seu nome, era magra, muito magra, tinha a pele escura, mas seu cabelo era liso, seus traços eram muito finos e seus olhos, da cor do mel.
Eu ri também, mas bem baixinho, para não chamar ainda mais atenção.
- É que eu tenho mania de ficar com o pé na cadeira da frente, e é minha amiga costuma se sentar aí, então eu acabei me distraindo e esbarrando em você.
Eu sorri e disse algo como “não tem problema” ou coisa assim. Naquele momento, minha intuição me disse que eu seria muito amigo daquela menina.
Hora do intervalo.
- Sabe, eu acho muito injusta a forma como o conteúdo é passado. Estamos aprendendo coisas apenas para colocar em uma prova, e depois jamais usaremos. E esse discurso de que “matemática é tudo” que os professores adoram, não é bem uma verdade. Sejamos realistas, algum de nós de humanas vai usar logaritmo na vida prática? É muito absurdo e os próprios professores sabem disso. – eu ia falando. De repente, perto de Túti, minha timidez tinha ido toda embora, eu falava pelos cotovelos, e ela mais ainda.
- Eu quero fazer direito, quero lutar pelas coisas que eu acredito. Depois quero alugar uma casa para morar com todas as minhas amigas, eu já falei com elas... ah, e quero ter um carro rosa. – ela falava sem parar, atropelando as palavras.
Nossa amizade crescia a cada dia e era impressionante como tínhamos afinidade, nunca ficava aquele silêncio constrangedor que às vezes fica entre as pessoas.
- Meninas, eu vim apresentar meu novo amigo.
- Êpa, carne nova. – brincou Dorinha, a mais assanhada do grupo.
- Ela está brincando, não se preocupe. – Túti riu.
- Claro, amiga, jamais daria em cima do seu namoradinho novo.
- Pára, Dorinha. O garoto vai ficar assustado desse jeito, ele é tímido. – Túti disse, sorrindo sem graça.
Dorinha não era muito bonita, mas tinha algo em seu jeito sensual e carismático que chamava a atenção dos rapazes da escola. A outra amiga de Túti era uma menina gordinha e muito tímida chamada Nana. Parando para lembrar, não me recordo de ter visto falando uma palavra sequer ao longo do ano, exceto para reclamar quando via algum cachorro se aproximando na rua (a única coisa que quebrava sua timidez e a fazia perder o controle: Nana os odiava)!
Essas três meninas, juntamente comigo, eram um grupo único. Durante todos os intervalos, sem exceção, nos reuníamos para lanchar no pátio. Víamos os carros e as pessoas passando e ficávamos conversando. Era uma boa forma de ir passando o tempo e esperar que aquele ano acabasse de vez.
Certa vez, enquanto íamos com nosso lanche para a parte de trás do shopping, onde ficávamos, todos os dias, Túti disse algo como:
- Poxa, eu nunca namoro no dia dos namorados chega e eu nunca namoro, será que no desse ano eu estarei namorando?
- Túti, pára de ficar mandando indireta para o garoto! – Dorinha brincou.
Túti riu, sem graça, e ficou de todas as cores. Eu ri também.
Aquilo me deixou confuso. Há tanto tempo que eu estava sozinho (a vida inteira, confesso), e ainda me lembrava da voz da minha mãe dizendo na minha infância que um dia eu encontraria alguém que fizesse meu coração bater tão forte a ponto de eu não conseguir pensar mais em nada, e isso seria o amor. Túti era de fato uma menina lindíssima, eu tinha uma grande afinidade com ela, ou seja, tinha tudo para gostar dela, só que por alguma razão essa sensação não aparecia. Também não acontecia com Dorinha ou com Nana, ou com qualquer uma das meninas da escola.
No dia seguinte, na aula, olhei para as meninas da turma. Havia algumas que eram consideradas verdadeiras obras de arte, de tão lindas. Nenhuma daquelas garotas olharia para mim, eu pensei. Mas, pensando bem, será mesmo esse o problema?
Algum tempo depois, não sei exatamente quanto, mas alguns meses, Túti começou a namorar um menino que estudava conosco. Luiz Claudio, tímido e atrapalhado, até se parecia de longe comigo. Eu bem tinha percebido que ele de vez enquanto vinha se juntar ao nosso grupinho com a desculpa de dar algum recado e acabava ficando durante um tempo conversando. Sabia que ele tinha interesse em alguma das meninas, sentia isso, e não estava errado. Um belo dia ele se declarou para Túti, ela resolveu aceitar.
Túti, para minha surpresa não mudou em ABSOLUTAMENTE NADA depois que começou o namoro. Continuamos nossa amizade exatamente como antes. Na verdade, em minha opinião particular, ela nem ligava muito para o namoro, embora gostasse do Cláudio como pessoa. Ele era um rapaz magrelo, alto, com pele bem branquinha e cabelos castanhos. Sempre ríamos todos juntos e, de tarde, depois das aulas, íamos juntos almoçar no restaurante de comida a quilo próximo à escola. Meu Deus, que saudade daquelas tardes ensolaradas... algumas recordações deviam ser banidas de nosso cérebro, pois nos trazem uma nostalgia tão grande, uma vontade tão intensa de viver naquele momento só por mais um segundo... o que é absolutamente impossível!
Foi então que chegou aquele dia, aquele do qual eu me lembro bem. Naquele dia minha vida mudaria e eu não podia imaginar. Preciso continuar... talvez contando a vocês eu me liberte dessas recordações, quem sabe...
- Me-me... de-desculpe... é que eu... eu pensei que você não tivesse chegado ainda...
- Aham... – eu era monossilábico, e ainda esperava que ele saísse.
- Bom... – ele disse, por fim, sorrindo, estendendo a mão para mim e se levantando. - ...eu sou Eduardo. Eduardo Ngidaha. Prazer!
Olhei por alguns segundos e, já que não tinha jeito, apertei sua mão e disse um “oi, tudo bem?” ou alguma coisa do tipo. Sua mão era pesada, quente, áspera e dura como uma pedra que ficou muito tempo estendida sob o sol.
Sentei na carteira finalmente e a aula começou. Tudo ia muito bem quando, em algum momento da aula, eu me senti mal... não mal de saúde, mas mal do coração. Eu sempre detestei injustiças e preconceitos, e agora fazia justamente tudo que eu sempre condenei. Tratei mal um rapaz e o julguei pelas aparências, quando ele só fez me tratar bem, e até apertou a minha mão.
No intervalo, Túti não me achou, nem as outras meninas. Nem sei por onde andei, só sei que fui para casa e fiquei pensando sobre aquilo por um tempo. Até que cheguei à seguinte conclusão: “que bobagem, não é tão grave assim, você não fez uma grande grosseria, só pediu que ele retirasse de seu lugar, amanhã você vai falar com ele e pronto, ele vai ver a pessoa legal que você é”.
Pensando nisso, fiquei mais tranqüilo e adormeci.
O dia seguinte veio, assisti à aula e já nem pensava mais nisso. Chegou o horário do intervalo. Estávamos tirando fotos naquele dia, lembro como se fosse ontem. Rindo e brincando, fazendo poses e mudando de lugar. Eu, Túti, Dorinha e Nana. Foi então que ouvi uma voz familiar.
