BARULHO! BARULHO! BARULHO! TUMULTO! TUMULTO! BARULHO! TUMULTO! MUITA GENTE, MUITA GENTE, MUITA GENTE! BARULHO! MUITO BARULHO! LUZES PISCANDO!
Só o que vinha à minha mente eram essas palavras desconexas. Meu coração disparou ainda mais, achei que ia cair duro no chão. Consegue imaginar seu pior pesadelo? Imagine sua pior vergonha. Imagine ser humilhado(a) em frente a todos que conhece. Quem nunca teve pesadelos do tipo que atire a primeira pedra. Quem nunca sonhou que estava chegando nu(a) na escola, ou que caía e via todos rindo de sua cara. Era assim que eu me sentia, como se um pesadelo estivesse prestes a acontecer. Iria passar a maior vergonha da minha vida. Por que eu não fiquei em casa? Viveria minha derrota confortavelmente, sem medo, sem dor.
No escuro daquele lugar barulhento e cheio de gente dançando, tentava não me perder de meus novos amigos. Tentava não demonstrar meu medo, mas qualquer um que visse meu rosto perceberia (nesse ponto, o escuro me favorecia, pelo menos). Segurei o braço de Cibela, sem saber o que fazer, e ela tentava se afastar, assustada. Minha pressão começou a baixar e senti que ia cair desmaiado no chão. Tive vontade de chorar, de correr, fugir. Impossível descrever. Já havia pagado para entrar, teria que ficar ali pelo menos por algumas horas.
Tentei dançar com o pessoal, mas não conseguia, meu corpo não me obedecia, eu devia parecer um robô enferrujado sambando e não um rapaz dançando em uma boate. Meus amigos estavam indo para o outro lado da boate e eu tentavam acompanhá-los, para isso tendo que atropelar várias pessoas. “Com licença”, eu dizia docemente. Depois de um tempo tive que deixar de dizer, pois ninguém parecia ouvir nada mesmo.
“Como as pessoas podem se conhecer em lugares assim?”, era só o que eu pensava, aborrecido.
Fiquei algum por algum tempo tentando dançar (é, não me lembre) e tentar relaxar. Um dos atores do elenco da peça que estava sendo divulgada era amigo do pessoal, e se aproximou. Ele já me conhecia de vista, pois nas vezes em que assistimos às peças, ele sempre vinha falar com meus amigos no final. Luiz Antonio (o jovem ator) era a personificação do que havia de interessante para mim naquele momento, e senti que ele percebia que eu pensava assim só de olhar para meu rosto.... talvez eu estivesse enganado.
- É isso aí, pessoal. Vamos curtir! – ele disse, animado, e abraçando a todos. Eu já estava olhando para o outro lado quando me surpreendi com o abraço dele. Tão deslocado que eu estava, nem me sentia mais naquele lugar, como se eu tivesse me esquecido de que estava vivo.
Ele me disse algo, acho que sobre eu estar tímido, não escutei bem. Não lembro o que respondi. (Provavelmente algo bem patético). Meu corpo estremecia com o abraço dele.
Percebi Fernando dançado perto de mim e me puxando.
- Ei, ânimo, rapaz!
- Está muito na cara que não estou me sentindo muito bem? – perguntei, ousando demonstrar insegurança (o que já estava tão óbvio, que seria patético tentar disfarçar).
- É, não é seu ambiente, né? – ele disse, sendo simpático e com um ar de compreensão. – Não quer beber um pouco para relaxar? Ah, desculpe, esqueci que você não bebe... bom, mas acho que se você desse um gole talvez se soltasse, mas...
Alguma loucura tomou conta da minha cabeça e, antes de pensar duas vezes, peguei a garrafa dele e bebi.
- Hahaha! Isso mesmo, se beber rápido assim, vai dar a maior onda.
- Preciso beber, ou vou enlouquecer.
