Você tem estereótipos? Isto é, acredita que alguém seja gay apenas por possuir uma característica como as citadas abaixo. Marque as opções que você acredita que sejam sinais de homossexualidade.

Com que idade você deu seu primeiro beijo gay?

Qual sua orientação sexual?

Você tem uma predileção em relação ao físico da pessoa com quem vai ficar? Qual o biotipo que mais o atrai em um homem?

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

"Beautiful Thing" - Filme


Que atire a primeira pedra quem nunca se apaixonou por um personagem. Seja um filme, livro ou peça de teatro. Eu já me apaixonei por personagens de todos os tipos. Não tenha vergonha, assuma que, em algum momento, de alguma forma, um personagem já fez você suspirar, ainda que rapidamente, mesmo que depois você tenha seguido em frente e não pensado mais nisso, naquele momento um personagem atingiu sua alma. Pois se a resposta é sim, vou lhe contar um segredo: um personagem nunca morre. Sim, ele está sempre vivo, junto de você, desde que você não se esqueça dele.


Hoje vou falar sobre um filme tão romântico que me fez suspirar, torcer junto, me emocionar, e sonhar com alguém tão romântico e cheio de personalidade como aquele protagonista.


"Jamie era só mais um dos caras..." assim começa a sinopse e a locução do trailler.


A história começa com Jamie, um menino aparentemente igual a todos os outros naquela vizinhança em um subúrbio londrino, fugindo da aula de futebol na escola. Sua mãe, a enérgica Sandra, não entende por que Jamie não suporta o esporte, e por que não tem amizades com os rapazes de sua idade, e o repreende.



Na casa ao lado, vive Leah, uma garota louca por música e por uma artista chamada Mama Cass. Leah é cheia de personalidade, e passa o dia ouvindo suas músicas, sonhando em ser como ela, e desobedecendo sua mãe idosa, sendo considerada pela vizinhança (especialmente por Sandra) uma má influência para os outros jovens.


Steven, ou simplesmente Ste, vive com o pai alcoolatra e o irmão mais velho, Trevor. Ste é espancado diariamente por Trevor.

Sandra se compadece de Ste e o convida para dormir em sua casa, no quarto de Jamie. A partir daí, de uma forma delicada e pura, surge o amor entre os dois rapazes, Jamie e Ste, que, com a ajuda da irreverente amiga Leah, precisam lutar para continuarem, juntos e mostrar que: "não importa onde você procura, se quer achar algo bonito".




Vocês podem fazer o dowload do filme, com legendas em português, neste blog:
http://gayload.blogspot.com/2008/12/delicada-atrao-beautiful-thing.html

Ou assista a uma cena no youtube: http://www.youtube.com/watch?v=U3_r4kmj6q0

Coração Vazio

É complicado explicar esta minha fase. Durante toda minha vida, esperei encontrar alguém que fizesse meus olhos brilharem e meu coração disparar, e que me fizesse suspirar, e então todo o resto perderia o sentido. Desejo isso do fundo da minha alma, desde tanto quanto posso me lembrar que existo.

Sempre consegui me apaixonar tão facilmente quanto falar, ou andar, ou respirar.

Aos poucos, a vida foi me mostrando que as coisas não seriam tão fáceis, que o amor correspondido não era para todos, e ainda mais quando essas pessoas amam outras do mesmo sexo. E ainda mais para muitas outras, deficientes, fora dos padrões de beleza ditados pela sociedade, ou com alguma diferença que a torne menos atraente dentro de padrões impostos. Essas pessoas também sonham em encontrar alguém. No fundo, todos procuramos. Como a vida pode ter sentido sem o amor romântico?

Mas agora, por alguma razão, não consigo mais me apaixonar. Sim, não consigo. Não sinto mais o coração bater mais forte por alguém. Quando alguém se aproxima de mim com segundas intenções, eu me sinto estranho, envergonhado, com receio... não sei explicar. Tenho medo de que não seja a pessoa certa, a pessoa ideal para mim, e acabo não sentindo o coração bater mais forte por ninguém em especial. Sem isso, não consigo ver graça na vida.

Até quando essa fase vai durar? Bom, sei que em algum momento aquele sentimento de apaixonado vai voltar, quando eu encontrar o rapaz certo para mim. Sinto que já sou apaixonado por alguém que apenas não encontrei. Onde ele estará? Quando vou encontrar? Só me resta esperar...

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

TODOS CONTRA A HOMOFOBIA!

Muitos ainda nem sequer ouviram a respeito, e outros tantos podem ter ouvido de uma forma equivocada.

Para quem não sabe sobre o PLC 122/2006, projeto de lei que objetiva criminalizar (isto é, tornar crime) a homofobia (ou seja, qualquer forma de discriminação, intolerância ou agressão a homossexuais), tentarei falar um pouco a respeito.

Há algum tempo o site do Senado fez uma enquete com os internautas para saber se eram favoráveis ou não ao projeto, que já existe há alguns anos. Eu votei no SIM, e divulguei para todas as pessoas em quem confio para que votassem também. Mas, honestamente, acho que o simples fato de essa enquete existir já é um absurdo. Mais absurdo ainda é a quantidade de pessoas contrárias ao projeto de lei.

Em primeiro lugar, como alguém pode ser contra a obrigação das pessoas se respeitarem? Como alguém pode defender o "direito" de discriminar alguém?

Vamos aos esclarecimentos mais importantes.

- O que você pode:
Não, a lei jamais impedirá que pessoas tenham suas crenças ou tenham suas opiniões. Liberdade de fé é garantido em nosso Brasil. Há religiões que, infelizmente, ainda consideram a homossexualidade um pecado (tal consideração nós sabemos que se deve a fatores culturais, pela origem da bíblia e do alcorão, da época em que foram escritos, etc...). Mas, ainda assim, quem quiser acreditar nesses absurdos, tem o direito. Você tem o direito de acreditar no que quiser!

- O que você não pode:
Acreditando no que quiser, por motivos religiosos ou culturais, você NÃO tem o direito de privar homossexuais de seus direitos. Isto é, você não pode constranger ou agredir um casal homossexual que saiu de mãos dadas na rua apenas porque VOCÊ, na sua crença, acredita que é errado. Você não pode demitir uma pessoa, expulsá-la de estabelecimentos, ou promover bulyng na vizinhança ou trabalho, pelo fato de ela ser homossexual.


Infelizmente, muitas pessoas, fanáticos religiosos ou simplesmente machistas, têm se unido contra esse projeto de lei, alegando que o mesmo tirará sua liberdade (o que é um equívoco, como já demonstrei). Ou não leram o projeto, ou agem de má fé.
Essas pessoas lutam pelo "direito" de discriminar. O que se pode dizer a respeito disso? A ignorância e a crueldade humana existem, mas não podemos nos intimidar diante disso.

Ha também algumas pessoas que se questionam: por que uma lei para a homofobia? O preconceito de uma forma geral não é crime? Sim, a constituição diz que somos todos iguais. Porém, em muitos locais, homossexuais ainda não perseguidos, ridicularizados, intimidados, muitas vezes tendo que mentir para continuar vivendo em segurança, ou não perder emprego. Muitas vezes essas pessoas não têm a quem recorrer, tudo depende muito do juiz que analisar a questão, etc... com uma lei, a coisa é diferente. É de extrema importância que seja aprovada, mas precisamos entender que direitos não caem do céu, temos que lutar por eles. Divulguem o projeto, falem com seus amigos e conhecidos? Se todos pensarem a respeito, já é um grande começo. O que não podemos é viver de tabus, a vida não é suficiente se for vivida na hipocrisia.

Por fim, houve uma outra pessoa que me disse ser contra o projeto, por não ser a favor da criminalização de nada. Ainda penso em como devo interpretar isso. Será que essa pessoa se opõe à criminalização do racismo, do assassinato, do estupro, do roubo... etc? O que você faria/fará se você fosse/for homossexual e sofresse/sofrer uma injustiça? Vai sentar e ficar quieto por não ter nem sequer uma legislação que o socorra?

Para quem não sabe, a lei da criminalização da homofobia já existe em muitos países (Holanda, Dinamarca, França, Canadá, Alemanha, Bélgica, dentre outros) em que o direito de LIBERDADE dos seres humanos é exercido. Países que prezam o RESPEITO aos seus cidadãos.

Não há motivos ou argumentos para ser contra. Por isso, pense, argumente, converse, conscientize, faça sua parte a cada dia. Eu faço a minha!

Todos juntos pelo fim da homofobia e de qualquer forma de discriminação.

Um beijo grande a todos,

Christian Labure.

sábado, 12 de dezembro de 2009

Esperanças Perigosas (parte final)

- Oi.
- Oi. – respondi.
“Que foi? Vai me convidar para o casamento?”, eu pensei.
- Tudo bem?
- Tudo.
- Sabe, Christian... nunca mais nos falamos depois daquele dia. Pensei sobre as coisas que me falou e...
- E...?
- Eu estive pensando em você, apenas isso.
- Pensando...?
- Nada. Apenas pensamentos. Nem bons nem maus. Pensamentos que gosto de ter.
- Que bom! Fico feliz. Mas agora eu preciso ir, estou atrasado para a aula.
- Você me liga quando voltar?
- Volto tarde.
- Eu te ligo então... não aceito não como resposta.
- Está bem.

Desliguei o MSN e fui para a aula. Quando voltei, ainda não conseguia tirar isso da minha cabeça.

Como prometido, ele me ligou. Ouvi seu “alô, Christian?” tímido do outro lado e senti meu estômago gelar novamente. Conversamos durante horas sobre os mais variados assuntos e quando desliguei, arrisquei dizer:

- Tenho que ir dormir, mas adorei conversar com você. A gente se fala amanhã?
- Com certeza!
Com uma voz de bobo apaixonado eu perguntei:
- Promete?
E com uma voz sussurrante ele respondeu:
- Prometo! Beijos, beijos, beijos.
- Muitos beijos, gatinho.
Desliguei e fui dormir pensando nele.



Foi maravilhoso alimentar aquela esperança, justo naquele momento quando eu achava que jamais a alimentaria de novo. Durante dias, semanas, ele me ligava. Terminávamos falando coisas do tipo e ele prometia marcar um novo encontro, mas nunca marcava. Durante um bom tempo ele me enrolava. Eu perguntava ao telefone quando nos veríamos, e o quanto ele gostava de mim. Ele nunca dizia. Ou sussurrava, em tom de mistério: “você vai ter que descobrir”.
Quando nos encontrávamos (o que raramente acontecia) ele me tratava como amigo e eu nunca sabia se era o momento de “investir” ou não. Conversávamos, ríamos, assistíamos a filmes, e um dia vimos um filme gls romântico juntos. Na cena final, ele disse: “oooh” e acariciou meu rosto e meu cabelo. Pensei em tentar beijá-lo, mas fiquei com receio de perdê-lo.

Ainda lembro bem de um dia daqueles, quando entrei no MSN e ele estava lá.
- Christian. – ele disse.
- Daniel!
- Sabe, Christian... hoje um garoto muito lindo veio pedir para ficar comigo.
- E...?
- E eu disse não. Afinal, já estou ficando com alguém?
- O que quer dizer?
- Você não percebeu? Eu gosto de você.
Senti uma grande felicidade, mas ao mesmo tempo um pressentimento estranho me impedia de ficar totalmente feliz. Mesmo assim, poderia pular de alegria.
- Quando nos veremos então?
- Em breve. De noite eu te ligo.