- E aí, pessoal? Túti! Dorinha!
- E aí, Eduardo? Tudo bem com você?
Era o menino moreno dos olhos verdes novamente. Eu já sabia que o veria, mas ainda assim me surpreendia como se o visse pela primeira vez naquele momento. Ele cumprimentou as meninas e passou meio receoso por mim.
- Eduardo! – eu chamei.
- Sou eu! – ele respondeu, voltando depressa, meio surpreso.
(Continua...)
domingo, 1 de novembro de 2009
E quando aparecer a próxima... (parte final)
Lá fora, o pessoal conversava animadamente com Luiz Antonio (que colocou de volta meu chapéu em minha cabeça). Estavam tão animados que nem perceberam que Cibela começava a resfolegar.
- Cibela, está tudo bem? – eu perguntei, mas não tive tempo de ouvir resposta, tive que segurá-la antes que caísse semi desmaiada no chão da rua. Chamei o pessoal. Nós a colocamos sentada ali perto e lhe demos um pouco de água.
- Está tudo bem, é só um pouco de pressão baixa. – ela disse.
Olhando para a porta da boate vi que o menino loirinho (e também o amigo moreno dele) estava indo embora de lá. O moreno acenou para mim, acenei de volta (ou vice-versa, não lembro). Pensei em ir atrás deles e pedir que me dissessem o sobrenome para que eu pudesse procurá-los futuramente, ou alguma forma de manter contato. Estou certo de que eles teriam gostado, mas pensando bem... para que fazer isso? Só o que queria era ter chegar em casa e nunca mais participar de uma aventura dessas. Ainda mais quando Otávio me disse que não seria possível me dar carona (e eu morava longe, nem fazia ideia de como voltar para casa às cinco da manhã). Mas não podia reclamar, não era culpa dele, seu carro estava lotado. Caminhei até a praia e peguei o ônibus, cheguei até rápido. Antes de dormir, pensei rapidamente no menino loirinho "apaixonado" e cheguei a me permitir uma risada.
Algum tempo se passou... eu até podia dar risada de tudo que me aconteceu naquele dia na boate, mas uma coisa não me saía da cabeça: o menino loirinho que conheci, o que ele tinha visto de tão especial em mim? Por que havia gostado tanto, a ponto de ficar por várias horas me perseguindo na festa? Parecia ser uma pessoa romântica, pelo menos. E afastei rápido pensamento, afinal, isso não era para mim, eu já deveria ter aprendido...
...
Espere um segundo, rebobine a fita, inverta. Tudo que eu sempre procurei era alguém assim. Eu me deixei levar por uma primeira impressão preconceituosa (pois o rapaz estava embriagado) e acabei não enxergando a única pessoa que também queria tudo o que eu sempre quis. Talvez, pensando mais amplamente, eu tenha até desperdiçado a maior chance da minha vida. (Que exagero! Melhor não pensar mais nisso!), e não pensei por mais um bom tempo.
Cheguei a ver Nando na rua alguns meses depois. Não me sentia atraído por ele nem um pouco e, pensando bem, ele não tinha um quinto da beleza que achei que tinha. Luiz também não tinha mais graça e Otávio, tampouco.
Foi quando assisti a um filme romântico, sozinho em casa, em uma tarde chuvosa. Tudo parecia tão perfeito e lindo, mesmo com todo o preconceito e todas as dificuldades, o protagonista do filme (um rapaz loiro e com sorriso cativante) continuava apaixonado e determinado por outro rapaz, que também o amava. O filme acabou e eu fiquei ali pensando.
Sozinho, ali, naquele quarto, olhei para dentro de mim mesmo...
Fui correndo procurar desesperadamente pelo rapaz loirinho, tendo como informações apenas seu primeiro nome, o bairro onde morava (Copa), e o fato de ter vindo de Porto Alegre. Procurei de todas as formas que pude: internet, perguntas... Nunca mais o encontrei. Não estava no Orkut, ou tinha qualquer conhecido em comum. Nada.
“Pode ser que (e muito provavelmente) você jamais o veja outra vez”, eu disse a mim mesmo. “Pode ser que tudo na vida tenha um sentido, um significado, e ele talvez tenha lhe ensinado algo...”, uma voz dentro de mim dizia, “...ou talvez não”.
Deitei minha cabeça na cama e, sem que eu percebesse, várias lágrimas correram em meu rosto.
Escrevi para Cibela perguntando quando voltaríamos lá, ao que ela me respondeu:
“Oi, tudo bem? No final do ano, assim que acabarem as provas na faculdade, todos nós vamos. Vem com a gente? Sei que você ficou confuso no começo porque era tudo muito novo para você, agora vai ser só diversão. Beijão, Cibela.”
Olhei para a janela... ah, que mundo grande lá fora! No céu daquele fim de tarde havia apenas algumas gotas de chuva e os sons dos últimos passarinhos do dia, além de alguns sons de carro ao longe e de uma brisa doce que tocava meu rosto e agitava meus cabelos negros... tudo como sempre, mas faltava alguma coisa, eu notava. Seriam as cigarras? Ah, não, eu também posso ouvi-las, então o que seriam? Demorei a me dar conta de que não havia nenhuma estrela cadente. Suspirei fundo antes de desviar meus olhos da janela e prosseguir minha vida, e apenas pensei, bem ligeiramente, naquela estrela cadente, e em quando apareceria a próxima...
- Cibela, está tudo bem? – eu perguntei, mas não tive tempo de ouvir resposta, tive que segurá-la antes que caísse semi desmaiada no chão da rua. Chamei o pessoal. Nós a colocamos sentada ali perto e lhe demos um pouco de água.
- Está tudo bem, é só um pouco de pressão baixa. – ela disse.
Olhando para a porta da boate vi que o menino loirinho (e também o amigo moreno dele) estava indo embora de lá. O moreno acenou para mim, acenei de volta (ou vice-versa, não lembro). Pensei em ir atrás deles e pedir que me dissessem o sobrenome para que eu pudesse procurá-los futuramente, ou alguma forma de manter contato. Estou certo de que eles teriam gostado, mas pensando bem... para que fazer isso? Só o que queria era ter chegar em casa e nunca mais participar de uma aventura dessas. Ainda mais quando Otávio me disse que não seria possível me dar carona (e eu morava longe, nem fazia ideia de como voltar para casa às cinco da manhã). Mas não podia reclamar, não era culpa dele, seu carro estava lotado. Caminhei até a praia e peguei o ônibus, cheguei até rápido. Antes de dormir, pensei rapidamente no menino loirinho "apaixonado" e cheguei a me permitir uma risada.
Algum tempo se passou... eu até podia dar risada de tudo que me aconteceu naquele dia na boate, mas uma coisa não me saía da cabeça: o menino loirinho que conheci, o que ele tinha visto de tão especial em mim? Por que havia gostado tanto, a ponto de ficar por várias horas me perseguindo na festa? Parecia ser uma pessoa romântica, pelo menos. E afastei rápido pensamento, afinal, isso não era para mim, eu já deveria ter aprendido...