Comprei uma garrafa e comecei a beber, beber até esvaziar. O sabor era terrível, parecia beber veneno. Mas não importava, só queria ver se realmente a “onda” da qual Fernando falou me ajudaria a me libertar daquele pânico terrível. Bebi a garrafa inteira e comprei outra. Dentro de alguns minutos, já estava conseguindo dançar um pouco mais leve e com um pouquinho menos de vergonha. Olhei para Fernando ao meu lado e me aproximei dele. (O que a bebida não faz, heim?)
- Nossa, está até mais soltinho, heim... é você mesmo? - ele perguntou.
- Sabe o que faria minha noite ser perfeita agora?
- Ai, meu Deus... – ele respondeu, rindo – o quê?
- Me dá um beijo agora! - (Como eu detesto lembrar de ter dito isso, puta que pariu vinte vezes)!
Ele riu timidamente e disse algo como “não, tem muita gente conhecida aqui, não vou dar bandeira”.
Não insisti, só me afastei fingindo que estava tudo ótimo. A vontade de beijar Fernando passou imediatamente, e deu lugar a uma grande vergonha. Como eu havia sido estúpido de pensar que o que deveria um dia ter sido um garoto “popular mais bonitinho da turma na escola” se aproximaria de mim agora. Alguns minutos depois, eu o vi se agarrando com um garoto extremamente musculoso. (Acho que nem preciso dizer que o complexo do menino magrelo da escola apareceu para mandar um "oi").
Foi quando Luiz se aproximou de novo.
- E aí, galera? – e, olhando para mim – Ei, você até que está mais soltinho, tudo bem?
Dessa vez eu o abracei antes dele.
- Ei, lindo, gostei do seu chapéu, sabia? – ele me disse.
- Gostei mais de você. – eu disse alguma coisa assim. Sim, isso mesmo, bem brega! (Alguém me dê uma jogue um balde de água fria, por favor? Hauhahauah).
Coloquei meu chapéu na cabeça dele e fiz um carinho em seu rosto. Ele saiu sorrindo. Só depois de um tempo é que me dei conta de que ele tinha, sem querer, ido com meu chapéu na cabeça. Sem meu chapéu, era como se eu estivesse nu. O pessoal já nem me reconhecia, nunca tinha me visto sem ele.
Olhei em volta e, entre a multidão barulhenta, vi Otávio se aproximando de Fernando. Os dois se beijaram ardentemente ali, na minha frente. Continuei dançando, fingindo que não via. Alguém perguntou por mim (acho que não me reconheceram, sem o chapéu). Minha cabeça estava meio estranha e não localizei onde foi. Luiz não deveria voltar mais, e já não me importava mais. Tudo que eu queria era chegar à minha casa, tomar um banho e dormir por horas, horas, e horas, e não acordar mais. Não ter que me olhar mais para o espelho e saber que sou eu. Lamentava ter perdido o chapéu, não queria que vissem meu rosto (o que o chapéu ajudava a esconder). Uma irritação e um desconforto terrível, pior do que o do início, começaram a dominar meu corpo.
Foi quando, em uma fração de segundo, tudo pareceu parar. Talvez meu cérebro já tivesse se acostumado ao barulho, e não se incomodava mais, era como se eu estivesse anestesiado. Como se eu tivesse, dentro da minha mente, gritado: “CHEGA!” e o som tivesse sumido. Nesta fração de segundos, ouvi uma voz me chamar e falar comigo.
Olhei em volta e vi um rapaz da minha altura, muito branquinho e com cabelo louro. Seu rosto era perfeito e o seu sorriso, extremamente agradável. Mas eu não queria conhecer mais ninguém. A vida já havia deixado claro meu lugar, e eu já havia entendido.
O rapaz loirinho continuava falando comigo e eu me esforçava para entender. Cheguei perto dele e percebi que ele estava embriagado.
- A amiga de vocês está chocada, não está? - ele disse.