Nossos telefonemas eram estranhos. Às vezes brigávamos por poucas coisas. Às vezes, parecíamos bem, e de repente, ele fazia comentários estranhos, repentinos. Mas a pior briga foi quando, em algum momento, de alguma forma tocamos no assunto “racismo”, e eu disse que ele era mulato/pardo. Sua voz se alterou:
- Eu??? Pardo? Você está louco? Eu não sou isso!
- Mas... Daniel... qual o problema em ser mulato?
- Eu não sou!
- Mas... então estou cego.
- Eu tenho o cabelo liso! (Ele não tinha o cabelo realmente LISO, ele fazia mil tratamentos para deixá-lo o mais liso possível, e eu já havia percebido, pois já tinha tocado seus cabelos). Você é um racista, Christian! Um hipócrita e um racista!
- Racista? Você está equivocado, Daniel. Se existe uma coisa da qual tenho pavor é preconceito de qualquer tipo. Mas não consigo entender como posso ser considerado racista apenas porque constatei um fato. Se eu disser a uma pessoa de olhos azuis que ela tem os olhos azuis, sou preconceituoso contra pessoas de olhos azuis?
- É diferente. De negro não se pode falar.
- Isso é que eu acho racismo. Para mim, todo mundo é igual.
- Só quero que você me responda uma coisa com toda sinceridade...
- O que é?
- Você... você... você me acha mesmo negro/pardo?
- Sinceramente? Isso não faz a menor diferença.
Ele se acalmou um pouco.
- Sei que você é um bom rapaz, Christian. Sei que gostaria de mim mesmo que eu fosse negro. Mas eu NÃO sou! Eu não sou negro, não tenho nada a ver com negro. Não me identifico com isso.
- Daniel. Eu não gosto de você “mesmo assim”. Eu gosto de você justamente por você ser como você é. Assim mesmo.
Ele ficou abobalhado quando ouviu isso.
- Hum... gostei...
- Você é lindo como é.
- ...
- Vou precisar desligar. Mas lembre-se que você é lindo por ser justamente assim. Desse jeito mesmo. Muitos beijos.
E antes de desligar, bem baixinho, ele sussurrou:
- Te amo!
E desligamos.


Em uma das noites em que o esperei no MSN, ele começou a me enviar textos estranhos (“veja o que escrevi”):

“Ele era forte, musculoso, pele morena, olhos verdes, tenista... ele me agarrou entre as pedras e me possuiu ali...foi difícil resistir... tentei mas acabei me entregando...”

- O que é isso?
- Quero que você leia, Christian. Continue.

“...era quase um deus grego.... seus traços eram perfeitos; seu corpo, escultural... continuamos e depois... e assim ele me pegava...

- Por que escreveu isso? Por que está me mandando isso?
Ele ria.
- Como pode ser tão cruel brincando com algo que lhe contei? – eu perguntava.
Ele continuava mandando os textos.

“...e assim, atingi o orgasmo. Fim”.


- Gostou?
- Tenho um fim melhor. “Peguei um salto alto bem vagabundo e enfiei no rabo desse tenista ridículo e no seu também. Fim” Agora tchau.

Desliguei o MSN. Ele me ligou.
- Ah, Christian. Pára com isso. Eu só queria ver se você ainda sentia alguma coisa por aquele Eduardo de quem você gostava.
- Não. Eu já disse que quero você. Eu, ao contrário de você, sei o que quero.
- Então vamos nos ver?

Assim, ele me chamou para sair, enfim. Fomos almoçar juntos. O dia parecia perfeito. Todos os sinais demonstravam claramente que ele me queria. Mandava indiretas, dizia que estava perto finalmente de quem queria estar, e ao fim do dia, em minha casa, enquanto conversávamos, peguei na mão dele. Ele continuava sorrindo simpaticamente mas percebi que não se sentia à vontade.
- Está tudo bem?
- Está sim. – ele disse e se voltou para o lap top que havia trazido.
- Então... – não resisti – se está tudo bem, então me dê um beijo.
Ele arregalou os olhos, assustado, mas não teve como reagir. Antes que pudesse fugir ou fazer qualquer coisa, fui ágil: segurei suavemente seu rosto e lhe dei um beijo na boca.
Ele recuou, fazendo uma expressão de pavor.
- Você está criando uma situação chata, Christian. – ele disse irritado.
Meu mundo caiu.
- Situação chata?
- É. Eu não gosto de você. Nunca gostei. Não percebeu?
Eu quase não conseguia raciocinar. Tudo parecia um pesadelo terrível.
- Mas... se não gostava de mim... porque quando eu me afastei você veio atrás? Por que me disse tantas coisas românticas e até disse que me amava?
- Ah, sei lá. Eu estava na dúvida. Mas não quero você. Desculpe.
Meu coração se partiu em mil pedaços. Tudo que eu queria era sair correndo, deitar na minha cama e chorar até dormir, sem ter que ver ninguém, amigos ou família, por um bom tempo.
- Eu sou muito feio, Daniel?
Ele não me respondeu e me olhou fazendo olhar de piedade, e dando um sorriso aparentemente amigável.
- Ah, Christian... – e não terminou.
- Você parecia gostar tanto de mim antes de me ver pessoalmente.
- Orkut muda muito as pessoas, né? Não tinha foto de corpo. Mas não fica assim não, eu arrumo outro para você. Você gosta de neguinho, né? Um dia eu arrumo um para você.
Aquilo doeu ainda mais.
- Você quer que eu vá embora? – ele disse, sorrindo.
- Sim. É, eu quero sim.
Fui dormir e acordei no meio da noite. Quando temos sonhos ruins, durante algum tempo, ao acordar, pensamos que ainda é verdadeiro. Por alguns instantes, pensei que fosse o caso. Mas não, era real. Ele não gostava de mim. Nunca havia gostado. Só havia me dado esperanças falsas.

Várias semanas se passaram. Eu ainda estava triste, mas achei que não era certo da minha parte culpá-lo. Talvez ele não tivesse culpa, tenha ficado indeciso, só isso.

Liguei para ele e resolvi aceitar a ajuda para arrumar alguém. Se ele era meu amigo, como dizia ser, me ajudaria.


Impaciente e indiferente, ele entrou no MSN e me mandou algumas fotos de gays que conheciam.
- Esse aí... bom, como você pode ver, ele tem músculos... ele é popular... ele jamais olharia para uma pessoa como você. Já este aqui, bom... ele é muuuuuuito popular. É, bom...
- Você não tem nenhum amigo que goste de garotos que não sejam musculosos?
- Bom, Christian... vamos ser sinceros? Existe um padrão na nossa sociedade. Garotos magrelos não estão nesse padrão. Homem tem que ter MÚSCULOS! Por isso freqüento uma academia. Por isso ando com garotos que têm essas características... Você acha que quero ficar fora do padrão? Deus me livre! Christian, você é magricelo. É como um cabelo na sopa: não dá vontade de comer. Você não atrai ninguém. Olhe, aprenda uma coisa: TUDO é STATUS nessa vida. Você acha que eu digo que sou gay para meus amigos héteros populares? Claro que não, não dá status sair dizendo isso, eu perderia toda a popularidade que conquistei! Eu minto mesmo. Outro dia, na entrevista de emprego, eu menti, sem ninguém perguntar, que ali perto morava minha noiva. Outro dia, com meus amigos héteros, eu fiquei com uma garota. Você acha que eu ia deixar que percebessem que eu era gay? Mas NUNCA! Morro negando, meu bem!
- Isso é se prostituir, de certa forma.
- Deixe de ser dramático, Chistian. Todo mundo é assim. Você acha que alguém gosta de ser magrelo? Negro? Gordo? Deus me livre!
- O que você está me dizendo é horrível! Não vejo nada de errado em ser negro, gordo...
- Ah, faça-me o favor, Christian. Eu vou lhe contar agora uma historinha real. Vem cá, ouve só: eu conheci, há algum tempo atrás, um garoto na minha galera gay. Ele era gordo, muito gordo, obeso. E olha que era loiro de olhos claros. Todo mundo falava com ele, era educado, lógico. Mas você acha que se aproximavam de fato? CLARO que não! Não dá status andar com ele. Era “oi, e aí? Tudo bom? Quanto tempo, querido! Deixa eu ir lá que estão me esperando. A gente se fala”. E sumiam de perto dele. Ele sempre ia às baladas com a gente. Você acha que ele pegava alguém. Claro que não, ele se colocava no lugar dele. É assim. E eu jamais ficaria com ele. Eu quero é subir, meu querido. Todo mundo quer. E eu estou saindo, se quer saber, com um garoto forte, rico e loiro.
- Pois bem, Daniel. O fato de ele ser rico e loiro muda alguma coisa? Nem pergunto sobre o “forte” porque para isso já sei a resposta.
- Olha, Christian... não vou lhe dizer que é SÓ isso. Mas que dá um empurrãozinho, dá sim. Claro que dá. Todo mundo é assim. Eu pelo menos admito. Quem é que não gosta de um namorado rico para pagar restaurantes caros e te levar de carro para casa. É um empurrãozinho, sejamos realistas.
Um nojo tão grande começou a tomar conta de mim, que já não entendia como havia algum dia me interessado por ele.
- Daniel, obrigado pela ajuda, mas preciso ir.

Resolvi tirar aquilo da cabeça, me ocupar com outras coisas. Naquela tarde, acabei gravando, em minha aula de canto, uma música que me emocionava. Fui extremamente aplaudido por todos ao meu redor. E minha professora, emocionada, disse que “aluno que já sabia cantar era uma maravilha”. Eu não esperava por tanto e fiquei feliz. Guardei a gravação e repassei a alguns amigos, todos elogiaram. Repassei a gravação para Daniel. Esqueci que ele era a única pessoa que não gostava de me ouvir cantar, e sempre havia dito que não gostava da minha voz. Depois de um tempo ele me respondeu:
- Por que me mandou isso? Já lhe falei que você não canta bem.
(Ele me disse isso, sem saber que naquele mesmo dia, com aquela mesma gravação, eu havia sido aplaudido).

- Você acha realmente, Daniel?

- É... você é magricelo, franzinho, feio e não canta bem.




PARE TUDO!

...parou?

Agora, preste atenção. Porque há momentos em que nós cansamos, nós não podemos mais ser bonzinhos, e você vai ver um dos únicos momentos da minha vida em que fui realmente CRUEL. Até mesmo a doçura e a gentileza de Christian Labure têm seus limites.

- Sou magricelo, não sou?
- Já não falei que sim?
- É... e você é gordo.
- Heim? (ele não acreditou no que falei)
- Sim, você é. E isso não o torna pior nem melhor do que ninguém. O que o torna uma pessoa feia é que você tem raiva das pessoas gordas, fala mal do garoto gordinho que não arrumava ninguém. Você o critica e tenta diminuí-lo porque VOCÊ vê nele algo seu do qual não gosta em você próprio. Algo que não admite nem para si mesmo.
- Do que está falando? Eu já emagreci muito.
- Mas outro dia mesmo você estava reclamando de ter engordado.
- Ah... isso não é da sua conta...
- É, não é mesmo. Daniel, entenda uma coisa: não há NADA de errado em ser gordinho, nem em ser magricelo. Mas se você acha que tem, e pensa em falar mal e ridicularizar pessoas que possuem essas características, certifique-se antes de que VOCÊ não é o primeiro a possuí-las. Não adianta usar roupas estrategicamente e se matar na academia achando que vai mudar seu biótipo. Você se odeia por ser mulato, gay e gordinho. O que há de errado em ter essas características?
- Pára com isso, eu não sou...
- Claro que é.
- Eu não sou gordo. Eu tenho nojo de gente gorda.
- Então você tem nojo de você mesmo.
Ele emudeceu, e em seguida explodiu, quase chorando:
- Você é um magricelo, feio... e ainda por cima com uma cicatriz nojenta tenho pena de você.
- Quer saber de uma coisa, Daniel? Eu AMO o meu corpo, do jeito que ele é. Amo meu corpo magrelo, meu nariz grande, meus cabelos negros desgrenhados. AMO tudo em mim. E só lamento não ter percebido isso antes. Ah, sim, e eu AMO minha cicatriz.
Rapaz, aprenda a se amar também, e quem sabe um dia poderá ser feliz... sendo você mesmo, e não uma mentira. Boa sorte, e até NUNCA MAIS... seu merda!
Desliguei, risquei o número da agenda, deletei do MSN e bloqueei.
Algum tempo depois ele foi ao meu Orkut e escreveu, via depoimento, (isto é, de uma forma que ninguém pudesse ler) um texto enorme, cheio de xingamentos, tentando me convencer de que eu era magrelo e nunca seria feliz. Uns três depoimentos de milhares de linhas, cada um. Li a primeira linha e deletei todos.

Escrevi para ele: “Oi, Daniel. Sabe o depoimento enorme que me mandou? Pois é, não li (sim, você perdeu seu tempo). Desista de me escrever. E espero que algum dia você seja muito feliz... seu merda (só para não perder o costume).”



Terminado isso, eu o bloqueei também no Orkut para que não pudesse me responder, e deletei seu contato por ali. Saí de perto do computador, suspirei aliviado e apenas pensei:

- Ah, eu me sinto TÃO bem agora!!!!...