...
Espere um segundo, rebobine a fita, inverta. Tudo que eu sempre procurei era alguém assim. Eu me deixei levar por uma primeira impressão preconceituosa (pois o rapaz estava embriagado) e acabei não enxergando a única pessoa que também queria tudo o que eu sempre quis. Talvez, pensando mais amplamente, eu tenha até desperdiçado a maior chance da minha vida. (Que exagero! Melhor não pensar mais nisso!), e não pensei por mais um bom tempo.
Cheguei a ver Nando na rua alguns meses depois. Não me sentia atraído por ele nem um pouco e, pensando bem, ele não tinha um quinto da beleza que achei que tinha. Luiz também não tinha mais graça e Otávio, tampouco.
Foi quando assisti a um filme romântico, sozinho em casa, em uma tarde chuvosa. Tudo parecia tão perfeito e lindo, mesmo com todo o preconceito e todas as dificuldades, o protagonista do filme (um rapaz loiro e com sorriso cativante) continuava apaixonado e determinado por outro rapaz, que também o amava. O filme acabou e eu fiquei ali pensando.
Sozinho, ali, naquele quarto, olhei para dentro de mim mesmo...
Fui correndo procurar desesperadamente pelo rapaz loirinho, tendo como informações apenas seu primeiro nome, o bairro onde morava (Copa), e o fato de ter vindo de Porto Alegre. Procurei de todas as formas que pude: internet, perguntas... Nunca mais o encontrei. Não estava no Orkut, ou tinha qualquer conhecido em comum. Nada.
“Pode ser que (e muito provavelmente) você jamais o veja outra vez”, eu disse a mim mesmo. “Pode ser que tudo na vida tenha um sentido, um significado, e ele talvez tenha lhe ensinado algo...”, uma voz dentro de mim dizia, “...ou talvez não”.
Deitei minha cabeça na cama e, sem que eu percebesse, várias lágrimas correram em meu rosto.
Escrevi para Cibela perguntando quando voltaríamos lá, ao que ela me respondeu:
“Oi, tudo bem? No final do ano, assim que acabarem as provas na faculdade, todos nós vamos. Vem com a gente? Sei que você ficou confuso no começo porque era tudo muito novo para você, agora vai ser só diversão. Beijão, Cibela.”
Olhei para a janela... ah, que mundo grande lá fora! No céu daquele fim de tarde havia apenas algumas gotas de chuva e os sons dos últimos passarinhos do dia, além de alguns sons de carro ao longe e de uma brisa doce que tocava meu rosto e agitava meus cabelos negros... tudo como sempre, mas faltava alguma coisa, eu notava. Seriam as cigarras? Ah, não, eu também posso ouvi-las, então o que seriam? Demorei a me dar conta de que não havia nenhuma estrela cadente. Suspirei fundo antes de desviar meus olhos da janela e prosseguir minha vida, e apenas pensei, bem ligeiramente, naquela estrela cadente, e em quando apareceria a próxima...
E quando aparecer a próxima... (parte 2)
BARULHO! BARULHO! BARULHO! TUMULTO! TUMULTO! BARULHO! TUMULTO! MUITA GENTE, MUITA GENTE, MUITA GENTE! BARULHO! MUITO BARULHO! LUZES PISCANDO!
Só o que vinha à minha mente eram essas palavras desconexas. Meu coração disparou ainda mais, achei que ia cair duro no chão. Consegue imaginar seu pior pesadelo? Imagine sua pior vergonha. Imagine ser humilhado(a) em frente a todos que conhece. Quem nunca teve pesadelos do tipo que atire a primeira pedra. Quem nunca sonhou que estava chegando nu(a) na escola, ou que caía e via todos rindo de sua cara. Era assim que eu me sentia, como se um pesadelo estivesse prestes a acontecer. Iria passar a maior vergonha da minha vida. Por que eu não fiquei em casa? Viveria minha derrota confortavelmente, sem medo, sem dor.
No escuro daquele lugar barulhento e cheio de gente dançando, tentava não me perder de meus novos amigos. Tentava não demonstrar meu medo, mas qualquer um que visse meu rosto perceberia (nesse ponto, o escuro me favorecia, pelo menos). Segurei o braço de Cibela, sem saber o que fazer, e ela tentava se afastar, assustada. Minha pressão começou a baixar e senti que ia cair desmaiado no chão. Tive vontade de chorar, de correr, fugir. Impossível descrever. Já havia pagado para entrar, teria que ficar ali pelo menos por algumas horas.
Tentei dançar com o pessoal, mas não conseguia, meu corpo não me obedecia, eu devia parecer um robô enferrujado sambando e não um rapaz dançando em uma boate. Meus amigos estavam indo para o outro lado da boate e eu tentavam acompanhá-los, para isso tendo que atropelar várias pessoas. “Com licença”, eu dizia docemente. Depois de um tempo tive que deixar de dizer, pois ninguém parecia ouvir nada mesmo.
“Como as pessoas podem se conhecer em lugares assim?”, era só o que eu pensava, aborrecido.
Fiquei algum por algum tempo tentando dançar (é, não me lembre) e tentar relaxar. Um dos atores do elenco da peça que estava sendo divulgada era amigo do pessoal, e se aproximou. Ele já me conhecia de vista, pois nas vezes em que assistimos às peças, ele sempre vinha falar com meus amigos no final. Luiz Antonio (o jovem ator) era a personificação do que havia de interessante para mim naquele momento, e senti que ele percebia que eu pensava assim só de olhar para meu rosto.... talvez eu estivesse enganado.
- É isso aí, pessoal. Vamos curtir! – ele disse, animado, e abraçando a todos. Eu já estava olhando para o outro lado quando me surpreendi com o abraço dele. Tão deslocado que eu estava, nem me sentia mais naquele lugar, como se eu tivesse me esquecido de que estava vivo.
Ele me disse algo, acho que sobre eu estar tímido, não escutei bem. Não lembro o que respondi. (Provavelmente algo bem patético). Meu corpo estremecia com o abraço dele.
Percebi Fernando dançado perto de mim e me puxando.
- Ei, ânimo, rapaz!
- Está muito na cara que não estou me sentindo muito bem? – perguntei, ousando demonstrar insegurança (o que já estava tão óbvio, que seria patético tentar disfarçar).
- É, não é seu ambiente, né? – ele disse, sendo simpático e com um ar de compreensão. – Não quer beber um pouco para relaxar? Ah, desculpe, esqueci que você não bebe... bom, mas acho que se você desse um gole talvez se soltasse, mas...
Alguma loucura tomou conta da minha cabeça e, antes de pensar duas vezes, peguei a garrafa dele e bebi.
- Hahaha! Isso mesmo, se beber rápido assim, vai dar a maior onda.
- Preciso beber, ou vou enlouquecer.
Comprei uma garrafa e comecei a beber, beber até esvaziar. O sabor era terrível, parecia beber veneno. Mas não importava, só queria ver se realmente a “onda” da qual Fernando falou me ajudaria a me libertar daquele pânico terrível. Bebi a garrafa inteira e comprei outra. Dentro de alguns minutos, já estava conseguindo dançar um pouco mais leve e com um pouquinho menos de vergonha. Olhei para Fernando ao meu lado e me aproximei dele. (O que a bebida não faz, heim?)