- Como?
- Ela está chocada... homens se beijando na frente dela... chocada...
O rapaz parecia mais inseguro do que eu. Percebi, mesmo em tão pouco tempo, o quanto ele deve ter sofrido preconceitos.
- Ela não está chocada, todos os melhores amigos dela são gays.
- Todo mundo... chocado... eles... as pessoas.... - ele dizia coisas do tipo.
Eu queria me afastar, ir embora dali e nunca mais olhar para a cara de nenhuma das pessoas que participaram daquele meu dia, mas ele continuava me puxando.
- Você está chocado também?
- Não. Mas você quer deixar essas pessoas mais chocadas ainda?
Ele pareceu despertar de um transe e me olhou com aqueles olhos tão tímidos e tão azuis que até mesmo no escuro daquela festa eu podia ver claramente.
Cheguei perto dele devagar e o beijei nos lábios. Uma onda de nojo tomou conta de mim, pois senti um gosto terrível de bebida nele. Educadamente me afastei, estava muito longe do pessoal e tinha esperança de ir para casa de carona com eles. Percebi que o loirinho me seguia e falava comigo.
- São seus amigos? – ele perguntou.
- São sim. Não posso me perder deles, preciso da carona.
- Você é muito especial. – ele dizia, me olhando fixamente por detrás de seus olhos azuis.
- Obrigado. – eu respondi, sem graça, e não muito confortável. – Tenho certeza de que... de que você também é. Preciso ir...
Ele continuava atrás de mim, falando sem parar. Enquanto procurava meus amigos com os olhos, ia tentando ouvir o que ele me dizia e de vez em quando perguntava alguma coisa. Naqueles minutos, eu o ouvi dizer seu nome (Pedro? Será que ouvi bem?), e que morava em Copacaba. Perguntei de onde ele vinha, pois tinha um sotaque forte do sul.
- Porto Alegre! – ele respondeu.
- Que bonitinho! – eu disse, ainda procurando minha turma com os olhos.
Ele ficou ruborizado e seu sotaque pareceu ter ficado mais forte mil vezes, e me surpreendi quando ele pegou minha mão. Alguma coisa estranha acendeu dentro de mim e tirei a mão dele. Aquilo não podia estar acontecendo. Não sei explicar por quê. Posso dizer que essa foi uma das experiências mais estranhas da minha vida, não sei por que o rapaz loirinho me assustava e me repudiava, e ao mesmo tempo me fascinava. Por alguma razão só sabia que precisava me afastar dele.
- Por favor, eu preciso ir embora. – eu disse timidamente.
- Você não vai se esquecer de mim? – ele perguntava com um olhar doce. Eu sentia que já conhecia aquele rosto de algum lugar, era familiar. Apenas uma impressão, lógico. Antes de me afastar definitivamente, olhei para trás mais uma vez e, naquele impulso, pela última vez na minha vida, beijei o menino loirinho.
Fui até onde estavam meus amigos, que já falavam em ir embora. Aquilo me aliviou.
Uma voz me chamou. Era ele, estava junto com um amigo pouco mais alto do que nós, de pele morena e cabelos escuros. Pouco me lembro do rosto dele, mas tinha um olhar lascivo, muito sensual, ao contrário do olhar doce e inocente do menino loirinho.
- Esse é meu colega de trabalho... ele queria te conhecer... – ouvi o loirinho dizer algo assim, com uma voz um pouco entristecida.
- Oi, tudo bem? – eu disse, sem muito ânimo, mas educado.
Ele disse o nome (que eu não tenho certeza absoluta de ter entendido, mas acho que era Rodrigo), se aproximou de mim e me deu beijo. Eu não tinha nada a perder naquele momento, beijei de volta e me afastei.
Otávio me chamou quase no mesmo segundo.
- Ei, estamos indo embora, o pessoal pediu para te avisar.
Saímos da boate.
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