ATENÇÃO, um recado para os que leram esta história (se é que alguma boa alma a leu até o final):

Ninguém é melhor/pior do que ninguém por ser gordinho, magricelo ou forte. Esse padrão que coloca os homens fortes como superiores, em detrimento dos mais gordinhos, ou dos mais magros, é uma CONVENÇÃO humana. É cultural, espalhada tacitamente pelos meios de comunicação. Padrão cruel, porque faz com que pessoas saudáveis passem a se sentir mal com seus biótipos e convençam pessoas de que são inferiores com base em algo que não podem mudar.

É claro que sentir um pouco mais de atração por um ou outro tipo é normal e saudável, é gosto. Se quer um conselho, jamais dê crédito a alguém que tenta inferiorizar seu tipo. Procure amar alguém que o/a ame exatamente do jeito como você é. Acho que só assim uma relação pode durar e crescer saudavelmente e de uma forma realmente feliz.

Pode ser clichê, mas é de verdade: de alguma forma, você é LINDO/LINDA como é. Basta que você descubra a beleza que existe em você.

Um beijo grande a todos,
Christian Labure

Esperanças Perigosas (parte 2)

Era a padaria, que minha irmã havia pedido. Que droga! O nervosismo começa a tomar conta de mim conforme as horas vão passando.

Olho para meu orkut, a foto que o fez me achar bonito era uma foto de rosto. Eu me olho no espelho... e se ele me achar magrelo demais? Lembrei das palavras de Nina dizendo que Daniel só gostava de meninos fortões "sem pescoço". Mas resolvi tirar isso da minha cabeça e dizer a mim mesmo: "você é bonito do jeito que você é". Fui à sala mais tranquilo e, quando o interfone tocou novamente, fui atender...

E mal pude acreditar quando o vi ali, na minha frente. Daniel, o mesmo garoto fofo que eu vinha acompanhando há tanto tempo pelo orkut. Eu o cumprimentei timidamente e o convidei para entrar. Ele me olhou com um olhar assustado que durou uma fração de segundos e, quando deu conta disso, abriu um grande sorriso e me cumprimentou. Ficamos conversando e ele me contou que estudava com Nina e que, no passado, havia estudado com mais da metade das pessoas da minha turma de terceiro ano. Ele só não conhecia Eduardo, mas conhecia a maior parte de seus amigos, e já tinha escutado muito falar dele.

O papo fluiu muito bem, Daniel era simpático (embora algo em seus olhos parecessem não verdadeiros, mas pouco eu me importava para isso, e pouco eu me permitia notar naquele momento), e era relativamente culto, podíamos conversar sobre muitas coisas.
Passamos pelo meu quarto, onde ele viu alguns dos meus bichinhos de pelúcia e filmes de desenhos da Disney, coisas que eu amo e que conservo guardados como um pequeno tesouro. Percebi que ele os olhou fixamente e depois sorriu para mim com aquele mesmo sorriso de político querendo voto.
Na saída, me lembrei de uma coisa: em um dos nossos assuntos pelo orkut, antes de vir me ver pessoalmente, ele me disse que havia um segredo para me contar.
- Bom... – ele começou – é uma besteira.
- Agora que prometeu, diga.
- Bom, é que eu nunca...
- Nunca...
- Nunca fiz nada mais sério com ninguém.
Achei tão fofo da parte dele ter me dito aquilo naquele momento que não pensei duas vezes em dizer o que eu achei que ele jamais deixaria de compreender. Com um sorriso ingênuo, eu entreguei:
- Eu também não! E, eu nunca beijei alguém.
Ele arregalou os olhos.
- Ninguém? Mas por quê?
- Oras, porque nunca conheci ninguém que me fizesse ter vontade.
- Mas é errado um cara chegar à sua idade sem beijar.
- Errado eu fazer o que quero com meu próprio corpo?
Ele sorriu simpaticamente e disse que precisava ir embora porque tinha compromissos (sendo que, antes de chegar, ele havia dito que ficaríamos juntos durante horas).
Uma onda de desespero começou a chegar e se espalhar.
- Espera... eu nunca beijei ninguém, porque queria que fosse com alguém especial, não era o momento, era um direito meu. Será que é tão errado assim? E agora, eu acho que sei por quê. Eu queria que fosse você.
Por uma fração de segundo ele fez uma expressão de pavor, e depois voltou ao sorriso simpaticamente forjado e disse que precisava ir.


- Antes de ir, me dá um beijo? – eu pedi. De alguma forma, meu jeito de garotão apaixonado bobão e desajeitado, deve ter mexido com ele de alguma forma.
- Feche os olhos. – ele me disse.
- Feche-os você.
Ele então cobriu meus olhos e, quando eu menos esperei...

tocou meus lábios bem devagar, com os dele!

Achei que meu coração ia explodir! Finalmente, havia beijado alguém, e alguém por quem eu já estava apaixonado!

- Quero um beijo de verdade! – eu disse.
Ele fechou meus olhos de novo e me beijou. A sensação de beijar alguém na boca, sentir os lábios dele nos meus, a língua dele na minha, era tão diferente do que eu imaginava... ele terminou o beijo, me deu mais um selinho e disse que precisava ir.
Não sei o que deu em mim neste momento, um conjunto de vontades que estavam lá dentro escondidas, enfim... tomaram conta de mim, e o abracei bem forte, colei meus lábios nos dele e comecei a beijá-lo ainda mais. Não conseguia ouvir nada, ver nada, só queria tocá-lo de alguma forma. Só queria tocar alguém, beijar e me aproximar cada vez mais.
O celular dele tocou. A voz dele tremia e as pernas dele pareciam que não iriam mais sustentá-lo. Ele estava muito nervoso.
- Meus amigos estão aí embaixo de carro. Eu preciso ir. – disse e saiu correndo (quase literalmente).

Fui dormir achando que não deveria mais pensar naquilo. Mas ao me deitar na cama, percebo uma forte dor nos meus testículos. Quase insuportável!

Abro o MSN e vejo milhares de mensagens de Janjão.

- Aiiiiiii, me conta tudoooooooo! Pegou ou não pegou o bofe?
- Ah, conversamos um pouco, e então ele foi embora. Gente boa ele...
- Ah....
-...
- É sério?
- MENTIRA, seu bobo!!!!!!!!!! Peguei!!!
- Uhuuuuuuul!
- Janjão, eu nem posso acreditar!
- Ai, isso me lembra tanto quando eu peguei o meu Daniel, há alguns meses atrás. Mesmo nome que o do seu bofe. Meu primeiro e único beijo...
- Que legal!
- ...aí ele me largou para ficar com outro... mas isso não importa. E então, conta TU-DO!
- Nem sei o que dizer! Foi maravilhoso! Acho que o assustei também, mas tudo bem. Agora eu estou preocupado porque estou sentindo umas dores estranhas e não sei o porquê.
- Ih, vai ao médico...
- Isso deve ter alguma coisa a ver com o que aconteceu?
- Será?

Janjão era tão inexperiente quanto eu. Conforme a dor foi aumentando, na outra janela acabei tendo que comentar com um ex-colega de turma, chamado Guilhermino, que me explicou tranquilamente:

- Pô, cara, isso acontece porque você ficou excitado demais e não fez... bom, você sabe. Enfim, não sabia?

“TÔIM-ÔIN-ÔIN”. Fiquei me sentindo o idiota naquele momento! Como eu era ingênuo e inocente.

Naquela noite, dormi pensando que havia conseguido tudo que queria de Daniel. Mas acordei durante a noite suando frio, com lágrimas nos olhos, e com um pressentimento estranho. E se ele fosse aquela pessoa que eu tanto procurei? E se fosse uma forma de Deus me recompensar por toda a mágoa que passei com Eduardo? E se Daniel fosse o amor da minha vida, quem sabe...?

No dia seguinte, ele estava no MSN. Dei um tempo para ver se ele viria falar comigo. Ok, não veio. Eu fui falar com ele.

- Oi, tudo bem?
- Oi. (Frieza)
- Bom, só queria saber se está tudo bem, se gostou de ter me conhecido. Quero dizer, espero que esteja tudo bem e que eu não tenha assustado você.
- Olha, vou ser sincero. Algumas coisas me assustaram sim. Você tem bichinhos de pelúcia no quarto. A sua cortina é rosa. Isso não é normal para um cara de 18 anos de idade. São sintomas de regressão.
- Você está equivocado, Daniel. Está sob a influência de uma sociedade preconceituosa. A sociedade determina padrões, até gostos, e nós ficamos submissos a ela. Cria regras e as naturaliza como verdades absolutas, como se fossem parte da natureza. Será que ninguém percebe isso? E se um dia as regras mudassem e fosse convencionado que homens de olhos escuros não podem assistir a filmes de comédia, por exemplo? Você deixaria de assistir a eles?
(Depois de uma demora, ele respondeu...)
- Lógico! Deixaria sim! Você está dentro dessa sociedade. Tem que viver de acordo com ela e se submeter a tudo. Entenda uma coisa que eu vou lhe dizer, Christian, guarde bem essa frase que é cruel, mas verdadeira: TUDO NA VIDA É STATUS!
- Isso é injusto. E a sua personalidade? E as coisas que ama? E a sua LIBERDADE? Tudo isso muda de acordo com o interesse?
- Ai, você faz um drama. E outra: alguém que nunca beijou ninguém aos 18 anos... isso é esquisito.
- Esquisito é eu fazer com meu corpo algo que não tenho vontade só para ficar dentro de um padrão imposto. E se quer saber, cansei dessa conversa. Até mais, au revoir.

Desliguei o MSN jurando que não falaria mais com ele. E consegui resistir. Naqueles dias, passei por momentos tristes quando pensava nele, e no fato de eu ainda não ter alguém especial ao meu lado. E durante um bom tempo pensei, até que comecei a esquecer. É lógico que ainda lamentava a falta de um namorado a quem chamar por nomes carinhosos, cantar, segurar mãos, suspirar, ver o sol nascendo juntos, essas coisas... mas consegui “anestesiar” e não pensar.

Até que um dia entrei no MSN para falar com algum colega de faculdade, e lá estava ele com o seguinte “Nick” (uma mensagem que os usuários deixam visível):

“Sempre procurei você em outros rostos, mas descobri que quem sempre quis era você...”

- Ah, que ótimo! – eu pensei, ironicamente – bom... espero que ao menos estejam felizes. Longe de mim, de preferência. Agora posso esquecer de vez tudo isso.

Mas, para minha surpresa, alguém veio falar comigo... era ele!

sábado, 5 de dezembro de 2009

Esperanças Perigosas (como o padrão de beleza fere...)






Já havia se passado algum depois daquela grande confusão e eu achava que já estava tudo bem. Faculdade, vida normal, bem resolvido comigo mesmo... Mas por alguma razão a dor da rejeição e da incompreensão ainda doíam e as palavras de Eduardo ainda não me saíam da cabeça.

Eu fui me deixando levar pelo tempo e aparentemente era a mesma pessoa doce e silenciosa de sempre. Ninguém sabia que dentro de mim fervilhavam sentimentos e desejos que eu precisava extravazar.

Foi quando, um dia, utilizando o site do orkut, encontrei um recado de uma menina que havia estudado no mesmo colégio que eu, mas em outra turma.

- Oi, você é o Christian do Educandário? Beijos, Nina.

Eu não me lembrava dela, mas respondi dizendo que sim, quase imediatamente respondi outro recado, dizendo:

- Você parecia ser tão legal, apesar de tímido! Eu queria falar com você, mas ficava sem graça, pois sempre via você andando com a Túti e as outras meninas.

Gostei do jeito descontraído e engraçado da garota e respondi mais uma vez, dizendo que se ela tivesse falado comigo há mais tempo, teria sido um prazer.
A partir daí, durante todos os dias, começamos a nos corresponder. Eu respondia, ela respondia... em uma noite de tédio, através do programa do MSN no computador, ela me escreveu:

NINA diz:
Ai, Christian, estou entediada, jogando joguinho aqui... Fala alguma coisa.
CHRISTIAN diz:
Bom... eu estava vendo o orkut do pessoal do Educandário, e caí no orkut do Miguel, seu amigo, que era da minha sala.

NINA diz: Sei.
CHRISTIAN diz:
E ele tem um amigo, um tal de Leandro, que é tão bonito!

NINA diz:
Heim?
CHRISTIAN diz:
O que foi?

NINA diz:
você gosta de meninos, Christian?

Sem perceber, acabei desejando em cima dela toda a história da minha trajetória, da descoberta à carta para Eduardo.

NINA diz:
Nossa, que garoto babaca esse Eduardo! Mas olha, ele era muito puxa saco dos garotos populares e babacas da sala. Ele NUNCA vai se assumir, nem para si mesmo.