- Nossa, está até mais soltinho, heim... é você mesmo? - ele perguntou.
- Sabe o que faria minha noite ser perfeita agora?
- Ai, meu Deus... – ele respondeu, rindo – o quê?
- Me dá um beijo agora! - (Como eu detesto lembrar de ter dito isso, puta que pariu vinte vezes)!
Ele riu timidamente e disse algo como “não, tem muita gente conhecida aqui, não vou dar bandeira”.
Não insisti, só me afastei fingindo que estava tudo ótimo. A vontade de beijar Fernando passou imediatamente, e deu lugar a uma grande vergonha. Como eu havia sido estúpido de pensar que o que deveria um dia ter sido um garoto “popular mais bonitinho da turma na escola” se aproximaria de mim agora. Alguns minutos depois, eu o vi se agarrando com um garoto extremamente musculoso. (Acho que nem preciso dizer que o complexo do menino magrelo da escola apareceu para mandar um "oi").
Foi quando Luiz se aproximou de novo.
- E aí, galera? – e, olhando para mim – Ei, você até que está mais soltinho, tudo bem?
Dessa vez eu o abracei antes dele.
- Ei, lindo, gostei do seu chapéu, sabia? – ele me disse.
- Gostei mais de você. – eu disse alguma coisa assim. Sim, isso mesmo, bem brega! (Alguém me dê uma jogue um balde de água fria, por favor? Hauhahauah).
Coloquei meu chapéu na cabeça dele e fiz um carinho em seu rosto. Ele saiu sorrindo. Só depois de um tempo é que me dei conta de que ele tinha, sem querer, ido com meu chapéu na cabeça. Sem meu chapéu, era como se eu estivesse nu. O pessoal já nem me reconhecia, nunca tinha me visto sem ele.
Olhei em volta e, entre a multidão barulhenta, vi Otávio se aproximando de Fernando. Os dois se beijaram ardentemente ali, na minha frente. Continuei dançando, fingindo que não via. Alguém perguntou por mim (acho que não me reconheceram, sem o chapéu). Minha cabeça estava meio estranha e não localizei onde foi. Luiz não deveria voltar mais, e já não me importava mais. Tudo que eu queria era chegar à minha casa, tomar um banho e dormir por horas, horas, e horas, e não acordar mais. Não ter que me olhar mais para o espelho e saber que sou eu. Lamentava ter perdido o chapéu, não queria que vissem meu rosto (o que o chapéu ajudava a esconder). Uma irritação e um desconforto terrível, pior do que o do início, começaram a dominar meu corpo.
Foi quando, em uma fração de segundo, tudo pareceu parar. Talvez meu cérebro já tivesse se acostumado ao barulho, e não se incomodava mais, era como se eu estivesse anestesiado. Como se eu tivesse, dentro da minha mente, gritado: “CHEGA!” e o som tivesse sumido. Nesta fração de segundos, ouvi uma voz me chamar e falar comigo.
Olhei em volta e vi um rapaz da minha altura, muito branquinho e com cabelo louro. Seu rosto era perfeito e o seu sorriso, extremamente agradável. Mas eu não queria conhecer mais ninguém. A vida já havia deixado claro meu lugar, e eu já havia entendido.
O rapaz loirinho continuava falando comigo e eu me esforçava para entender. Cheguei perto dele e percebi que ele estava embriagado.
- A amiga de vocês está chocada, não está? - ele disse.
- Como?
- Ela está chocada... homens se beijando na frente dela... chocada...
O rapaz parecia mais inseguro do que eu. Percebi, mesmo em tão pouco tempo, o quanto ele deve ter sofrido preconceitos.
- Ela não está chocada, todos os melhores amigos dela são gays.
- Todo mundo... chocado... eles... as pessoas.... - ele dizia coisas do tipo.
Eu queria me afastar, ir embora dali e nunca mais olhar para a cara de nenhuma das pessoas que participaram daquele meu dia, mas ele continuava me puxando.
- Você está chocado também?
- Não. Mas você quer deixar essas pessoas mais chocadas ainda?
Ele pareceu despertar de um transe e me olhou com aqueles olhos tão tímidos e tão azuis que até mesmo no escuro daquela festa eu podia ver claramente.
Cheguei perto dele devagar e o beijei nos lábios. Uma onda de nojo tomou conta de mim, pois senti um gosto terrível de bebida nele. Educadamente me afastei, estava muito longe do pessoal e tinha esperança de ir para casa de carona com eles. Percebi que o loirinho me seguia e falava comigo.
- São seus amigos? – ele perguntou.
- São sim. Não posso me perder deles, preciso da carona.
- Você é muito especial. – ele dizia, me olhando fixamente por detrás de seus olhos azuis.
- Obrigado. – eu respondi, sem graça, e não muito confortável. – Tenho certeza de que... de que você também é. Preciso ir...
Ele continuava atrás de mim, falando sem parar. Enquanto procurava meus amigos com os olhos, ia tentando ouvir o que ele me dizia e de vez em quando perguntava alguma coisa. Naqueles minutos, eu o ouvi dizer seu nome (Pedro? Será que ouvi bem?), e que morava em Copacaba. Perguntei de onde ele vinha, pois tinha um sotaque forte do sul.
- Porto Alegre! – ele respondeu.
- Que bonitinho! – eu disse, ainda procurando minha turma com os olhos.
Ele ficou ruborizado e seu sotaque pareceu ter ficado mais forte mil vezes, e me surpreendi quando ele pegou minha mão. Alguma coisa estranha acendeu dentro de mim e tirei a mão dele. Aquilo não podia estar acontecendo. Não sei explicar por quê. Posso dizer que essa foi uma das experiências mais estranhas da minha vida, não sei por que o rapaz loirinho me assustava e me repudiava, e ao mesmo tempo me fascinava. Por alguma razão só sabia que precisava me afastar dele.
- Por favor, eu preciso ir embora. – eu disse timidamente.
- Você não vai se esquecer de mim? – ele perguntava com um olhar doce. Eu sentia que já conhecia aquele rosto de algum lugar, era familiar. Apenas uma impressão, lógico. Antes de me afastar definitivamente, olhei para trás mais uma vez e, naquele impulso, pela última vez na minha vida, beijei o menino loirinho.
Fui até onde estavam meus amigos, que já falavam em ir embora. Aquilo me aliviou.
Uma voz me chamou. Era ele, estava junto com um amigo pouco mais alto do que nós, de pele morena e cabelos escuros. Pouco me lembro do rosto dele, mas tinha um olhar lascivo, muito sensual, ao contrário do olhar doce e inocente do menino loirinho.
- Esse é meu colega de trabalho... ele queria te conhecer... – ouvi o loirinho dizer algo assim, com uma voz um pouco entristecida.
- Oi, tudo bem? – eu disse, sem muito ânimo, mas educado.
Ele disse o nome (que eu não tenho certeza absoluta de ter entendido, mas acho que era Rodrigo), se aproximou de mim e me deu beijo. Eu não tinha nada a perder naquele momento, beijei de volta e me afastei.