Aquilo ainda me doía naquele momento, embora eu já soubesse que Nina tinha razão.

NINA diz:
Eu tenho um amigo gay. Na verdade, colega de faculdade. Mas ele é fanático por beleza, vive em academia porque quer ser saradão... quer que eu passe o orkut dele?
CHRISTIAN diz:
Sim, por favor.

Quando abri aquela página e vi a foto do tal garoto, quase caí para trás. Era tudo de que precisava, uma nova paixão, alguém para quem dar todo o amor que eu tinha guardado. E não foi muito difícil transformar aquilo em uma obsessão. Nem respondi mais aos recados de Nina. Ficava apenas olhando para as fotos do tal rapaz. Daniel era seu nome. De pele morena, cabelos e olhos negros, parecia ser fortinho, mais ou menos do tipo do Eduardo. Durante algum tempo, pelo menos três minutos do meu dia eu passava olhando as fotos de Daniel no orkut, e admirando. Um dia, comentei isso com Nina, que me disse:

NINA diz:
- Chris, tome cuidado. Daniel é simpático e divertido, mas é uma pessoa superficial, e ele só gosta de caras exageradamente musculosos, aqueles sem pescoço, sabe?

A ficha caiu para mim. Eu ainda era um garoto magrelo... isso nunca me incomodou tanto quanto nesse momento. A sociedade em que vivemos convencionou que homens bonitos são aqueles que têm músculos, isso é passado tacitamente pela televisão, revistas, manequins, e tudo mais... Daniel, como a maioria dos garotos, aprendeu dessa forma. Achei melhor esquecê-lo, ele não iria olhar para mim, até que, naquela noite, tive um sonho...

Passava por um lugar, parecia um colégio ou uma faculdade... muitas pessoas passando, gritos... sons de vozes distantes, parecia caminhar sobre nuvens, tudo parecia uma grande vertigem. Ele, Daniel, aproximava... me abraçava... e me dava um beijo na boca. Nunca, em toda minha vida, havia tido um sonho tão real, era como se ele tivesse realmente me beijado.

Acordo com a cueca melecada. Liguei o computador e resolvi: não tenho nada a perder, vou escrever para ele.

"Oi, Daniel. Tudo bem?

Sou amigo da Nina. Achei por acaso seu perfil e vi que temos gostos muito parecidos para filmes, e que temos muitos amigos em comum. Você também se interessa pela vida da rainha Ana Bolena? Que legal! Se puder, me adicione, é sempre bom fazer novas amizades. Abraços."


Terminei de ler aquilo, achei ridículo e resolvi não mandar. Criei então um "fake" no orkut. Coloquei nele o nome "Ana Bolena" e uma foto da antiga rainha. Assim poderia escrever para ele sem que ele soubesse que era eu. Nunca fiz algo tão infantil na minha vida, mas não pretendia mais ser amigo dele, apenas queria chamar sua atenção de alguma forma.

"Ei, rapaz, tome cuidado, você não sabe nada sobre mim, posso estar vigiando você, muahahá". Às gargalhadas, mandei esse e outros recados. No dia seguinte, ao entrar no orkut, me deparo uma resposta dele:


"Sua bruxa! witch! witch! witch! "

Respondi: "sou bruxa, mas sou rainha, você não passa de um reles plebeu. Beijos".

Será que ele responderia no dia seguinte? Adivinhe... abro o computador e lá está:

"Posso não ser nobre mas sou rico, sorry,mas nao estamos mais no séc XVI, agora titulo de nobreza nao serve nempara limpar a bunda, o que manda nesse mundo captalista é o dinheiro. e isso vc não tem, falida!!!!!!!!

cale a boca antes que eu te esmague com o peso da minha carteira. Bruxa pagã! "

Respondi: "Shut up, menino fútil. Honey, você jamais chegará aos pés da grande rainha Bolena. Beijos, não me liga"


Durante vários dias, a minha nova Diva, Ana Bolena, ressuscitada e vindo diretamente da Inglaterra, me ajudava a puxar papo com Daniel. Com o tempo, fui usando outros personagens, reis e rainhas, nobres, pintores, músicos e escritores dos séculos passados, cada um com uma personalidade diferente. Criava perfis com os nomes das personalidades históricas e escrevia para ele, que sempre respondia rindo.

Aquele fim de ano parecia igual a todos os outros. A família continuava mergulhada em seu próprio mundo. Falar sobre cada um deles é complicado, personagens tão profundas que seria necessário um capítulo de um livro para cada um deles. Minha irmã havia sido uma das garotas mais bonitas de sua época, feliz e popular, mimada e cheia de vontades. O tempo foi passando, ela não quis estudar ou trabalhar e continuou vivendo às custas de nossa mãe, e sempre reclamando de tudo.

Até que chegou a festa de fim de ano, na casa de uma tia com jeito de madame blazé. Minha família, como sempre, mergulhada em seus interesses, problemas e frustações próprios, eu estava sempre sobrando nas conversas. No canto da sala, ouvia de longe todos conversando e quando começaram a brigar, acabando com a festa, por algum motivo de pouca importância.

Cheguei em casa cansado e desanimado já esperando por um ano novo igual a todos os outros quando resolvo escrever para ele por uma última vez.

"Rapaz, espero que tenha gostado da brincadeira. Você me ajudou a exercitar meu talento para ser escritor. A rainha Ana Bolena e os outros já voltaram para o mundo dos sonhos e dos tempos passados. Se você quiser me adicionar no meu orkut verdadeiro, aqui está o link. Abraços".

Antes que eu desligasse o computador, ele já havia respondido e me adicionado no msn.

DANIEL diz:
Você é lindo!
CHRISTIAN diz:
Espero que não teha levado a mal a brincadeira com os fakes.
- Ah, não se preocupe. É que eu não imaginava encontrar um príncipe encantado por trás de tantos disfarces.

Fiquei sem graça, por sorte não estávamos ao vivo e ele não tinha como perceber.

- Obrigado.
- Mas mesmo que você fosse feio, seria legal com você, pois gosto de ser legal com pessoas feias e carentes de vez em quando, por pena.
- Feias e carentes...? bom, Daniel, deixe-me pedir uma coisa: nunca fale comigo sem vontade, para ser legal.

A forma como ele se colocava como superior às pessoas fora dos padrões de beleza, me preocupou. A insegurança voltou.

- Não se preocupe, agora tudo vai ficar mais às claras. Estava vendo no orkut que temos muitos amigos em comum, e moramos perto. Quando vamos nos encontrar?
- Mas... já?
- Preciso ver você para saber se gosto de você.
- Pensei que já gostasse de mim.
- Já gosto de você. Mas quero saber se tem chance de a gente beijar, ficar, namorar, morrer junto, essas coisas. E então... amanhã, o que me diz?


Aquela rapidez dele me deixou assustado. Várias coisas me passaram pela cabeça: ele só tinha visto fotos minhas de rosto... e se ele me achasse magricelo? E se ele não gostasse de mim? E me encontrar com ele assim... será que era certo? Escrevi para Janjão, um garoto do nordeste com quem falava pelo msn desde que descobri que era gay, e que havia se tornado meu confidente secreto (já que nada do que eu dissesse a ele me comprometeria, e vice-versa, pois não tínhamos conhecidos em comum e estávamos muito distantes).

- CHRISTIAN diz: Janjão, estou falando com o Daniel na outra janela...
- JANJÃO diz: Que Daniel?



- O garoto em quem estou interessado.
- Ah...
- Ele quer que eu me encontre com ele...
- Mas já?
- O que eu faço, Janjão?
- Cara, eu já contei que me masturbei hoje usando um boneco?...
- Janjão, depois você me conta... eu estou nervoso, tenho medo de que ele me ache feio.
- Aiii, eu quero o Adam Pascal para mim, eu estava vendo os vídeos dele na Broadway! Ele é tão hot!
- Janjão! E o Daniel?
- Que Daniel?
- ...??? Você está de brincadeira, né?
- "Kkkkkkk".



(Janjão sempre ria no MSN escrevendo "kkkkk". E, apesar do jeito meio doidinho, juro que seus conselhor costumavam me ajudar... ok, eu sei que está difícil de vocês acreditarem, mas Janjão me deixa mais tranquilo... eu acho).



- Eu estou nervoso, Janjão! O que eu faço?



- Ah, vai lá, ué. É claro que ele vai gostar de você.
- Você acha mesmo...?
- YES! Você é hot, Christianzinho! Vai lá, garoto, e mostra para ele quem é que está no poder!



- Obrigado, amigo. I love you! Deseje-me boa sorte!



- KKKKK... Vai lá e pega o bofe!




O dia seguinte chegou, resolvi seguir o conselho do meu amigo-gay-virtual-secreto, e ir ao encontro com Daniel. Comprei roupas novas (nunca liguei para roupas, para mim o mais importante era estar limpo e arrumado, mas sabia que Daniel era do tipo que ligava, e não custava nada causar boa impressão, ou pelo menos era o que eu achava). Coloquei perfume, tênis novo, estava tão bonito quanto podia. Então... o interfone tocou! Fui abrir a porta...


(Continua...)

sábado, 21 de novembro de 2009

A carta de amor proibida (parte final)

"Meu grande amigo Eduardo,

Estou escrevendo esta carta para lhe dizer muitas coisas, mas especialmente para dizer uma muito importante. Peço que leia tudo atentamente.

Como já conversamos algumas vezes, nós vivemos em uma sociedade feita, obviamente, por seres humanos, sendo eles cheios de defeitos e imperfeições, o que faz com que essa sociedade seja cheia de injustiças e imperfeições. Infelizmente, a maior parte dos humanos é fraca e submissa à sociedade.

Você se lembra a respeito da nossa conversa sobre a madeira e o ferro? Se aprendemos desde pequenos que o ferro é madeira, vamos querer defender isso como verdade, mesmo que futuramente alguém nos mostre que não é! E este é, na minha opinião, um dos maiores problemas do ser humano. Nós nos recusamos a pensar e raciocinar sobre as coisas. Por que estamos aqui? Por que aprendemos as coisas desse modo? Será que isso é certo? Não, nós simplesmente aceitamos o que nos passam, sem nos questionarmos. Acontece que não evoluímos sem luta e sem questionamentos a respeito das coisas injustas.

Em minha opinião, não há nada mais importante na vida do que o amor, e é essa a minha maior indignação com nosso sistema. Somos impedidos de reconhecer nossas maiores demonstrações de amor verdadeiras porque fomos "bitolados" a apenas buscar padrões pré-estabelecidos. Por exemplo, sejamos realistas: dificilmente algum dos meninos de boa família que você conhece vai se casar com uma mendiga de rua, certo? Ou, pelo menos, seria algo difícil de acontecer. Mas você já parou para pensar que o amor da vida de um deles pode estar lá, e que quando eles a encontrarem podem não reconhecer, por conta dos padrões que eles sempre foram influenciados a buscar? Isso não vale só para classes sociais... vale para tudo!


É capaz de imaginar por que estou levando essa conversa adiante com você? Percebeu aonde quero chegar? Talvez você ainda não saiba, Eduardo, mas eu amo você! Eu não peço (nem poderia, jamais) que você me corresponda, nem mesmo que me compreenda... a única coisa que peço é que você respeite, como eu jamais o desrespeitaria. No entanto, independente de qual for sua reação, quero que saiba que nunca deixarei de gostar da sua pessoa, nem poderia, mesmo que quisesse.

Tudo isso talvez seja muito estranho para você... mas permita-se refletir a respeito: não há nada de errado nisso! Absolutamente NADA! Não sei se você sabe, mas antes da invasão da cultura cristã-judaico-muçulmana, o amor entre dois rapazes era considerado a coisa mais normal do mundo. Só que, como não podiam gerar filhos juntos, a igreja resolveu considerar esses tipos de relacionamentos como "pecaminosos", para evitar que nascessem poucas crianças, fazendo a cabeça de todos para que pensassem assim, sem ao menos se perguntarem o porquê. Hoje, nós descobrimos que, ao contrário do que se pensava, há crianças nascendo até demais... como prova do quão absurda foi essa proibição.

Até hoje nos forçamos a procurar pessoas do sexo oposto, sem parar para pensar que o amor não é assim, é muito maior que isso. Nós nunca sabemos como ele virá, que idade, cor, classe social terá... O amor é muito maior que um padrão.

Sei que você talvez se afaste de mim, tenha medo, tenha nojo, tenha raiva, não sei... muitas coisas podem se passar pela sua cabeça... mas apenas pare um pouco para pensar... será que não tenho razão sobre tudo que estou dizendo?

Você não sabe, Eduardo, mas quando vi você pela primeira vez, sentado naquela cadeira e conversando com seus amigos ao longe, percebi que amava você mais do que tudo, e me odiei por isso. Evitei chegar perto de você por um bom tempo e até fui grosseiro com você. Mas depois vi que não adiantava fugir, porque afinal... a vida é feita de problemas e eu nunca fui do tipo que fugia deles, sou uma pessoa muito forte por dentro, graças a Deus. É preciso ser muito homem para lhe dizer todas essas coisas.

Provavelmente você jamais entenderá... mas cada momento em que você passou ao meu lado fez com que eu me sentisse a pessoa mais feliz do universo. Quando você almoçou comigo pela primeira vez, quando lanchamos juntos na padaria, quando descobri que você morava no lugar onde passei minha infância, quando o abracei no dia da formatura, o jantar em que conversamos sem parar, meu aniversário... cada um desses momentos que me fizeram ver que valeu a pena ter nascido, que a vida realmente tem algum sentido. E, não importa o que aconteça, não importa MESMO, seja qual for o rumo que nossas vidas tomem, mesmo que eu nunca mais veja você outra vez... eu sempre me lembrarei de você (e sei que, de alguma forma, você jamais se esquecerá de mim também) e vou pensar em você com carinho. Para mim, o mais importante é que você seja feliz, seja como ou com quem for.

Nunca desista dos seus sonhos, Eduardo. E eu prometo que jamais desistirei dos meus... quem sabe, em outras vidas, em outro mundo... possamos nos encontrar de novo, ou até mesmo nessa... e eu possa ver o dia em que você olhe para mim com os mesmos olhos com os quais eu olho para você!

Você não precisa nem deve responder a essa carta! Nem me escrever ou procurar mais, se não quiser. Não quero ser invasivo, apenas pense sobre tudo isso e um dia talvez tornemos a nos falar sobre.

EU TE AMO PARA SEMPRE!

Um beijo grande de quem é, acima de tudo, seu grande amigo!"




Li tudo que estava escrito e cheguei a me emocionar e a suar frio. Eu sabia que aquele poderia ser meu último contato com Eduardo. Dobrei o papel, coloquei em um belo envelope vermelho e fechei. Em seguida, liguei novamente computador.
- Montanha... terminei a carta. Agora só me resta entregá-la.
- Não se preocupe, sei o que pode fazer. Eu devo estar com Eduardo hoje. Minha namorada mora perto de onde ele joga tênis, volta e meia eu vejo ele lá. Vou daqui a pouco sair, vou fazer uma visita para ela. Posso dar um jeito de falar com ele, e entrego a carta.
- Então estou indo encontrar você agora para deixar a carta.
- Valeu, moleque. A gente se vê em frente ao shopping.
- O shopping em que a gente estudava.
- Isso.
- Certo. Até logo.
- Valeu.
Estava nervoso, suando frio, quando encontrei Guilhermino no shopping e mostrei um rascunho da carta, em um papel velho, que continha as mesmas palavras, já que a que eu entregaria já estava fechada no envelope. Guilhermino leu atentamente e, por fim, disse:
- Cara, eu sou hétero, gosto de mulher, sempre gostei. Mas até eu me sensibilizaria se alguém escrevesse isso para mim, poderia ser quem fosse. Eu não poderia corresponder, mas valorizaria. É a coisa mais linda que já li em toda minha vida.
- Não sei se devo entregar isso a ele.
- Ahhh, quer saber? Entrega isso logo, Christian! Você tinha razão, meu amigo, acaba logo com isso.
- Acha mesmo?
- Acho!
- Então é isso aí!
- É isso aí, boa sorte! Estou torcendo.

A noite passou tão devagar... parecia que não acabava. Eu sempre tive pavor de noites assim, e agora tinha ainda mais. Quando finalmente consegui vencer minha insônia e adormecer, tive um sonho estranho... sonhei que vários rapazes muito bonitos e sorridentes pulavam no mar, ou em uma piscina... e nadavam, nadavam. Eram tão diferentes de mim, eram populares, queridos por todos... Eduardo estava entre eles e era o único que eu enxergava. Não desejava ninguém além dele. Por vários dolorosos minutos eu parecia ouvir uma voz me dizendo: “não vá até ele, se ele quiser, ele que o procure”. Além disso, eu tinha medo, tinha vergonha. Não o procurei. Ele me via, sabia que eu estava ali, mas era indiferente, de uma forma como jamais havia sido em todo o tempo que passamos juntos. Eu continuava sentado ao longe, conversando com meus amigos e me mantinha longe da água, como se não fizesse questão de falar com ele, quando na verdade a ansiedade era terrível. Por fim, não suportei. “Vou até lá, vou nadar e tentar conversar com ele, perguntar o que está acontecendo”.
Mergulhei, e como se o mundo se acabasse lentamente em uma vertigem azul-esverdeada, cor de mar, as imagens iam se misturando... risos, vozes, uma multidão de jovens, todos iguais, como se tudo se fundisse em uma nuvem, a imagem da água se fundindo aos rostos dos rapazes... todos rindo sem parar, tudo rodando, e uma grande tonteira. Eu não conseguia achar Eduardo, procurava incansavelmente, era desesperador. “Onde ele está? Nunca mais vou vê-lo?” Procurava, procurava, procurava, e por fim parecia ter desmaiado, tive uma sensação de queda, e acordei assustado.
Olhei para o sol devastador do dia lá fora, assustado e ainda com um pé no sonho, como se estivesse ainda no estado de transição entre a fantasia e a realidade.


Os dias foram se passando, Eduardo nunca me procurou e eu sabia que não teria coragem (e talvez nem devesse) procurá-lo ou telefonar. O tempo parecia mais lento do que nunca, ainda mais porque minhas aulas na faculdade ainda não tinham começado. Foi quando, em uma ou duas semanas, encontrei Guilhermino novamente, e ele tinha um olhar pesado, de quem tinha que dar uma notícia ruim.
- O que houve?
- Você ainda gosta do Eduardo.
- Honestamente, sim.
- Então você precisa deixar de gostar.
- O que houve?
Ele me contou exatamente o que havia acontecido e a cena pôde vir quase perfeitamente em minha cabeça.

- Edu! Quanto tempo, cara!
- E aí, Montanha! Tudo bom?
- Seguinte, sobre aquela parada do Christian... aquela carta que eu entreguei e que tinha te falado que não sabia de nada... pois é, cara, o Christian me mata se souber que eu te contei e que estou falando sobre isso, mas eu sabia sim. Sou uma das poucas pessoas que sabe. Acho que só eu e a Túti sabemos. Eu sou hétero, não tenho preconceitos e Christian é meu amigo, não consigo mais ver o cara nessa situação, há dias com ansiedade... então resolvi vir falar com você.
Eduardo ficou de todas as cores, o nervosismo era tão forte, tão forte, que até sua respiração chamava atenção. Engolia seco, e sua voz não saía dos lábios. Por fim, falou:
- Está falando daquela carta repugnante?
- Repug...
- Aquela carta suja, nojenta, asquerosa daquele garoto ridículo? Aquilo foi a coisa mais nojenta que já vi em toda a vida.
- Mas, cara, qual o problema de um menino gostar de outro? Se você não corresponde, diga a ele que não gosta e pronto. Precisa terminar uma amizade?
Eduardo não sabia o que responder, ele simplesmente havia aprendido que homens apenas podem se apaixonar por mulheres e vice-versa. Não sabia explicar o porquê, mas era isso que havia aprendido, e que o contrário era algo abominável, e isso já estava tão enraizado em sua criação que não adiantava mais dizer o contrário. Provavelmente era essa a razão de estar tão nervoso, gaguejando e sem conseguir pronunciar uma palavra. O suor escorria pela testa e sua cabeça olhava para todos os lados, como se estivesse com medo de alguém ouvir a conversa, e do que Guilhermino pudesse estar pensando a seu respeito.
- Cara, é nojento. Eu juro que eu acho isso nojento.
Guilhermino riu.
- Não precisa jurar nada para mim. Até porque isso, para mim, não faz a menor diferença. Acredito que para a maior parte das pessoas também não. Mas algumas ainda se deixam levar por preconceitos... Eu gosto de namorar mulheres. Christian é meu amigo e gosta de namorar homens. Ele me respeita e eu o respeito, não vejo motivo para...
Eduardo agora tremia.
- Algo errado?
- Eu? Não, de jeito nenhum!
- Eduardo... responde uma coisa com sinceridade?
Eduardo gelou.
- Por algum momento você já sentiu algo pelo Christian... digo, alguma dúvida, um sentimento ou algo mais forte?
- O quê???? Não!!!! Nunca! Eu odeio esse garoto! Eu falava com ele porque eu falo com todo mundo. Falava de dar oi e tchau. Mas sempre achei ele um idiota.
- Mas vocês viviam juntos, eu sempre via vocês almoçando...
- Porque eu não sabia! Se soubesse que ele era um anormal sujo e repugnante eu nunca teria me aproximado.
- Por que está tão nervoso? – Guilhermino permanecia calmo e tinha um ar irônico em sua fala.
Eduardo percebeu que suas pernas tremiam visivelmente, e que suava, sua voz estava diferente... não havia como negar que algo o deixara nervoso.
- É que...
- Hum...?
- Ele... o Christian tentou me agarrar. É isso, ele vinha tentando me agarrar à força há muito tempo.
- Sério? Que coisa!
- É sim, ele me agarrou e me segurou à força. Não conta a ninguém. – ele estava mais calmo, mas continuava olhando para os lados.
- Pode deixar.
- E toma cuidado você também, ele vai tentar te agarrar também. Você sabe do que esse tipo de gente é capaz.
- Vai ver que ele pensou ter visto alguma “bichice” em você!
Eduardo, se havia recuperado algum controle, agora tinha perdido de vez.
- Eu??? Está maluco, cara??? Eu gosto de mulher! De mulher!!!
- Entendi.
- Mas... esquecendo esse assunto nojento. Como anda a vida? – ele dizia tentando parecer natural.
- Boa, como sempre. Estou namorando a menina mais perfeita de todas. – respondeu Guilhermino.
- Que maneiro! Ah, você tem visto aquela gostosa da Priscila?
- Aquela dos decotes e das roupas justas? Vi pela última vez faz tempo...
- Então... ela é uma gostosa, cara... não paro de pensar nela.
Eduardo nunca falava sobre esse tipo de assunto, e a forma como falava justamente neste momento soava tão artificial que Guilhermino decidiu não levar a conversa muito à frente.
- Bom, cara, preciso ir. A gente se vê...
- Está certo... a gente se vê... mas olha, toma cuidado com o Christian, ele é perigoso, pode tentar te agarrar à força.
Guilhermino riu e disse:
- Pode deixar, cara. Pode deixar.

Quando Guilhermino terminou de contar, era como se eu estivesse saindo de um cinema e ainda estivesse perdido, com dificuldade de enxergar sob a luz forte. Eu podia imaginar a cena tão perfeitamente que parecia ter visto tudo em um telão, e agora as imagens desapareceram da minha cabeça da mesma forma como haviam chegado. Estava em choque!
- Cara... eu sinto muito. Não queria magoar você, mas precisava ter contado.
- Tudo bem, Guilhermino. – eu disse, por fim, em tom fúnebre - Você abriu meus olhos. Se não fosse por você, eu ficaria esperando até hoje por uma ligação dele, sem saber o que ele realmente pensava e dizia sobre mim.
- Aonde vai agora?
- Para casa...
- Há algo que eu possa fazer para ajudar?
- Não, não há. Obrigado.

Cheguei à minha casa com o aspecto de um fantasma, esperava não ter que ver ninguém. Uma vontade desesperada de desabafar tomou conta de mim, liguei para Túti e contei toda a história.
- Mas por que fez isso, Christian? Eu disse que não deveria mandar carta nenhuma!
- Eu precisei. – eu disse.
- Está louco, Christian? Como pôde ter dito a ele?
- Como ele pôde ter sido tão canalha?
- Eu avisei! Eu avisei! Se não tivesse feito isso, ao menos manteria a amizade.
- Pelo visto, nossos conceitos de amizade são bem diferentes. Se ele fosse meu amigo verdadeiro, procuraria compreender.
- Por que o Montanha foi falar com ele? Não tinha nada que ter falado.
- Ele me abriu os olhos... Agora eu vejo que não fazia sentido acreditar que o amor chegaria para mim...
- Que ridículo!
- Ninguém olhou para mim.
- Eu olhei para você! Logo que nos conhecemos, e você não notou.
- Como? – eu não sabia o que dizer.
Silêncio de alguns segundos.
- Você não pode culpar o Eduardo... – ela disse, nervosa, e por fim acrescentou: - ele tem o direito de ser hétero.