Otávio me chamou quase no mesmo segundo.
- Ei, estamos indo embora, o pessoal pediu para te avisar.
Saímos da boate.
Só o que vinha à minha mente eram essas palavras desconexas. Meu coração disparou ainda mais, achei que ia cair duro no chão. Consegue imaginar seu pior pesadelo? Imagine sua pior vergonha. Imagine ser humilhado(a) em frente a todos que conhece. Quem nunca teve pesadelos do tipo que atire a primeira pedra. Quem nunca sonhou que estava chegando nu(a) na escola, ou que caía e via todos rindo de sua cara. Era assim que eu me sentia, como se um pesadelo estivesse prestes a acontecer. Iria passar a maior vergonha da minha vida. Por que eu não fiquei em casa? Viveria minha derrota confortavelmente, sem medo, sem dor.
No escuro daquele lugar barulhento e cheio de gente dançando, tentava não me perder de meus novos amigos. Tentava não demonstrar meu medo, mas qualquer um que visse meu rosto perceberia (nesse ponto, o escuro me favorecia, pelo menos). Segurei o braço de Cibela, sem saber o que fazer, e ela tentava se afastar, assustada. Minha pressão começou a baixar e senti que ia cair desmaiado no chão. Tive vontade de chorar, de correr, fugir. Impossível descrever. Já havia pagado para entrar, teria que ficar ali pelo menos por algumas horas.
Tentei dançar com o pessoal, mas não conseguia, meu corpo não me obedecia, eu devia parecer um robô enferrujado sambando e não um rapaz dançando em uma boate. Meus amigos estavam indo para o outro lado da boate e eu tentavam acompanhá-los, para isso tendo que atropelar várias pessoas. “Com licença”, eu dizia docemente. Depois de um tempo tive que deixar de dizer, pois ninguém parecia ouvir nada mesmo.
“Como as pessoas podem se conhecer em lugares assim?”, era só o que eu pensava, aborrecido.
Fiquei algum por algum tempo tentando dançar (é, não me lembre) e tentar relaxar. Um dos atores do elenco da peça que estava sendo divulgada era amigo do pessoal, e se aproximou. Ele já me conhecia de vista, pois nas vezes em que assistimos às peças, ele sempre vinha falar com meus amigos no final. Luiz Antonio (o jovem ator) era a personificação do que havia de interessante para mim naquele momento, e senti que ele percebia que eu pensava assim só de olhar para meu rosto.... talvez eu estivesse enganado.
- É isso aí, pessoal. Vamos curtir! – ele disse, animado, e abraçando a todos. Eu já estava olhando para o outro lado quando me surpreendi com o abraço dele. Tão deslocado que eu estava, nem me sentia mais naquele lugar, como se eu tivesse me esquecido de que estava vivo.
Ele me disse algo, acho que sobre eu estar tímido, não escutei bem. Não lembro o que respondi. (Provavelmente algo bem patético). Meu corpo estremecia com o abraço dele.
Percebi Fernando dançado perto de mim e me puxando.
- Ei, ânimo, rapaz!
- Está muito na cara que não estou me sentindo muito bem? – perguntei, ousando demonstrar insegurança (o que já estava tão óbvio, que seria patético tentar disfarçar).
- É, não é seu ambiente, né? – ele disse, sendo simpático e com um ar de compreensão. – Não quer beber um pouco para relaxar? Ah, desculpe, esqueci que você não bebe... bom, mas acho que se você desse um gole talvez se soltasse, mas...
Alguma loucura tomou conta da minha cabeça e, antes de pensar duas vezes, peguei a garrafa dele e bebi.
- Hahaha! Isso mesmo, se beber rápido assim, vai dar a maior onda.
- Preciso beber, ou vou enlouquecer.
Comprei uma garrafa e comecei a beber, beber até esvaziar. O sabor era terrível, parecia beber veneno. Mas não importava, só queria ver se realmente a “onda” da qual Fernando falou me ajudaria a me libertar daquele pânico terrível. Bebi a garrafa inteira e comprei outra. Dentro de alguns minutos, já estava conseguindo dançar um pouco mais leve e com um pouquinho menos de vergonha. Olhei para Fernando ao meu lado e me aproximei dele. (O que a bebida não faz, heim?)
- Nossa, está até mais soltinho, heim... é você mesmo? - ele perguntou.
- Sabe o que faria minha noite ser perfeita agora?
- Ai, meu Deus... – ele respondeu, rindo – o quê?
- Me dá um beijo agora! - (Como eu detesto lembrar de ter dito isso, puta que pariu vinte vezes)!
Ele riu timidamente e disse algo como “não, tem muita gente conhecida aqui, não vou dar bandeira”.
Não insisti, só me afastei fingindo que estava tudo ótimo. A vontade de beijar Fernando passou imediatamente, e deu lugar a uma grande vergonha. Como eu havia sido estúpido de pensar que o que deveria um dia ter sido um garoto “popular mais bonitinho da turma na escola” se aproximaria de mim agora. Alguns minutos depois, eu o vi se agarrando com um garoto extremamente musculoso. (Acho que nem preciso dizer que o complexo do menino magrelo da escola apareceu para mandar um "oi").
Foi quando Luiz se aproximou de novo.
- E aí, galera? – e, olhando para mim – Ei, você até que está mais soltinho, tudo bem?
Dessa vez eu o abracei antes dele.
- Ei, lindo, gostei do seu chapéu, sabia? – ele me disse.
- Gostei mais de você. – eu disse alguma coisa assim. Sim, isso mesmo, bem brega! (Alguém me dê uma jogue um balde de água fria, por favor? Hauhahauah).
Coloquei meu chapéu na cabeça dele e fiz um carinho em seu rosto. Ele saiu sorrindo. Só depois de um tempo é que me dei conta de que ele tinha, sem querer, ido com meu chapéu na cabeça. Sem meu chapéu, era como se eu estivesse nu. O pessoal já nem me reconhecia, nunca tinha me visto sem ele.
Olhei em volta e, entre a multidão barulhenta, vi Otávio se aproximando de Fernando. Os dois se beijaram ardentemente ali, na minha frente. Continuei dançando, fingindo que não via. Alguém perguntou por mim (acho que não me reconheceram, sem o chapéu). Minha cabeça estava meio estranha e não localizei onde foi. Luiz não deveria voltar mais, e já não me importava mais. Tudo que eu queria era chegar à minha casa, tomar um banho e dormir por horas, horas, e horas, e não acordar mais. Não ter que me olhar mais para o espelho e saber que sou eu. Lamentava ter perdido o chapéu, não queria que vissem meu rosto (o que o chapéu ajudava a esconder). Uma irritação e um desconforto terrível, pior do que o do início, começaram a dominar meu corpo.
Foi quando, em uma fração de segundo, tudo pareceu parar. Talvez meu cérebro já tivesse se acostumado ao barulho, e não se incomodava mais, era como se eu estivesse anestesiado. Como se eu tivesse, dentro da minha mente, gritado: “CHEGA!” e o som tivesse sumido. Nesta fração de segundos, ouvi uma voz me chamar e falar comigo.