Aquela frase me feriu de uma tal forma que seria impossível descrever. Eu amava minha amiga e sabia que ela me amava também, que queria meu bem. Mas aquilo havia me destruído, era a gota d´água. Ser hétero era sinônimo de parar de falar com um amigo? Desligamos e decidi parar de falar com ela e com todos, pelo menos até minha cabeça esfriar.
Mandei apenas uma nova carta para Eduardo:


Eduardo,

Tudo bem?
Estou lhe escrevendo pela última vez só para lhe dizer que você tem toda razão, rapaz. Não devo mesmo gastar meu léxico com um semi-analfabeto. Pode ficar tranqüilo, jamais tornarei a escrever para você ou falar com você nesta vida.
Quanto a mim, você não precisa se preocupar, afinal, sozinho eu não ficarei, já que eu “agarro as pessoas à força”. Só gostaria de me lembrar de quando foi que eu agarrei você. Por favor, me lembre de quando foi que isso aconteceu, pois realmente não consigo me lembrar.
Pensando bem, não me diga, nem perca seu tempo, pois não vou ler suas respostas.
Adeus.


Os dias se tornaram meses, anos... a sensação era terrível, como se eu estivesse morrendo. Não chorei, por mais surpreendente que isso possa parecer. As lágrimas não desciam, eu estava apático, morto por dentro. Mas mesmo quando se morre, tem-se a chance de nascer de novo, se quiser.

Foi algum tempo depois que esbarrei com Nana, a menina tímida e amedrontada que andava conosco na escola. Resolvi conversar com ela, dizer oi e começar a falar sobre os tempos do colégio. Como em um impulso, deixei toda a história escapar de minha boca, tudo que aconteceu desde o princípio. Ela continuou me olhando com o mesmo olhar doce de sempre, perguntei se estava tudo bem, e ela apenas disse, com toda a doçura:
- Isso, para mim, não faz a menor diferença. – foi a maior frase que já ouvi de Nana em toda minha vida.
Aquelas palavras tão doces e sinceras me fizeram perceber que, se um amigo realmente gosta de mim, eu não devo ter medo de dizer nada a ele. E tive certeza de como fiz bem em ter dito tudo que sentia. Um peso saiu das minhas costas.
Voltei a falar com Túti. Por algumas vezes combinamos de almoçar todos juntos, como nos tempos de escola.
Jamais vi Eduardo outra vez, ou tive notícias dele. Guilhermino também nunca mais o encontrou.
Durante muito tempo, acreditei que jamais pudesse me apaixonar novamente. Mas no fundo, eu sabia que isso seria impossível. Amar alguém era minha sina, e se isso não fosse possível para mim, eu tentaria até o último dia de minha vida. Jamais perderia as esperanças de encontrar alguém. Não alguém qualquer, mas alguém MUITO especial que fizesse meus olhos brilharem, meu coração bater mais forte, meu estômago congelar e o mundo reluzir de uma forma mágica e encantadora... e que sentisse exatamente o mesmo por mim.
Seria impossível? Agora eu não era mais um garoto. Os tempos de escola acabaram. Era o início de um novo tempo. Quem sabe, com ele, em meio a tantos rostos, eu não encontrasse o daquela pessoa tão especial e que também estivesse esperando por mim?
Todos merecem ter alguém, se apenas esperarem, se apenas acreditarem. E eu acreditaria nisso... para todo o sempre!

A carta de amor proibida (parte 4)

Aquilo foi como um choque. Não que eu o julgasse ou condenasse, de forma alguma! Mas era algo totalmente inesperado. Aquele homem bonito, jovem, com um corpo atlético e uma voz grave... usando coisas femininas! Eu nunca usei coisas femininas, nunca tive vontade de experimentar nada da minha mãe, e no entanto eu era homossexual. Achei estranho. O que isso significaria? Talvez, que ele fosse ainda mais homossexual do que eu? Eu não sabia, apenas me sentia confuso, imaginava a vida de Eduardo, uma família tradicional, amigos riquinhos e sarados que viviam na academia, a popularidade, as aparências, o personagem que ele deveria ter que vestir, o que eles diriam se ele sequer sonhassem em desabafar sobre algo assim.. senti uma vontade fortíssima de abraçá-lo naquele instante, segurar suas mãos e dizer que tudo estava bem, que podia confiar em mim, que eu o protegeria. Mas nada diz, apenas continuei ouvindo, procurando não julgar, procurando apenas ouvir, e aceitar, amar sem querer nada em troca.
- Eu... eu... eu às vezes fico pensando, sabe... nessas paradas que você fala... – ele tropeçava em cada palavra, o nervosismo era visível.
- Entendo.
Por mais alguns segundos ele se calou e então não disse mais nada. Mudou de assunto para algum que não rendeu muito. Ficamos em silêncio até chegarmos à casa do meu pai. As luzes ainda estavam acesas, ele certamente estava acordado e bebendo.
- Eduardo, obrigado pela carona. Amanhã nos veremos de novo?
Mais uma vez fui contemplado pelo brilho de seu sorriso, aparentemente cheio de malícia (talvez não, talvez fosse auto-sugestão e nada daquilo que ele havia me dito quisesse realmente dizer algo que eu quisesse ouvir), eu estendi minha mãe para que ele apertasse.
O carro estava escuro, a noite era silenciosa e quase não podia ver seu rosto. Ele se aproximou devagar, como se calculasse cada movimento e, sem se levantar do banco do carro, aproximou seu corpo do meu (a cada segundo, seus movimentos pareciam mais lentos), eu estava imóvel, não respirava. Então ele me abraçou bem forte.
- Obrigado por fazer parte da minha vida.
- Eu que agradeço por você ter me deixado ter entrado na sua, ainda que só um pouquinho.
- Até amanhã, meu amigo.
- Até amanhã!

O fato é que, querendo ou não, nada daquilo podia ser ignorado. Fui dormir, ou tentar. No dia seguinte, veria Eduardo... isso era o que contava.
Acordei cedo, tomei um banho no chuveiro gelado do meu pai. No exato segundo em que saí do banheiro, já vestido, arrumado e perfumado, meu pai me passa o telefone.
- Pra você! – ele disse, com a voz seca e mal humorada de quem havia passado a noite anterior inteira bebendo.
- Alô!
- Alô! - Eduardo!
- Hehehe, e aí, rapaz? Tudo bem? Estou a fim de dar uma passadinha aí, pode ser?
- Claro! Pode e deve.
- Então demorou... adivinha onde estou.
- Onde? - Vá até o portão e dê uma olhada.
Abri a porta, lá ele estava, de dentro do carro, falando no celular.
- Seu bobão! Precisava trazer o carro? Você mora a poucas ruas daqui.
- Hehehe, entra aí. – ele disse, com um sorriso malandro.
Olhei para ele. Como estava lindo! Era, de fato, o rapaz mais deslumbrante que já tinha visto na vida. A luz forte daquele dia quente de sol penetrava em seus olhos, que penetravam em minha alma. Estavam com um tom de verde-azulado claríssimo, e pareciam me remeter à água quente e suave do mar em um dia tranqüilo, sem ondas, sem pessoas, sem problemas, sem preocupações, sem o medo... Apenas a luz do sol, o mar suave e morno.
- Vou te levar para dar um passeio.
Enquanto passeávamos com o carro e víamos o condomínio, as casas (passamos em frente à casa dele e eu vi sua mãe ao longe), íamos conversando sem parar.
Depois saltamos do carro.
- Ótimo, agora eu vou te levar para passear, e do jeito que eu mais aprecio: a pé!
- Ah, fala sério...
- Nada disso, deixe de ser preguiçoso! Um rapaz forte, bonito e saudável, que joga tênis e malha todos os dias, com preguiça de andar? Uma vergonha isso. – eu dizia, brincando com ele.
Ele riu e fez menção de fugir, voltar para o carro. Sem maldade, eu fiz o que faria com qualquer amigo ou amiga, segurei seu braço e puxei de volta, para perto de mim. O mundo parou, eu congelei, a temperatura do meu corpo mudou e também minha respiração. Não conseguia soltar, era como se estivéssemos petrificados. Assim ficamos por algumas frações de segundos, não sei quantas, mas pareciam compor o momento mais delicioso de toda minha existência até então.
Fui soltando devagar, agora estávamos bem sérios, os sorriso tinham se desfeito em nossos rostos. Ele me encarava profundamente, sério e ao mesmo tempo com afeto, e também com um pouco de medo, sem saber o que fazer ou dizer.
Passeamos por aquelas ruas, aquelas mesmas pelas quais eu havia andando na infância, antes de meus pais se separarem... via aquele mesmo verde, as mesmas casas, agora tão diferentes, as mesmas placas, o mesmo rio. Praticamente nada havia mudado. Era como voltar no tempo. A emoção era muito forte, e enquanto íamos nos perdendo no verde daquele belo lugar, eu queria apenas me perder no verde seus olhos.
- Olha só... – ele disse, por fim.
- Sim?
- Preciso ir embora, tenho um assunto sério para resolver hoje, e ainda não almocei... acho que você me fez perder a noção de tempo, hehehe.
- Hehehe, que bom, então! Sinal de que você gosta da minha companhia.
- Bom... eu preciso ir. A gente vai se ver novamente amanhã... eu faço questão de te dar uma carona pelo menos até a saída do condomínio.
- Se não for incômodo...
- Então...
- Então?
- Estou indo, hehehe.
- Até logo... mas... já estou com saudade, desde já.
Ele riu com minhas palavras. Por que eu havia dito aquilo? Não deveria ter dito. Poderia pôr tudo a perder, era o que eu pensava. Deveria dizer algo para disfarçar? Deveria dizer que era brincadeira e fazer uma piada. Não sabia o que dizer.
- Até mais... – ele se aproximou e me abraçou.
Neste segundo, algo muito estranho aconteceu.... tudo aquilo que eu sentia naquele mesmo segundo, tantas sensações ao mesmo tempo, tantos desejos misturados... um fogo surgiu dentro de mim, fogo este que eu não podia, não conseguia e não queria controlar. O fogo crescia, crescia, me queimava por dentro, meu estômago estava gelado, minha respiração estava estranha, e meu pênis começava a crescer e a enrijecer, estava duro como uma rocha. O que eu faria? Não conseguiria disfarçar. O medo começou a crescer dentro de mim, a vergonha, a culpa, o desespero, e também o tesão, o desejo, o fogo, a vontade de esquecer de tudo e agarrá-lo ali mesmo, tocar seus lábios com os meus leve e suavemente, sentir o gosto quente de sua saliva, de sua língua, acariciar seu rosto, arrancar sua camisa e tatear seu tórax, provar o sabor de sua pele quente e deliciosa. Sentir com as mãos, com meu próprio corpo, e com a língua. Aqueles desejos ardentes tomaram conta de mim durante cerca de dois segundos, dois segundos tão intensos e confusos que pareciam ter o prazo de uma vida. Não resisti e apertei ainda mais o abraço, tocando sem culpa suas costas largas e sentindo meu corpo colar com o dele ainda mais. Foi então que... aconteceu!
Era como se houvesse uma fúria dentro de mim, uma ardência que precisava ser libertada. Meu pênis enrijeceu ao máximo e eu tive um orgasmo. Pude perceber o esperma saindo de meu pênis, sem que eu pudesse controlar.
Eu o soltei, embriagado pelo tesão reprimido, e agora libertado.
Eu não sabia o que fazer, o que falar. Estava com muita vergonha e medo de que ele tivesse percebido. Mas ele sorriu, despediu-se e entrou no carro, indo embora.
Será que havia percebido? Será que havia sentido? O que ele pensava a meu respeito agora? A dúvida tomou conta de mim.
Passei o dia esperando... meu dia acabou. Um dos amigos do meu pai tentava puxar conversa, mas eu simplesmente não conseguia responder. Não pensava em nada que não fosse meu desejo por Eduardo.
Assim a noite veio, e com ela o dia seguinte...
- Quando é que você vai começar a sair com umas gatinhas aí?
- Hum? - As gatas... Quando começa a comer umas mulherzinhas? Você já fez dezessete, né?
- Dezoito, pai. Dezoito. Foi em fevereiro agora.
- Ah, sim... você é de fevereiro, isso mesmo. Tá, mas e as mulheres?
Eu estava perdido em meus pensamentos e não queria conversar.
- Honestamente, não vou pegar mulher nenhuma, se quer mesmo saber, estou apaixonado e para mim só existe uma pessoa.
- Você não sabe nada da vida, meu filho. Tem muito o que aprender, eu vivi muito mais do que você e sei de muito mais coisa, tenho muito mais cultura, muito mais experiência...
- Parabéns. – eu respondi, seco e irônico.
Ele não prestou atenção. Encheu o copo de bebida, bebeu mais um gole e continuou:
- Mulher é assim... é como uma bela raposa que você quer caçar. Você é o caçador. Não pode ficar com esse discursinho romântico, mulher tem nojo disso. Tem que atirar para valer... depois, quando já estiver com ela, quando ela já tiver caído na sua, então você pode, se quiser, mandar um discurso desses. Mas é claro que é só discurso. Mulher gosta de acreditar em mentira. Minha mulher atual está na Bahia passando um tempo com a família, ela nunca me trai, porque não é nem louca de pensar nisso. Mas você acha que eu não traio? Ah, homem é homem!
- Pai...
- Então, quando a mulher chegar para você e...
- Pai, não tem mulher nenhuma na história. Estou apaixonado por um rapaz.
...
Silêncio de vários minutos.
- O quê?
- Sim, um rapaz daqui do seu condomínio, e ele vai vir me ver hoje à noite.
Ele não sabia o que dizer, e não me interessava. Eu não tinha por que mentir para ele, mentir seria dar muito poder a ele e, para mim, não fazia diferença o que ele aprovava ou não.
- Bom... – ele disse, após alguns minutos de constrangimento – então... então eu não sei. Com licença. – disse e saiu.
Eu fiquei ali, olhando para o portão sem me mexer. Só Eduardo fazia diferença.
A noite foi chegando, meu pai já estava muito bêbado e ficando aparentemente agressivo, começou a dar a entender que queria a casa desocupada no dia seguinte para que ele pudesse receber uma namorada.
- Olha, pai, eu já disse que vou embora hoje, já avisei isso algumas vezes... mas já que faz tanta questão de me lembrar que não me quer amanhã aqui, não seja por isso, eu vou embora agora mesmo.
Ele pareceu surpreso com minha resposta e disse:
- Deixa de malcriação, eu já falei que é só amanhã. Hoje você pode ficar. Senta aí e vamos conversar.
- Sinto muito, mas acho que já vou mesmo.
Tomei um banho, arrumei a mala e fui até a sala, onde peguei o telefone.
- Eduardo? Olha, só estou ligando para dizer que não precisa me dar carona não. Eu estou indo embora agora, tive um pequeno desentendimento com meu pai.
- Então eu dou a carona agora?
- Mas neste horário você costuma jogar tênis.
- Esquece o tênis. Eu levo você.
- Não quero ser abusado.
Ele deu uma risada.
- Estou passando aí. – disse e desligou.
Voltei à varanda e fiquei olhando para o portão, com a mala pronta.
- Ele está vindo.
- Esse garoto?
- O Eduardo, sim.
- Não quero esse garoto aqui dentro, heim! – meu pai avisou.
Sem demonstrar qualquer sentimento, em total indiferença, respondi:
- Não tem problema, nem nós queremos ficar aqui dentro. Até logo. – disse e saí, fui esperar do lado de fora.
Em pouco tempo ele chegou.
- Fala aí, Eduardo.
- Tem certeza de que não estou sendo um incômodo?
- Pára de bobagem. Você nunca é incômodo.
- Bom, eu trouxe isto para você. É um filme que eu copiei... é um filme... romântico.
- Ah, sim, entendi, legal. Um dia eu vou trazer uns DVDs virgens para te dar. Você sempre fica gastando DVD para copiar filme para mim, não quero deixar você no prejuízo.
- Ah, não precisa se preocupar.
Entramos no carro e ele foi dirigindo. O sol tinha acabado de se pôr.
- Fui a uma festa ontem. Sabe como é, ver se eu pegava alguém... hehehe. Não sou santo, tenho lá os meus rolos, hehehe. – ele disse.
- E então? Ficou com alguém?
- Ah... não.
- Por que não? - Não sei por que, mas não achei legal ou que me atraísse. E você? Anda pegando muitas meninas por aí?
- Hahaha, não.
- Por que não?
- Não sei explicar. Às vezes as coisas simplesmente não são como nós queremos que sejam.
- Hum... – ele ficou sério de repente, muito sério.
Eu desci do carro e me despedi. Ele parecia sério, talvez preocupado, não sei bem. Apertou minha mão e se foi, através daquela noite azul escura. Olhei fixamente para ele, deixando de lado a timidez e a vergonha, até o último segundo em que pude, até ele ir embora, como se eu soubesse dentro de mim que aquela seria a última vez em que o veria na vida. Peguei o ônibus e fui para casa.
Algo me dizia que não podia deixar as coisas como estavam. Eu precisava ser honesto com Eduardo, se eu realmente era seu amigo de verdade, deveria dizer a ele o que sentia. Se ele não fosse capaz de compreender e, mesmo não correspondendo, continuar sendo meu amigo, era sinal de que realmente nunca mereceu minha amizade. Foi quando, em um dia desses, por acaso, encontrei com Montanha na rua, indo para casa, depois de ter resolvido alguns problemas na rua.
- E aí, rapaz? Quanto tempo?
- Faaaaaala, moleque. Tranqüilaço?
- Hehehe, tudo bem, Guilhermino. E você?
- Montanha, cara. Montanha! Bom, eu estou muito feliz! Muito mesmo! Estou namorando a garota mais linda da face da Terra. – ele disse tirando uma foto de uma menina da carteira.
- Que bom, Montanha! Você realmente merece, é uma pessoa muito legal.
- Valeu, cara. Está de bobeira?
- Indo para casa.
- Cara, está tudo bem com você? Estou te achando tão abatido.
- Não é nada demais. Alguns problemas...
De repente, por impulso, não sei por que falei isso, mas acabei dizendo, sem perceber:
- Estou apaixonado e não acho que possa ser correspondido. Mas ao mesmo tempo há alguma coisa me dizendo que eu não posso desistir.
- Ah, cara... não desiste sem tentar.
- Mas é que é... algo... meio impossível...
- Entendo...
- Sabe de quem estou falando?
Ele riu, sem graça, não soube o que dizer...
- Sei lá, cara... a Túti...?
- Não.
Alguns minutos de silêncio.
- Estou apaixonado pelo Eduardo.
- Ah, cara...
- O que foi?
- Ah, se você gosta mesmo, vai fundo.
- Está surpreso?
- Honestamente? Não! Hahahaha.
- Meu Deus, todo mundo já deve ter percebido.
- Ih, relaxa! Ninguém percebeu, pode apostar.
- O que devo fazer?
- Cara, é complicado... se bem conheço o Eduardo e ele de fato tiver preferências homossexuais... não acho que ele saiba disso. Ele é muito... “bobão” ainda, sabe?
Em mais ou menos meia hora de conversa, narrei a ele toda a história, contando tudo desde o dia em que conheci Eduardo. Apesar da minha preocupação, acabamos rindo em vários momentos e nos divertimos ao imaginar a reação de Eduardo.
- Guilhermino, você acha que esse negócio de ele usar salto da mãe dele escondido pode significar alguma coisa?
- Cara, não sei... pode ser que não queira dizer nada. Mas pode ser que sim.
- Não agüento mais essa ansiedade, vou contar tudo a ele.
- Melhor não fazer isso.
- Por que não? Vou ficar nessa tensão pela vida toda?
- Não é isso... é que talvez fosse uma tática melhor continuar amigo dele, se aproximar mais.
- Por anos a fio? Que espécie de amigo eu seria escondendo dele algo dessa relevância? E sem contar que seria doloroso demais continuar próximo dele, fingir e ocultar meus sentimentos, e no fim acabar vê-lo namorando alguma menina e ter que fingir que estou muito feliz por ele.
- Acho melhor você ir para a casa, pense bem no que faz, amanhã a gente conversa melhor sobre isso. Não aja no impulso.
Segui o conselho de Guilhermino, mas não podia deixar de pensar sobre o assunto e de continuar com a mesma opinião. Eu não agüentaria mais esperar... contaria tudo a Eduardo, viesse o que viesse.
Assim veio o dia seguinte.
Liguei para Túti.
- Alô!
- Alô!
- Amigo... estou mal, muito mal... acabei de terminar com Cláudio e me sinto tão culpada.
- Amiga, você não precisa se sentir culpada por coisa alguma.
- É que ele é tão imaturo, não acho que esse namoro vá resultar em grande coisa.
Eu sempre senti que Túti não gostava de Cláudio, não o amava. Sua voz estava pesada, triste, como nunca havia estado antes.
- Túti, desculpe pela minha sinceridade... mas você não o amava e isso está na cara.
- Amo sim... – ela disse, mas sem muita firmeza na voz – é que, às vezes, ele parece tão sem personalidade, tem que ter hora para voltar para casa, faz tudo que a mãe fala para fazer e não faz questão de me ver... sei lá, não era como eu esperava. Mas me sinto mal porque o magoei.
- Bom, o que eu vejo é que você o ama de verdade como amigo, mas não o ama como homem.
- É, acho que tem razão... não o amo como homem... até porque ele não é!
Não pude deixar de rir com o comentário dela.
- Mas amigo, o que houve com você?
- Poxa, eu não queria atormentá-la com isso... você está tão triste.
- Fala.
- Decidi contar ao Eduardo...
- O quê?! – ela exclamou, assustada.
- Túti, escuta....
- Não faça isso, você vai pôr tudo a perder, jogar a amizade de vocês pela janela...
- Túti, você não entende? Eu digo a ele que sou amigo... como posso ser um amigo se minto para ele, se escondo dele algo tão sério? Eu não gostaria que um amigo me escondesse algo desse tipo.
- Ai, Meu Deus... tome cuidado.
- Além disso, se ele for meu amigo de verdade, vai compreender. Ou, ainda que não compreenda, vai me respeitar e apoiar.
- Bom... eu não acho que seja o ideal a fazer, mas espero que dê certo. Boa sorte!
- Boa sorte para você também.

Desligamos e escrevi a carta para Eduardo.

A carta de amor proibida (parte 3)