Olhei em volta e vi um rapaz da minha altura, muito branquinho e com cabelo louro. Seu rosto era perfeito e o seu sorriso, extremamente agradável. Mas eu não queria conhecer mais ninguém. A vida já havia deixado claro meu lugar, e eu já havia entendido.
O rapaz loirinho continuava falando comigo e eu me esforçava para entender. Cheguei perto dele e percebi que ele estava embriagado.
- A amiga de vocês está chocada, não está? - ele disse.
- Como?
- Ela está chocada... homens se beijando na frente dela... chocada...
O rapaz parecia mais inseguro do que eu. Percebi, mesmo em tão pouco tempo, o quanto ele deve ter sofrido preconceitos.
- Ela não está chocada, todos os melhores amigos dela são gays.
- Todo mundo... chocado... eles... as pessoas.... - ele dizia coisas do tipo.
Eu queria me afastar, ir embora dali e nunca mais olhar para a cara de nenhuma das pessoas que participaram daquele meu dia, mas ele continuava me puxando.
- Você está chocado também?
- Não. Mas você quer deixar essas pessoas mais chocadas ainda?
Ele pareceu despertar de um transe e me olhou com aqueles olhos tão tímidos e tão azuis que até mesmo no escuro daquela festa eu podia ver claramente.
Cheguei perto dele devagar e o beijei nos lábios. Uma onda de nojo tomou conta de mim, pois senti um gosto terrível de bebida nele. Educadamente me afastei, estava muito longe do pessoal e tinha esperança de ir para casa de carona com eles. Percebi que o loirinho me seguia e falava comigo.
- São seus amigos? – ele perguntou.
- São sim. Não posso me perder deles, preciso da carona.
- Você é muito especial. – ele dizia, me olhando fixamente por detrás de seus olhos azuis.
- Obrigado. – eu respondi, sem graça, e não muito confortável. – Tenho certeza de que... de que você também é. Preciso ir...
Ele continuava atrás de mim, falando sem parar. Enquanto procurava meus amigos com os olhos, ia tentando ouvir o que ele me dizia e de vez em quando perguntava alguma coisa. Naqueles minutos, eu o ouvi dizer seu nome (Pedro? Será que ouvi bem?), e que morava em Copacaba. Perguntei de onde ele vinha, pois tinha um sotaque forte do sul.
- Porto Alegre! – ele respondeu.
- Que bonitinho! – eu disse, ainda procurando minha turma com os olhos.
Ele ficou ruborizado e seu sotaque pareceu ter ficado mais forte mil vezes, e me surpreendi quando ele pegou minha mão. Alguma coisa estranha acendeu dentro de mim e tirei a mão dele. Aquilo não podia estar acontecendo. Não sei explicar por quê. Posso dizer que essa foi uma das experiências mais estranhas da minha vida, não sei por que o rapaz loirinho me assustava e me repudiava, e ao mesmo tempo me fascinava. Por alguma razão só sabia que precisava me afastar dele.
- Por favor, eu preciso ir embora. – eu disse timidamente.
- Você não vai se esquecer de mim? – ele perguntava com um olhar doce. Eu sentia que já conhecia aquele rosto de algum lugar, era familiar. Apenas uma impressão, lógico. Antes de me afastar definitivamente, olhei para trás mais uma vez e, naquele impulso, pela última vez na minha vida, beijei o menino loirinho.
Fui até onde estavam meus amigos, que já falavam em ir embora. Aquilo me aliviou.
Uma voz me chamou. Era ele, estava junto com um amigo pouco mais alto do que nós, de pele morena e cabelos escuros. Pouco me lembro do rosto dele, mas tinha um olhar lascivo, muito sensual, ao contrário do olhar doce e inocente do menino loirinho.
- Esse é meu colega de trabalho... ele queria te conhecer... – ouvi o loirinho dizer algo assim, com uma voz um pouco entristecida.
- Oi, tudo bem? – eu disse, sem muito ânimo, mas educado.
Ele disse o nome (que eu não tenho certeza absoluta de ter entendido, mas acho que era Rodrigo), se aproximou de mim e me deu beijo. Eu não tinha nada a perder naquele momento, beijei de volta e me afastei.
Otávio me chamou quase no mesmo segundo.
- Ei, estamos indo embora, o pessoal pediu para te avisar.
Saímos da boate.
E quando aparecer a próxima...
Alguns dias marcantes acontecem assim, de surpresa. Com certeza, naquele momento, eu não imaginava que seria um dia do qual eu não me esqueceria tão cedo.
Não me lembro exatamente como, comecei a participar de uma comunidade sobre musicais no site de relacionamentos do Orkut, onde já falava com um grupo de jovens, que sempre combinava de ir junto às peças de teatro musicais. Era a primeira vez em que eu convivia com uma turma em que todos os homens eram homossexuais, o que era uma grande novidade para mim. Eu ia com eles às peças, mas de alguma forma, por mais que pensasse já ter superado a fase do menino tímido e magrelo na escola, sempre esquecido no canto, eu ainda me sentia assim. Falava muito pouco, enquanto eles riam e brincavam, fazendo diversas piadas internas. Pensei em esquecer aquele grupo, nenhum deles sentiria diferença entre minha falta e minha presença. Foi quando Pierre, um dos rapazes que parecia ser o líder do grupo, falou rapidamente sobre uma festa de divulgação de uma peça. Aconteceria em uma boate GLS de Ipanema, no Rio.
- Você vai, né? – perguntou Cibela, a menina extrovertida e simpática que vivia andando com Pierre.
A ideia não me veio à cabeça muito agradavelmente, pois sempre procurei evitar festas e tumulto, desde a infância. Pensar em entrar em uma boate me fez tremer por dentro, o que não demonstrei. Devo ter perguntado rapidamente, como quem não quer nada, se havia muito tumulto por lá.
- Ih, relaxa! Que nada! É tranquilo!
- Está bem, então se eu ficar muito tímido, fico conversando com você! Não me largue lá sozinho, heim! – eu disse sorrindo, como quem está brincando, mas na verdade estava apavorado. Eu já era um homem e precisava provar para mim mesmo que poderia vencer meu medo de sair de noite para festas com amigos.
Assim chegou o dia (ou melhor, a noite). Desliguei as luzes do apartamento, coloquei a comida para Lilith (minha gata), coloquei meu chapéu (boina, que seja) predileto, bati a porta e saí. Na rua, caminhando pelo escuro até o ponto de ônibus, vi uma estrela cadente no céu. Enquanto caminhava chutando pedrinhas pela rua, eu já não me lembrava de quando tinha visto uma estrela cadente pela última vez, e pensei, apenas para me distrair, em quando seria a próxima.
Cheguei mais cedo e fiquei esperando em frente à boate. Não havia ninguém além da moça da bilheteria, que conversava animadamente com um rapaz. Algumas pessoas passavam na rua e dois homens brincavam um com o outro: "entra aí, quem sabe você se descobre...". Foi então que lembrei: a boate era GLS. Não saí de perto, continuei esperando por meus amigos ali. Não estava fazendo nada de errado, e não era mais o menino inseguro da escola, era um homem disposto a encarar tudo e assumir meus gostos. De repente me senti seguro de novo.