Assim o dia seguinte chega.
O pessoal já está no pátio, eu chego assobiando e cantarolando. Meu ânimo devia estar mais evidente do que eu podia imaginar, porque as meninas todas olharam para mim.
- Bom dia, Túti, Nana, Dorinha... – tom de ânimo intenso e ainda cantarolando.
- ...
- Que foi, gente? Que carinhas irônicas são essas? – eu perguntei, sem graça, mas sorrindo.
- Você está tão diferente. – Dorinha disse, com ar malicioso.
- Eu?
- Totalmente diferente, amigo. – respondeu Túti.
- Eu acho... que nosso amiguinho está apaixonado! – Dorinha disse, por fim. – Ai, gente, está na cara.
- Eu?! Hahahaha, eu não!
- “Eu nãaaao”! – elas diziam, imitando.
Eu ri.
- Ah, pensem o que quiser.
O assunto mudou, conversamos por um tempo, mas Túti ficou com a pulga atrás da orelha e, depois da aula, ela me procurou.
- E então? Não vai me contar?
- Contar o quê?
- Você saaaabe! Safadinho! Hehehe!
- Hehehe.
- Pode me contar. Sou sua amiga, não conto a ninguém!
- Tudo bem, minha amiga. Então, eu preciso lhe contar uma coisa.
- Claro, estou ouvindo.
- Eu acho que... eu acho que estou apaixonado!
- Ahhh, mas isso é ótimo! – ela disse abrindo um grande sorriso. – E eu acho que já sei quem é... hehehe.
- Sabe?
- Claro que sim!
- Mesmo?
- Mesmo!
- Ah, Túti... como você pode saber?
- Oras, seu bobo, está na cara. E além disso, você se esqueceu de que eu conheço bem você.
- Nossa, então...
- Então eu sei que você está gostando da Dorinha!!!! Acertei?
- Não!
- Não? Então... com certeza a Nana
- Hahaha, também não!
Ela foi ficando séria.
- Diz quem é, por favor.
- Túti... estou apaixonado pelo Eduardo.
Silêncio de alguns segundos.
- Eduardo?
- Sim.
- Eduardo Eduardo? Eduardo que tem um carro?
Eu nem sabia que Eduardo tinha carro.
- Eduardo Eduardo, ué. Eduardo mulato de olhos verdes. O único Eduardo.
- Ah... legal. – tudo que ela conseguiu dizer, com um tom de voz fúnebre.
- Não é legal... – eu disse desanimado – eu acho que ele nunca vai poder me corresponder. E o que eu sinto por ele é tão forte. É tão estranho, eu nunca imaginei que sentiria isso.
- Sei.
- Talvez seja melhor eu guardar isso para mim e tentar esquecer.
- Talvez seja mesmo.
-...
- O Eduardo é muito infantil, muito imaturo ainda. No começo do ano eu e Dorinha fazíamos de tudo para chamar a atenção dele, chamávamos para sair, mas ele nunca dava bola. Ele é muito imaturo mesmo. Mas olha, vai fazendo amizade com ele. Quem sabe vocês não se aproximam mais e mais?
- É, talvez você tenha razão.
Nos próximos meses que se seguiram, eu e Eduardo sempre almoçávamos juntos. Em uma dessas conversas acabei descobrindo que Eduardo era vizinho de meu pai, que eu não via há muitos anos.
Nos próximos meses que se seguiram, eu e Eduardo sempre almoçávamos juntos. Em uma dessas conversas acabei descobrindo que Eduardo era vizinho de meu pai, que eu não via há muitos anos.
Passei a fazer visitas ao meu pai, ia de carona com Eduardo, depois da escola.
Se eu fosse descrever esses dias de visita, não haveria espaço aqui. Eu e meu pai parecíamos desconhecidos. Havia anos que eu não o via, desde que ele e minha mãe se separaram. Ele nunca me procurou e nem eu a ele. Quase não conversávamos, e durante quase todo o tempo meu pai estava embriagado. A casa estava em péssimas condições, e ele resmungava vez ou outra que tudo era culpa da minha mãe, que o havia largado.
Eram fins de semana infernais, que só valiam a pena porque, para chegar até lá, pegava carona com Eduardo.

Segunda feira.
- Bom... eu trouxe o DVD do filme que eu copiei para você, eu tinha prometido há um tempão.
- Ahhh! – ele exclamou, sem graça e sorrindo – valeu mesmo! Você fica gastando seu tempo e seus DVDs comigo. Mas vai ter volta, heim! Você vai ver.
Ele iria embora mais cedo naquele dia, assim que o intervalo acabasse.
Eu voltei para a sala de aula. Estava concentrado na matéria (ou tentando) que o professor estava explicando, quando alguém bateu no vidro da sala. Não prestei atenção. O garoto que estava ao meu lado me cutucou:
- Ei, acho que ele está chamando você.
Olhei para a porta. Era ele, o Eduardo, no vidrinho da janela, olhando para mim, rindo e dando “tchauzinho”.

O professor parou a aula.
- Senhor Eduardo Ingidaha, esqueceu algo na sala? – disse o professor.
Ele ficou de todas as cores e em seu estado de atrapalhação, quase deu com a testa no vidro.
A turma riu.
- Não, não, já estou indo embora, professor. Boa aula aí.
Eu ria junto com a turma, achando aquilo tão lindo, tão engraçado e tão fofo! Tive um ímpeto louco de me levantar correndo, abrir a porta, segurá-lo, abraçá-lo forte e não deixar que se separasse de mim. Mas era melhor tirar essas imagens da minha cabeça e voltar à aula. Olhei mais uma vez para a porta, para minha surpresa ele ainda estava lá. E olhando para mim, com um sorriso fofo nos lábios.
“Obrigado pelo DVD” – ele sussurrou bem baixinho, mas pude ler a frase em seus lábios.
Depois da aula, almoçamos juntos. Eu, as meninas e Claudio. Eu começava a sentir Túti mais distante de mim do que no começo do ano, quando éramos tão próximos, como se agora ela não tivesse mais tanta vontade de ser minha amiga. Talvez eu estivesse sendo muito injusto ao pensar assim. O fato é que eu me sentia inseguro, tinha vontade de abraçar meus amigos, de chorar, de gritar, de dizer que sentia medo, que me sentia sozinho... que tinha medo de que não houvesse um mundo melhor do que esse me esperando, algum dia... e que não houvesse de fato um sentido da vida.
- O que houve? Ficou calado de repente. – Cláudio disse, me animando.
- Ah, nada... só estava pensando no fim do ano. Vou sentir falta desses almoços da gente.
Todos prometeram que não perderiam o contato, e que sempre nos procuraríamos, mesmo depois que as aulas acabassem.

- Túti... – eu chamei, quando ficamos sozinhos. – Está tudo bem?
- Ah, sei lá, estou pensando em terminar com Cláudio.
- Por quê? Ele é tão bonzinho e gosta tanto de você... você não gosta mais dele?
- Não, não é isso! – ela dizia, meio assustada com minha pergunta.
Ela dizia que não era, mas se tinha algo que eu percebia, desde pequeno, era quando uma pessoa gostava da outra. E os olhos dela já não brilhavam para ele, se é que haviam brilhado em algum dia.
- Então... Há algum motivo?
- Ah, é aquela garota. Aquela Célia!
- Uma gordinha de óculos?
- Sim, ela mesmo. Ela fica “dando em cima” do Cláudio.
- Sinceramente, eu nunca percebi isso. Eles sempre foram amigos, assim como você é minha amiga.
- Ah, eu não sei, não. Para mim, ela é uma safada!
- Haha, Túti... isso pode ser coisa da sua cabeça.
- Eu já falei para ele que não gosto dela, que não quero que ele fale com ela.
- Mas, Túti, você não pode proibir o rapaz de ter amizades. Você gostaria se ele proibisse você de falar comigo?
- Não sei, estou tão confusa... mas algo me diz que eu devo terminar. A menos que ele mude...
- Mudar o quê?
- O jeito dele.
- Como assim?
- Sei lá... não sei explicar.
- Túti... algo me diz que você não sente nada por ele... honestamente, se for realmente isso, o ideal é terminar mesmo. Mas eu duvido, aliás, tenho certeza de que ele não tem e nem quer ter nada com a Célia. Ele só tem olhos para você. Olhe, veja seu reflexo... tire os cabelos do rosto... veja como você é linda!
Era verdade. Cláudio nunca olhou para essa menina, que apesar de popular no colégio, não tinha um terço da beleza e do charme de Túti.
- Ah, eu não sei, amigo.... estou me sentindo tão confusa... Me abrace...
Eu a abracei.

Chegou o fim do ano. Formatura. A festa aconteceu em um lugar bem chique, todos arrumados. Lá pelas tantas aparece Guilhermino, o garoto guitarrista. Ele, que estava sempre de preto e com jeitão de menino mau, parecia engraçado, todo engomado no terno e gravata.
- E aí, cara? Tanto tempo estudando juntos e quase não nos vemos. Bate aqui, “rapá”!
- Guilhermino, tudo bem? Bom ver você por aqui.
- Guilhermino não, cara. Montanha! – ele corrigia.
- Hehehe, está bem, Montanha.
Mas eles percebiam que eu não parava de olhar para os lados, como se procurasse alguém, e não fazia isso voluntariamente. Quando dei por mim, estava com a cabeça girando para todos os cantos daquele imenso e luxuoso salão, e estavam Montanha, Túti e Cláudio olhando para mim.
- Você está bem, cara? – perguntou Cláudio, com aquele seu jeito bonzinho e abobalhado de sempre.
- Ah... sim, estou sim.
- Está esperando alguém? – Montanha falou.
- Não, não... Hehehe, vamos ouvir a apresentação dos corais, já estão começando.
Durante a apresentação, Guilhermino (Montanha) ia falando comigo, bem baixinho. Ele não parava de falar, era muito tagarela. E eu, que antes já não prestava atenção a nada, agora prestava menos ainda. Apenas olhava para os lados e enxergava uma multidão confusa. Não, Eduardo não estava ali. Todos que tinham que vir, já tinham chegado. Os outros estavam viajando.
De repente, o coral começa a cantar alguns temas de musicais, alguns lindos, músicas que tinham marcado minha infância. A emoção era intensa. No meio daquele som perfeito, um ambiente mágico, eu sinto alguém se aproximando devagar. Imagine isso em câmera lenta, como em um filme. Ele se aproxima, anda até perto dos bancos onde estávamos sentados... eu congelo, não posso olhar para trás...
Montanha, sussurrando, me diz:
- Olha, o Eduardo está aí.
Não entendi o porquê de ele ter me dito isso, será que ele sabia de tudo? Mas não importava.
- Vai lá falar com ele, cara. – ele disse.
Eu olhei... era ele! Eduardo! Estava lindo, lindo como nunca havia estado antes... vestido de terno e gravata, parecia mais maduro do que antes, mais homem, mais másculo, mais responsável.
A música então acaba, pausa para as próximas apresentações, onde homenageariam os professores e fariam os discursos.
Como em câmera lenta, eu me levantei, o sorriso era impossível de ser disfarçado. Levantei, me desviei de Célia, de Montanha, de Túti, de Cláudio, de todas as pessoas que estavam à minha frente. Sem controlar qualquer impulso, eu me aproximei, me aproximei... e abracei Eduardo com toda a força e vontade que pude reunir, encostando minha cabeça em seu ombro forte.
Ele sorria e me abraçava de volta com a mesma intensidade, porém um pouco sem jeito.
- Eu sabia que viria.
- Eu também sabia que veria você, meu grande amigo!
Eu o larguei e ele foi se sentar na outra fileira de bancos, já que a fileira em que eu estava já tinha sido toda ocupada. Eu não podia tirar os olhos dele nem por um segundo.
A formatura foi linda! Mas, agora que o ano havia acabado, como ter uma desculpa para vê-lo de novo? Precisava ver Eduardo novamente, e rápido, do contrário eu sufocaria, como se precisasse dele para respirar.
A ocasião veio depressa. Combinamos todos de nos encontrarmos para jantar e matar as saudades. Túti, Nana, enfim, todos da turma. Durante todo o tempo, Eduardo e eu conversamos. Na hora de ir embora, ele me deu carona, eu ficaria na casa do meu pai.
Quando estávamos sozinhos no carro, ele me disse, rindo:
- Quer dizer que você tem bichinhos de pelúcia no quarto?
- Sim.
- E livros de contos de fadas...
- Sim, ué. Algum problema?
- Pô, cara, que vacilo...
- Ah, Eduardo... você não entende? A sociedade fica o tempo todo ditando regras sobre o que devemos gostar ou não... quem disse que rosa é de menina? Quem disse que azul é de menino? Isso é algo que alguém inventou, é cultural. Você acha que é o certo porque cresceu ouvindo isso desde pequeno, mas imagine se tivesse aprendido o contrário, neste momento estaria acreditando no contrário.
Ele me ouvia, muito sério, enquanto seguia na direção do carro por aquela estrada escura durante a noite.
Eu continuei:
- Esse é o problema do ser humano. Temos uma dificuldade imensa em acreditar que tudo aquilo que aprendemos nada mais é do que uma invenção. Não nos conformamos, preferimos mentir para nós mesmos. Se você aprende que isso é madeira... – eu disse e bati de leve no vidro da janela do carro, e em seguida, em algum objeto de ferro que havia no interior do carro – você vai acredita que é madeira, e não importa quantas provas você tenha do contrário, digam que isso é vidro e aquilo é ferro, você sempre vai achar que são pedaços de madeira, mesmo que no fundo você saiba que está errado, vai preferir mentir para si mesmo. É assim que é o ser humano.
- Mas você não é assim...
- Não, não sou. Sabe, eu posso parecer frágil e introvertido, mas eu sou uma pessoa muito forte por dentro, Eduardo, e eu enfrento qualquer dificuldade para ser como eu sou, para ser honesto comigo mesmo e com os outros. Eu não vivo de aparências.
Ele continuava muito sério, como se, lá dentro dele mesmo, ele soubesse do que eu estava falando.
- O que foi?
- Assim, quando eu era pequeno...
Ele parava para pensar no que dizia, como se medisse cada palavra. Estava constrangido, embora tentasse não parecer.
- Pode falar com calma, estou ouvindo. Diga, meu amigo.
Ele sorriu sem graça, parou por alguns segundos e continuou:
- Eu costumava... usar coisas da minha mãe, salto alto, vestidos, essas coisas.

(Continua...)