Como ninguém aparecia, tentei ligar para Pierre ou para a Cibela. (Celular não funcionando, que droga!) Não estava com os números deles ali, havia esquecido que meu celular não armazenava mais (para que eu ainda tinha esse celular? Ah, sim, acho que ainda funcionava como despertador ou coisa que o valha).
Uma fila já começava a se formar ali, quando avistei de longe um rapaz que eu sabia que era do grupo, mas que só conhecia por fotos, fui até ele. Cumprimentei Fernando, que sorriu simpaticamente para mim, mas de uma forma que me lembrou os meninos populares dos tempos de escola. Aqueles que podem até sorrir simpaticamente para você, mas que jamais se permitiriam ser amigos de pessoas “não populares”. Eu lembrava claramente da época no colégio, eu me aproximava e eles continuavam conversando como se eu não estivesse ali. Sim, eu ainda tinha isso mal resolvido dentro de mim, confesso. Bom... seja como for, não era hora para ficar pensando nisso, fui com Fernando até onde estavam Pierre e os outros. Lá estava também Otávio, que era mais velho e tinha uma pose de intelectual. Otávio não era exatamente o rapaz mais bonito de todos, mas tinha uma segurança que o fazia parecer mais forte do que todos e, portanto, muito popular. Ao contrário de Pierre, ele era másculo. Eu, na minha inocência de garoto que nunca saiu para a noite, nunca imaginaria que pessoas como ele e Fernando pudessem ser gays. Tantas coisas se passavam na minha cabeça naquele instante sem que ninguém imaginasse.
- Eu fico na fila se quiserem ir comprar alguma coisa para beber. Lá dentro é tudo caro. – avisou Otávio com sua voz penetrante.
- Vamos! – determinou Pierre.
Pierre tinha talento para liderar e sempre determinava a maioria das coisas.
Andamos até a praia, cada um comprou uma lata de cerveja e eu, uma coca.
- Coca-cola? – Debochou Nando. – Bebe com a gente, rapaz.
Eu ri timidamente.
- Não bebo.
- Não sabe o que está perdendo.
- Não liga para o Nando, ele gosta de levar os outros para o mau caminho. – brincou Cibela.
Eles continuaram conversando enquanto eu continuava participando com os olhos, sem falar muito, como sempre. Nando falava sobre suas tentativas de atuar em peças de teatro, e de como os os diretores só escolhiam os “homens mais lindos” (palavras que ele usou) para participar. Eu nunca imaginaria ver palavras como essas saindo da boca de um rapaz como Nando, e aquilo me deixou animado. Talvez eu não tivesse motivo para ser tão inseguro. Aquilo não era mais a casa da mamãe, ou a escola no Ensino Médio. Era vida real, vida adulta.
Enquanto voltavam da praia à porta da boate, alguém tocou no nome de um garoto, um gay feio e de cujas piadas ninguém ria.
- Ai, detesto gente sem senso de ridículo. – reclamou Pierre.
Cibela e Nando concordaram, debochando do rapaz.
- A gente nunca convida ele, mas ele volta e meia aparece nos nossos encontros. Ele já devia perceber que a gente acha ele um mala.
Eu sabia de quem eles falavam. Pierre já havia me mostrado quem era. Era um garoto afeminado, gordinho, com espinhas no rosto e aparelhos nos dentes, e que, realmente, fazia comentários impertinentes e desligados de toda e qualquer conversa. Tive uma pena do rapaz (talvez tivesse me identificado com a situação, droga de insegurança). Eu não era feio ou afeminado, definitivamente, mas já soube o que é estar fora de um padrão que alguém convencionou como melhor.
- Sinto muito por ele. – eu me arrisquei a dizer – não há nenhuma forma de dizer que ele não é bem vindo sem machucá-lo?
- Ai, mas ele deve se tocar e perceber sozinho. Bom senso, né... – disse Pierre, gesticulando muito.
Aquilo me assustou. E se eu não fosse bem-vindo? Como eu saberia? Será que eu tinha bom senso. Talvez eu nem devesse estar ali, mas já era tarde demais. Voltamos à boate.
- Vocês demoraram, heim. Já está quase na hora de entrar. – comentou Otávio simpaticamente, mas com seu ar suntuoso de sempre. Olhei bem para ele e para a forma como seus lábios se moviam enquanto falavam. Otávio não era lindo (dentro dos padrões da nossa sociedade), mas havia algo nele, em sua masculinidade, que o tornava atraente. Percebi que me sentia atraído por ele.
- Cibela vai sobrar hoje, heim! – riu Pierre.
- Fazer o que se todo mundo aqui gosta da mesma coisa? – Otávio disse, sorrindo, e todos concordaram.
A fila andava, meu coração começou a disparar. Como um instalo, lembrei da minha juventude, do meu pânico ao entrar em festas ou ambientes lotados. O coração acelerava mais e mais. Queria pedir socorro, gritar, mas ao mesmo tempo não podia deixar que sequer percebessem meu nervosismo. Tive receio de que me rejeitassem. Por que o mundo tem que ser tão cruel? Para que tantas regras estúpidas? Sentindo que iria enlouquecer, segurei fortemente no braço de Cibela.
- Por favor, não se afasta de mim. – eu disse baixinho a ela. – Detesto lugares lotados, você sabe...
Sempre tive mais confiança em meninas do que em rapazes, desde pequeno, sempre achei as mulheres mais sensíveis. Era o momento de confiar em Cibela.
- Ih, relaxa, gato, você vai se soltar lá dentro. – ela respondeu se desvencilhando.
Chegou minha vez na fila, entrei na boate por uma porta escura e fui andando. Não enxergava nada. “É por ali”, ouvi alguém dizer de longe. Abri uma outra porta e então... (continua)
Não me lembro exatamente como, comecei a participar de uma comunidade sobre musicais no site de relacionamentos do Orkut, onde já falava com um grupo de jovens, que sempre combinava de ir junto às peças de teatro musicais. Era a primeira vez em que eu convivia com uma turma em que todos os homens eram homossexuais, o que era uma grande novidade para mim. Eu ia com eles às peças, mas de alguma forma, por mais que pensasse já ter superado a fase do menino tímido e magrelo na escola, sempre esquecido no canto, eu ainda me sentia assim. Falava muito pouco, enquanto eles riam e brincavam, fazendo diversas piadas internas. Pensei em esquecer aquele grupo, nenhum deles sentiria diferença entre minha falta e minha presença. Foi quando Pierre, um dos rapazes que parecia ser o líder do grupo, falou rapidamente sobre uma festa de divulgação de uma peça. Aconteceria em uma boate GLS de Ipanema, no Rio.
- Você vai, né? – perguntou Cibela, a menina extrovertida e simpática que vivia andando com Pierre.
A ideia não me veio à cabeça muito agradavelmente, pois sempre procurei evitar festas e tumulto, desde a infância. Pensar em entrar em uma boate me fez tremer por dentro, o que não demonstrei. Devo ter perguntado rapidamente, como quem não quer nada, se havia muito tumulto por lá.
- Ih, relaxa! Que nada! É tranquilo!
- Está bem, então se eu ficar muito tímido, fico conversando com você! Não me largue lá sozinho, heim! – eu disse sorrindo, como quem está brincando, mas na verdade estava apavorado. Eu já era um homem e precisava provar para mim mesmo que poderia vencer meu medo de sair de noite para festas com amigos.
Assim chegou o dia (ou melhor, a noite). Desliguei as luzes do apartamento, coloquei a comida para Lilith (minha gata), coloquei meu chapéu (boina, que seja) predileto, bati a porta e saí. Na rua, caminhando pelo escuro até o ponto de ônibus, vi uma estrela cadente no céu. Enquanto caminhava chutando pedrinhas pela rua, eu já não me lembrava de quando tinha visto uma estrela cadente pela última vez, e pensei, apenas para me distrair, em quando seria a próxima.
Cheguei mais cedo e fiquei esperando em frente à boate. Não havia ninguém além da moça da bilheteria, que conversava animadamente com um rapaz. Algumas pessoas passavam na rua e dois homens brincavam um com o outro: "entra aí, quem sabe você se descobre...". Foi então que lembrei: a boate era GLS. Não saí de perto, continuei esperando por meus amigos ali. Não estava fazendo nada de errado, e não era mais o menino inseguro da escola, era um homem disposto a encarar tudo e assumir meus gostos. De repente me senti seguro de novo.
Como ninguém aparecia, tentei ligar para Pierre ou para a Cibela. (Celular não funcionando, que droga!) Não estava com os números deles ali, havia esquecido que meu celular não armazenava mais (para que eu ainda tinha esse celular? Ah, sim, acho que ainda funcionava como despertador ou coisa que o valha).
Uma fila já começava a se formar ali, quando avistei de longe um rapaz que eu sabia que era do grupo, mas que só conhecia por fotos, fui até ele. Cumprimentei Fernando, que sorriu simpaticamente para mim, mas de uma forma que me lembrou os meninos populares dos tempos de escola. Aqueles que podem até sorrir simpaticamente para você, mas que jamais se permitiriam ser amigos de pessoas “não populares”. Eu lembrava claramente da época no colégio, eu me aproximava e eles continuavam conversando como se eu não estivesse ali. Sim, eu ainda tinha isso mal resolvido dentro de mim, confesso. Bom... seja como for, não era hora para ficar pensando nisso, fui com Fernando até onde estavam Pierre e os outros. Lá estava também Otávio, que era mais velho e tinha uma pose de intelectual. Otávio não era exatamente o rapaz mais bonito de todos, mas tinha uma segurança que o fazia parecer mais forte do que todos e, portanto, muito popular. Ao contrário de Pierre, ele era másculo. Eu, na minha inocência de garoto que nunca saiu para a noite, nunca imaginaria que pessoas como ele e Fernando pudessem ser gays. Tantas coisas se passavam na minha cabeça naquele instante sem que ninguém imaginasse.
- Eu fico na fila se quiserem ir comprar alguma coisa para beber. Lá dentro é tudo caro. – avisou Otávio com sua voz penetrante.
- Vamos! – determinou Pierre.
Pierre tinha talento para liderar e sempre determinava a maioria das coisas.
Andamos até a praia, cada um comprou uma lata de cerveja e eu, uma coca.
- Coca-cola? – Debochou Nando. – Bebe com a gente, rapaz.
Eu ri timidamente.
- Não bebo.
- Não sabe o que está perdendo.
- Não liga para o Nando, ele gosta de levar os outros para o mau caminho. – brincou Cibela.
Eles continuaram conversando enquanto eu continuava participando com os olhos, sem falar muito, como sempre. Nando falava sobre suas tentativas de atuar em peças de teatro, e de como os os diretores só escolhiam os “homens mais lindos” (palavras que ele usou) para participar. Eu nunca imaginaria ver palavras como essas saindo da boca de um rapaz como Nando, e aquilo me deixou animado. Talvez eu não tivesse motivo para ser tão inseguro. Aquilo não era mais a casa da mamãe, ou a escola no Ensino Médio. Era vida real, vida adulta.
Enquanto voltavam da praia à porta da boate, alguém tocou no nome de um garoto, um gay feio e de cujas piadas ninguém ria.
- Ai, detesto gente sem senso de ridículo. – reclamou Pierre.
Cibela e Nando concordaram, debochando do rapaz.
- A gente nunca convida ele, mas ele volta e meia aparece nos nossos encontros. Ele já devia perceber que a gente acha ele um mala.
Eu sabia de quem eles falavam. Pierre já havia me mostrado quem era. Era um garoto afeminado, gordinho, com espinhas no rosto e aparelhos nos dentes, e que, realmente, fazia comentários impertinentes e desligados de toda e qualquer conversa. Tive uma pena do rapaz (talvez tivesse me identificado com a situação, droga de insegurança). Eu não era feio ou afeminado, definitivamente, mas já soube o que é estar fora de um padrão que alguém convencionou como melhor.
- Sinto muito por ele. – eu me arrisquei a dizer – não há nenhuma forma de dizer que ele não é bem vindo sem machucá-lo?
- Ai, mas ele deve se tocar e perceber sozinho. Bom senso, né... – disse Pierre, gesticulando muito.
Aquilo me assustou. E se eu não fosse bem-vindo? Como eu saberia? Será que eu tinha bom senso. Talvez eu nem devesse estar ali, mas já era tarde demais. Voltamos à boate.
- Vocês demoraram, heim. Já está quase na hora de entrar. – comentou Otávio simpaticamente, mas com seu ar suntuoso de sempre. Olhei bem para ele e para a forma como seus lábios se moviam enquanto falavam. Otávio não era lindo (dentro dos padrões da nossa sociedade), mas havia algo nele, em sua masculinidade, que o tornava atraente. Percebi que me sentia atraído por ele.
- Cibela vai sobrar hoje, heim! – riu Pierre.
- Fazer o que se todo mundo aqui gosta da mesma coisa? – Otávio disse, sorrindo, e todos concordaram.
A fila andava, meu coração começou a disparar. Como um instalo, lembrei da minha juventude, do meu pânico ao entrar em festas ou ambientes lotados. O coração acelerava mais e mais. Queria pedir socorro, gritar, mas ao mesmo tempo não podia deixar que sequer percebessem meu nervosismo. Tive receio de que me rejeitassem. Por que o mundo tem que ser tão cruel? Para que tantas regras estúpidas? Sentindo que iria enlouquecer, segurei fortemente no braço de Cibela.
- Por favor, não se afasta de mim. – eu disse baixinho a ela. – Detesto lugares lotados, você sabe...
Sempre tive mais confiança em meninas do que em rapazes, desde pequeno, sempre achei as mulheres mais sensíveis. Era o momento de confiar em Cibela.
- Ih, relaxa, gato, você vai se soltar lá dentro. – ela respondeu se desvencilhando.
Chegou minha vez na fila, entrei na boate por uma porta escura e fui andando. Não enxergava nada. “É por ali”, ouvi alguém dizer de longe. Abri uma outra porta e então... (continua)
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